segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A utilização do letramento social no letramento escolar

Dedicatória



"Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para os bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você que está com este jornal na mão.
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,
O resto não passa de crônica policial – social – política.
E os jornais sempre proclamam que “a situação é crítica”!

Mas eu escrevo é para o João e a Maria,

Que quase sempre sempre estão em situação crítica!

E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de casa dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão".
[Quintana, Mario. Dedicatória, in: A cor do invisível, Globo, 1989, p. 26]


Escrevo sobre a práxis nossa de cada dia, a combinar saberes, conhecimento e didática.
Pois, "na realidade, os homens não são manipuláveis indefinidamente em qualquer direção, pois sempre existe um ponto limite, um limes no qual deixam de ser objetos e se transformam em sujeitos".
(Heller, Agnes. O quotidiano e a história. 1972, p.99).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Até sete vezes?

"Blogueiros podem ser responsabilizados pelo conteúdo divulgado em seus blogs, incluindo comentários. Assim, não são publicados comentários que representem ofensa contra os direitos humanos (racistas, preconceituosos, homofóbicos, xenofóbicos, etc), que incitem a violência contra a mulher e a criança, que incentivem a medicalização ou anônimos". Colei aqui de um blog... concordo com o filtro, vida de blogueiro não é fácil! Meu blog está parado por ser fruto de aprendências, da práxis pedagógica. Logo logo aciono, escrevo sobre o que vivencio. O assédio moral existe, o filtro por vezes se faz necessário.

A falta de caráter de um educador que preferiu o anonimato para falar insanidades contra minha família, inclusive a debochar do falecimento de meu irmão, fez-me optar pelo filtro. Aprendeu? Pelo jeito ainda não, continuou a usar outros meios virtuais na tentativa de me atingir. Só se expõe. Pequenez imensa.

- Mas, o amor é magnânime!

"O Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos" [At 2, 46-47]

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

30 de agosto de 1988: dia de luto e luta dos trabalhadores da educação

O que é estar em greve?
Lutar por direitos ou por privilégios?


Apesar da escoriação medir um centímetro de extensão, a dor foi profunda, aguda...
como medir a invasão na carne e na alma educadora?
Não ir para a escola ou deixar os alunos sem aula? Ou dar uma aula de cidadania, mostrar na práxis os significados e o sentido da escola cidadã, feita de educadores que defendem uma escola pública de qualidade em todos os sentidos; que batalham para que o aluno aprenda; que buscam entender as dificuldades de aprendizagem e a questão das diferenças que pode estar atrapalhando o desempenho do coração do estudante, ou seja, de seu corpo inteiro.


Quem diz que está de greve e fica no sofá da sala, dentre lençóis da cama ou entre embrulhos das compras, pode dizer que luta pela classe que representa? O que é o ônus e não somente o "bônus" da profissão? Deixar que o outro faça ou sofra as consequências sozinho? É preciso mostrar a cara na luta, ter assinatura e não ser somente um anônimo, que se acovarda ou se privilegia.

Dia de greve não é dia de folga. Também, é preciso contribuir com o Sindicato dos Professores, mês a mês, participar de reuniões agendadas ou outras formas requeridas, para que tenhamos sempre boa representação e com debate competente e ético.

Ser professora e orientadora educacional é estar na escola lutando contra o analfabetismo, as dificuldades de aprendizagem, valorizar a participação dos estudantes através de seus representantes de turma, ou a criação/mediação dos grêmios estudantis.


"Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. Assim em cada lado a lua toda / Brilha, porque alta vive".
Ricardo Reis, segundo heterônomo criado por Fernando Pessoa, em 14-2-1933.
Referência
Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Ed. Ática, 1994.

sábado, 3 de agosto de 2013

Crianças ou adultos como sujeitos de afetos e não objetos de ensinagens

Como acontece a fala e a escuta em sala de aula? Onde se situam o lugar e a posição das falas e das escutas? Quem são os sujeitos interlocutores nesses lugares, posições e tempo? Quando acontece a troca?


“O mal-estar na escola tem diversas faces para serem olhadas e pensadas: é como se olhássemos um cubo, que tem seis faces, como sabemos, mas só podemos, de um determinado lugar, ver três faces, é necessário que nos desloquemos para que vejamos todas as faces” (OUTEIRAL, CEREZER, 2003, p.1).

Escutar é dar sentido ao espaço que cerca o aluno. Ouvir ditos e não ditos, produz-se, amplia-se e repete-se o afeto prazeroso e desprazeroso. Na repetição pode emergir o processo da criação. Na fala, a falta, a lacuna, o desejo ou o recuo. Escuta sensível mexe com afetos. A fala se reorienta no processo do ensino-aprendizagem. O saber do aluno e o conhecimento da forma apresentada pelo professor cooperam na compreensão do conteúdo exposto. A leitura ajuda a reler o dito e o não-dito, mexe com os significantes e o significado das relações. A pesquisa ajuda nas releituras do conteúdo, sob novos pontos de vistas e com isso facilita a formação de opinião, que pode afirmar ou negar o dito pelos não-ditos ou outros ditos.

A fala faz fazer operar na sua cadeia de palavras, o divórcio entre significante e significado e aí o sujeito do inconsciente emergirá nos tropeços da fala, nos atos falhados, nos chistes, nos sonhos etc. A fala, fala, mas esta é incompleta porque o sujeito falante sempre tem algo por dizer, a fala comporta um furo no dizer, um semidizer.

Uma lição a ser ressignificada, é preciso saber matar o mestre, aprendendo a falar, escutar e a tornar o mestre de si mesmo. Uma rede de sentidos, escutas, falas, faltas, afetos. A autoria acontece nesse movimento intenso de argumentação e contra-argumentação, de ensino, pesquisa e releituras.

Na escola com crianças menores de sete anos a gente aprende a ouvir como se aprende a ler o mundo através da palavra e sua rede de significados. A palavra loja revela o lugar de trânsito diário, da proximidade de moradia do colega, do ponto de referência que marca o início de uma rua, o lugar de compras, o sorriso dos encontros diários, os olhares desconfiados, os compassos furtivos, acenos de alegrias, o sonho de consumo, o endereço de brinquedos, e não somente a confusão fonêmica do "g" na consoante "j".

A fala e a escuta ocupam um lugar singular no modo de educar.

No lugar de avó fortaleci ainda mais a maneira de olhar a criança como sujeito de afetos, sem pressa para aprender sobre seus movimentos, gestos, falas e faltas e não no afã de que aprenda algo mas, que veja o belo em tudo que vê, onde aprenda a respeitar o outro, o diferente, o exótico. Compreendendo os sinais da ansiedade, do medo, da falta, da falha, da brecha e da indagação como importantes para motivar a busca, a reinvenção.

O que se cultiva em outros meios, como as pessoas de outros espaços, discursos, lugares ou tempos, aprendem com o seu meio e o que esse olhar múltiplo ajuda a gente a se refazer em nossas relações cotidianas e complexas?

Entram aí nesse contexto das aprendências, a palavra letramento e o desafio de se alfabetizar letrando. Questões bastante presentes em turmas das séries iniciais, de educação infantil ou salas de alfabetização de adultos onde aprendemos a nos apropriar do discurso escrito através da palavramundo*. E bem ali próximo do universo aprendente dos sujeitos de afetos, prazerosos ou não, provenientes de sedução, de relação transferencial, de situação ambivalente, de repressão ou frustração, sempre observadas nas relações com objetos de estudo e nos mais diferentes ambientes educativos de uma escola ou comunidade escolar envolvida.

No conjunto é preciso saber enlaçar educação, representação e afetos como escuta de interfaces a ser construída nas relações do processo educativo que acontece na escola ou na vida. Ensinantes e aprendentes, em seus papéis de escuta, fala e falta, trazem nos atos educativos seus afetos manifestos ou latentes que facilitam ou dificultam a troca de conhecimentos.

Nessas releituras, “vamos bordando a nossa vida, sem conhecer por inteiro o risco; representamos o nosso papel, sem conhecer por inteiro a peça. De vez em quando, voltamos a olhar para o bordado já feito e sob ele desvendamos o risco desconhecido” (SOARES, 1990, p. 25).

* palavramundo, é neologismo, criado por Freire (1982), para nomear os contatos iniciais do sujeito leitor do mundo em suas múltiplas dimensões, ou seja, por ser a leitura da palavra, para ele, sempre precedida da leitura de mundo.

Referências
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 13 ed. São Paulo: Cortez, 1982.
OUTEIRAL, José; CEREZER, Cleon. O mal-estar na escola. Rio de Janeiro: Revinter, 2003.
SOARES, Magda. Metamemória, memórias: travessia de uma educadora. São Paulo: Cortez, 1990.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Livro para morar

Livro para morar...
Estátua de Hans Christian Andersen servindo de moradia para crianças no Central Park, Nova Yorque.
Neste mundo virtualíssimo, o encanto continua, o livro ainda fascina crianças, os educadores reencantam-se, o conhecimento se difunde no mundo tecnológico, as inteligências se multiplicam nas redes e a vida se torna cada mais interdependente, sustentável, solidária. Pera aí... "E os poços de fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia...", coisas de Alice no País das Maravilhas (Lewis Caroll).
"Eu sei que algo interessante sempre acontece...", e logo Alice encontra a lagarta azul, quase próxima da transformação.

Reencanta-se...

E sobre os livros onde crianças possam morar dentro, o mote de Monteiro Lobato, no começo do século passado? Que tal começarmos, na educação de nossas crianças, com uma bebeteca em casa? Pelo menos, por aqui, a gente acredita e a Dona Sofia faz a festa, dia-a-dia, com seus livros na estante, bem a seu alcance. Os livros estão entre seus brinquedos prediletos. Mas, ela entrou em crise dias desses, pois queria ali materializar o fato de entrar no livro, construiu um caminho com eles e, ao final da linha, largou o engatinhar, subiu no último, a pedir para nós: "abra, abra", e eu disse a ela brincando: "trouxeste a chave?", drummondiando. Olhou-me com aqueles olhinhos de quem tenta entender adultos pegos de surpresa... É, mas, são as crianças que têm as chaves dos saberes e dos encantos que reencantam adultos, ou são elas que despertam as nossas crianças escondidas. Não sei ao certo. Estamos mesmo bem conectadas, pessoas e crianças, e é só nos dispor a ouvi-las. Assim tenho pensado nesses últimos dias dos últimos dois anos com a pequena Sofia entre nós.
Hoje, crianças, jovens ou adultos vivem conectados, circulando ideias, movendo telas, exercitando o ato de compartilhar e recriar o mundo, pois, são esses os novos tempos interativos e virtuais. Nas telas há variados estilos, conturbados, incompletos, e até suspeitos na produção on line. Importante aprender a se expressar com devida autonomia e autoria, com maneiras criativas de expressão própria, ativando identidades. E que sejam para um mundo melhor para todos. 
Aprendendo a Aprender com a Dona Sofia
Aproveito para repensar as aprendizagens sobre a inteligência humana, pois segundo Piaget, "as funções da inteligência consistem em compreender e inventar, em outras palavras, construir estruturas estruturando o real" (Piaget, 1998, p.36), e daí me deparo que o livro na infância é tudo isso e muito mais. Reinvenção. "Se eu tivesse um mundo só meu, tudo seria um disparate. Nada seria o que é, porque tudo seria o que não é...". E coisas do balacobaco acontecem. Puft. Plum. Somem. Desaparecem. Modificam-se. Modernas são as demais tecnologias, mas, o livro cumpre o papel imaginativo, sensorial, psicomotor e social, mais delicioso que existe, desde ali com o bebê. Tocar, cheirar, virar... o avesso do avesso do avesso. Vai espiando o mundo com novos olhos em nossas conversas e contos.

Sofia adora assistir as histórias na tela do celular, do computador, do tablet, com as mídias bem integradas, animadas com todas as motivações possíveis. Mas, o livro continua sendo insubstituível para as crianças. E isso me deixa muito contente como pedagoga que sou e amante das crianças.

Referências
- Carroll, Lewis. Alice: edição comentada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
- _____. Aventuras de Alice no país das maravilhas; Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
- Alice_in_Wonderland. in: http://www.cswap.com/1951/Alice_in_Wonderland/cap/pt/25fps/a/00_03
- Piaget, J. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.