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sábado, 25 de agosto de 2012

Identidade da Criança: pensar curricularmente e agir didaticamente

Saul Steinberg

A criança precisa se perceber como um ser histórico na realidade para atuar e compreender as relações estabelecidas nela, constituída pela natureza e sociedade. Implica noções de tempo e espaço, produções de necessidades e transformação, sobrevivência e transcendência, ética e estética.

A criança começa a se relacionar com o meio a partir do estudo de seu nome e o seu ligar no mundo. Ser e Estar. Ter e Sonhar. Querer e Poder. Os papéis maternos e paternos, seus irmãos e família, a moradia e suas relações, a tecnologia e as possibilidades, os cuidados e a vida no seu conjunto.
Saul Steinberg

Repensamos, como educadoras em reuniões de formação continuada, os eixos articuladores do processo educativo de construção do conhecimento: o estudo da criança e os aspectos relacionais: SER HUMANO – NATUREZA – TRABALHO.
A FAMÍLIA, na visão da criança de 3 anos, é a MAMÃE, porque o pai foi embora...

Na educação infantil é importante considerar a própria criança como ponto de referência para o desenvolvimento das noções básicas das relações com a realidade a partir de seu meio, do lugar mais aproximado e projetado dessas relações sociais e ambientais.
Família - Saul Steinberg
Curricularmente pensamos e articulamos:

1.       Relações de trabalho
a.       Trabalho do aluno
b.      Trabalho das pessoas
c.       Trabalho da cidade – foco em Belém (Pará - Brasil)
d.      Trabalho do campo (é no lugar onde mora – Assentamentos x Praia do Paraíso x Ilha de Mosqueiro)

2.       Relação com o meio ambiente
a.       Elementos do meio ambiente
b.      Elementos do meio cultural ou social
c.       Elementos do meio urbano (aspectos citadinos nesse canto da Ilha)
d.      Elementos do meio rural (aspectos do campo nesta parte da Ilha)

3.       Relações individuais e coletivas
a.       Atividades dos alunos
b.      Atividades das pessoas
c.       Atividades dos grupos na cidade
d.      Atividades dos grupos no campo

4.       Relação com o cotidiano
a.       O cotidiano do aluno: moradia, lazer, usos e costumes, religiosidade, tecnologia
b.      A vida cotidiana dos grupos da cidade: lazer, moradia, usos e costumes, religiosidade, tecnologia
c.       A vida cotidiana dos grupos do campo: lazer, moradia, usos e costumes, religiosidade, tecnologia
d.      Questões do cotidiano da cidade e do campo, noções de ecologia

Objetivo: Possibilitar, às professoras e coordenadoras, discussão sobre situar-se no contexto educacional, a escolarização do conhecimento, as formas de aprendizagem, a necessidade do planejamento coletivo e a produção de projeto pedagógico próprio a partir dos saberes da criança e a ser desenvolvido com o próprio alunado de sua turma no conjunto da escola, como exercício de cidadania.

Saul Steinberg, 1952
Perpassamos por definições de planejamento e concepção de criança repensando conceito de “situações significativas”, pois, é preciso planejar um contexto educativo, envolvendo atividades e situações desafiadoras e significantes que favoreçam a exploração, a descoberta e a apropriação de conhecimento sobre o mundo físico e social e viabilizem as experiências do alunado com o seu entorno, repensando as interações qualitativas entre adultos-crianças, crianças-crianças e crianças-objetos-mundo físico:

(1) planejamento baseado em listagem de atividades (definido pela necessidade de ocupar as crianças, atividades de acordo com o tempo e não com o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças, a criança aparece passiva sem particularidades ou necessidades específicas, espera pelo atendimento do adulto, sem nada a dizer ou expressar, sem voz e nem vez);

(2) planejamento baseado em datas comemorativas (não amplia o repertório da criança, menospreza a capacidade de ir além do conhecimento fragmentado e infantilizado, a marca do trabalho é a fragmentação dos conteúdos, qual é o papel da escola: repetir/reproduzir o que circula na sociedade em geral ou discutir e questionar os conteúdos e vivências que trazem as crianças? quem lucra com as datas comemorativas é o comércio...);

(3) planejamento baseado em aspectos do desenvolvimento (essa perspectiva considera aspectos físico-motor, afetivo, social e cognitivo, secundariza ou desconsidera questões relacionadas à construção do conhecimento, à aprendizagem, toma por certo a existência de uma criança ideal não leva em conta a criança real, concreta, historicamente situada, com características diferenciadas, determinadas pelo seu contexto ou origem sociocultural, situa-se no campo da educação infantil com objetivos em si mesma);

(4) planejamento baseado em temas (preocupa-se com aspectos que façam parte da realidade da criança, coloca em foco suas necessidade e perguntas, considerando como significativo todo conteúdo que faz parte da realidade imediata do aluno, mas, na prática, a escolha do tema acaba sendo um pretexto para a listagem das atividades, que passa a ser sua necessidade primeira e não os conhecimentos envolvidos, o questionamento da criança, sua pesquisa e exploração);

(5) planejamento baseado em conteúdos organizados por áreas do conhecimento (o canal de articulação é o conhecimento socialmente produzido e historicamente acumulado pela humanidade, é uma proposta conteudista – caráter pedagógico da educação infantil, mas, conforme indica Machado (1996), o pedagógico não está na atividade em si, e sim na postura do educador, pois, “não é a atividade em si que ensina, mas, a possibilidade de interagir, trocar experiências e partilhar significados é que possibilita às crianças o acesso a novos conhecimentos”, é o que se passa nas trocas afetivas, em todos os momentos do cotidiano com as crianças, envolve na educação infantil cuidado e educação, afinal, de contas a atividade educativa não ocorre somente em momentos especialmente planejados, inclui o que se passa nas trocas afetivas entre adultos e crianças, desde o horário de entrada e as diferentes situações vivenciadas na escola);

(6) planejamento por projetos (deve ter como base a observação do grupo de crianças e seus interesses, a observação é o grande impulso para o planejamento por projetos, privilegiando o olhar da criança, o que ela pede ou questiona, o educador delineia a partir de uma séria e intensa pesquisa, as possibilidades de trabalho, os assuntos a serem estudados, as situações a serem propostas, as atividades a serem realizadas, ou seja, assuntos-atividades-situações significativas se integram, estão em uma teia bem tecida, sem hierarquização, o projeto pressupõe pesquisa e educar pela pesquisa através do questionamento reconstrutivo e educadores e seu alunado. O educador cuida para não cair na improvisação e sim guardar coerência entre o proposto e o viável, analisa objetivos e procedimentos, estabelece tempo de projeto, nem sempre o previsto é tempo real, entra aí a flexibilidade e a dinâmica através da avaliação constante do processo).

Formação Continuada
O planejamento compreende a atitude crítica de cada professora diante de sua prática, pressupõe autonomia e cooperação. O planejamento é como um roteiro de viagem e que podem incorporar novas perspectivas, novos roteiros e novas aventuras. O olhar atento e a escuta sensível do educador é primordial no processo dialógico das vivências pedagógicas, o planejamento é como um porto-passagem, cujo ritmo se constrói com seu grupo de crianças.

Alguns lances dessa práxis pedagógica de formação continuada e em serviço:
Redescobrindo a Escrita do Nome Próprio e as suas Múltiplas Relações
Processo de Colagem vivenciado por Crianças de 4 anos

A palavra CASA redesenhando o contexto
a partir de suas histórias
Pensar e discutir sala de aula - é mesmo provocativo para muitos educadores, é um espaço múltiplo que comporta diferentes relações e oposições importantes. Entretanto, a formação continuada ajuda-nos a saber pensar a qualidade do trabalho pedagógico e a dialogar cada vez mais com a realidade vivenciada no processo ensino-aprendizagem.


Letramento - análises dos rótulos e perceber as diferentes relações existentes aí...

"Coordenar o debate, alimentar a participação dos alunos, favorecer o pensamento cooperativo, propiciar situações de 'conflitos cognitivos' estimuladores da crítica e da desconstrução, criar momentos de síntese e de revisão do caminho percorrido e dos avanços alcançados, estimular o processo de reconstrução e de elaboração de novas formas de pensar e de significar" (Garrido, 2001).
- "Sala de Aula: eis uma realidade que contém muitas realidades" (Régis de Morais, 2008, p.7).


Referências
(1) Garrido, Elsa. Sala de Aula: espaço de construção do conhecimento para o aluno e de pesquisa e desenvolvimento profissional para o professor. In: Castro, Amélia Domingues de; Carvalho, Anna Maria Pessoa de (Org.). Ensinar a ensinar. São Paulo: Pioneira, 2001. (p.125-142)
(2) Machado, Maria Lúcia de A. Educação Infantil e currículo: a especificidade do projeto educacional e pedagógico para creches e pré-escolas. São Paulo, 1996.
(3) _____. (Org.) Encontros e desencontros em educação infantil. São Paulo: Cortez, 2005.
(4) Morais, Regis. (Org.) Sala de aula: que espaço é esse? 21 ed. São Paulo: Papirus, 2008.
(5) Sacristán, José Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 1998.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Festa Junina: repensando espaço de cultura, ludicidade e ética


Na escola deparamo-nos, ano a ano, no período junino, com a questão das crianças que não podem participar desta atividade curricular.
Cheiros, texturas, entrelaçamentos, cores, sabores,
gentes, histórias e movimentos: show de cultura
Os educadores recolocam questões e argumentos, para pensar com a família, como ludicidade, raiz cultural e folclórica, componentes típicos do lugar, socialização entre crianças, integração família, escola e comunidade, ou problematizam conflitos entre o rural e o urbano, as diferenças, os preconceitos e a ridicularização dos trabalhadores rurais como se fossem por gosto, ingênuos ou palermas.

As instituições de ensino não tem o direito de obrigar as crianças a participarem de qualquer manifestação cultural, de acordo com o Planejamento Curricular Nacional, e no terreno da religiosidade e do sincretismo religioso, o conflito parece meio sem solução. Algumas crianças evangélicas passam por constrangimento ao não participarem desses eventos escolares.

É bom verificar a proposta pedagógica, pois, este assunto deve ser conversado com respeito entre famílias do alunado e a escola, e de preferência, no tempo do planejamento anual lá no início do ano letivo.

Patchouli? Pamonha? Esponja?
muitas impressões mediadas pelas professoras
Na nossa escola, é o tempo de revisarmos os conteúdos e rodas de conversas e valorizarmos os quintais de alunos e alunas, seus bichos, suas plantas, suas histórias e a cotidianidade familiar, incluindo hábitos e culturas alimentares próprios e sociais. Pois bem, as músicas ficaram à escolha dos alunos e dentre elas alguns poemas e cantigas de roda trabalhados no semestre. É uma variedade cultural e histórica.

É importante lembrar que no Capítulo II do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estão previstos mecanismo de proteção à cidadania.


Art. 15 A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

Art. 16 O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: (...) II – Opinião e expressão; III – Crença e culto religioso.

Art. 17 O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.


Quanto ao aspecto religioso, segundo I Coríntios 10:23, se tem a liberdade de dizer sim ou não, pois a palavra também liberta para João 8:31-2.


À escola cabe saber mediar os conflitos e convidar a todos a pensar sobre a multiculturalidade - a forma de reconhecer, respeitar e conviver com as diferenças culturais presentes na sociedade, sendo que, nesse processo, a educação cumpre um papel decisivo no exercício da cidadania e contra a exclusão ou autoexclusão de raça, sexo, cultura, credo ou outras formas de discriminação.

Coisas da vida e suas gentes!

terça-feira, 8 de março de 2011

Desenhos e atitudes: relações aprendentes na escola


Alunos ajudam professores a identificar local onde ocorrem constantemente as agressões na escola.

Quando socializava parte da pesquisa com mais de cem professores da escola fiz algumas observações sobre dicas de bullying representadas pelo alunado, principalmente, em seus desenhos.

Destaco a ocorrência de um mesmo ponto indicado por alguns alunos da amostra localizada em uma das unidades pedagógicas da escola e que fica em outra ilha de Belém. O enfoque do "paredão" me chamou muito a atenção. Este é um dos motivos que devemos aprender a ler desenhos de crianças ou jovens, com cuidado e muita habilidade na discussão. Eles retratam a sua realidade de forma mais aberta que no discurso escrito. E por lá nos dão pistas de sua cotidianidade.

Depois do alerta, o grupo de professores da UP se reuniu com a coordenação para pensar na melhor estratégia de recolocar a questão bullying e tratar o problema e não somente com as turmas envolvidas na amostra. Identificaram o local. Um pouco escondido dos olhares adultos.

A pesquisa vai ganhando seus ares pedagógicos com a competência docente e sua habilidade de lidar com a situação. Isso faz bem a todos! Fico feliz e espero que os alunos consigam ser mais felizes ainda e melhorar o seu desempenho escolar na vida que também nos atravessa e envolve.

O trabalho pedagógico tem muito chão a se desenvolver neste ano.

Observe, logo abaixo, algumas dessas representações dos alunos que mexeram com aquela unidade pedagógica. É o paredão!
Luiz, 9 anos
Bruno, 9 anos
Ivan, 13 anos
Ivanildo, 13 anos
Nosso planejamento envolve o feedback para todos os 762 alunos em suas novas turmas neste ano. A pesquisa aconteceu de outubro a dezembro de 2010. Estamos mapeando onde eles estão em 2011. Muitos deles agrupados juntos a novos alunos. Melhor ainda. Tudo ganha novo sentido quando a palavra é recolocada partindo das percepções dos próprios alunos, assim poderemos melhor conduzir o trabalho com os diferentes grupos de coordenação, professores, funcionários e com as famílias dos alunos em reuniões específicas.

Todo esse movimento pedagógico é muito importante para o contexto da escola e o desenvolvimento de seu currículo. Dentre os planos está a criação de um projeto que envolve a questão cultural e em suas múltiplas linguagens.

- Você assistiu ao pianista/maestro João Carlos Martins que regeu o público presente no carnaval de São Paulo?

O pianista virou maestro por conta do problema sério que teve com suas mãos. O maestro levou a música clássica também para crianças carentes. Belo projeto. Ali junto ao povo brincante na arquibancada e nos camarotes as vozes são ressignificadas. A beleza envolve a todos. Sempre. A emoção transborda. A realidade pode ser modificada pela fruição. Acredito na força da cultura para trazer mais cor e vida à escola e vontade de aprender.

 "A Música Venceu", samba-enredo da Vai-Vai no Carnaval 2011
"Feliz da vida lá vem o Bexiga
Exemplo de comunidade
A música venceu
O dom é luz que vem de Deus
Da emoção Vai-Vai resplandeceu
Dos céus, em um cortejo divinal
Os deuses da inspiração
Lançam talento a um mortal
Um ser abençoado, que hoje brilha neste carnaval
As sinfonias de Bach regeram seu destino
Orgulho brasileiro
Jovem pianista genial
Em preto e branco, sucesso internacional
Na sua fé, resistiu
E a dor da adversidade, suplantou
Com muita garra e amor
E assim, na sua força de superação
Buscou a verdadeira vocação
Um novo incidente o quis derrubar
Mas com maestria se pos a lutar
Por seu ideal
Luz da Ribalta que jamais se apagará
E ao som de bravos e aplausos
A Saracura agora vem cantar"

sábado, 1 de maio de 2010

Redes sobre idéias: a tessitura de maio


Maio, tempo de celebrações previstas, dias do trabalhador, das mamães, das noivas, mês do cotidiano, das conquistas, do amor, da criação, da Vida. Nichos culturais. Tempo de rediscutirmos sustentabilidade, sazonalidades, mídias, condicionantes culturais, supérfluos e consumismo? De falarmos de sentimentos e integração? Quantas possibilidades a tecer conhecimentos! Os fios tricotam teias, tecem casulos e toda a colméia. Intuição geométrica dos animais. Equidade. Harmonia. Educação Ambiental.

Dentre as opções, pensei em algo que unisse os temas de maio em uma única partitura, ou seja, uma composição que pudesse abraçar a um tempo de cada instrumento e cada voz. E me veio Caetano Veloso e sua “Mel”. Pura ilusão? Sonhos e ligações impossíveis?

Ó abelha rainha faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direita claridade do céu
E agarro o sol com a mão
É meio-dia, é meia-noite, é toda hora
Lambe olhos, torce cabelos, feiticeira vamo-nos embora
É meio-dia, é meia-noite, faz zumzum na testa
Na janela, na fresta da telha
Pela escada, pela porta, pela estrada toda a fora
Anima de vida o seio da floresta
O amor empresta a praia deserta zumbe na orelha, concha do mar
Ó abelha, boca de mel, carmin, carnuda, vermelha
Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do seu prazer

Se “todo ato humano é uma metáfora antes de ser um ato”, segundo Bach (1995, p.174) poderemos ajudar o processo criativo dos alunos solicitando que teçam novas teias, e em seus favos, alimentem-se de idéias e cooperações – co-produzindo vidas. Processos pedagógicos que incluem o questionar e o reconstruir. Habilidades didáticas. Co-autorias.

Em meio ao ano, maio não dá um bom projeto com crianças e jovens de todas as idades? Se encaixa no cronograma em ação? É possível propor a eles pensar em algo que integre suas representações - incluindo as do mês em flor – e, de forma dialógica e criativa, re-olhem o cotidiano e articulem sentimentos integradores e mais harmoniosos. O olhar crítico permeia. Somos diferentes e únicos. Na diversidade, a possibilidade de manter relações interdependentes. Diversos e únicos. Paradoxos integrados.

Pensar e fazer. Teoria e prática. Sonho e realidade. Luz e sombra. Cores e ausência de luz. Naturezas interligadas. Assim, lembramos que “tudo o que vemos e tocamos foi um dia uma idéia invisível” (Bach, 1995, p.86).

Sobre estudos e conhecer com mais significado lembramos que apesar de tudo precisamos produzir sentidos, pois, “quando [se] adquire o conhecimento antes da experiência, nem sempre ela faz sentido de imediato” (Bach, 1995, p.174). E aí está o papel do professor e sua capacidade de mediar as relações entre o fazer, o pensar e suas releituras, proporciona ao aluno a capacidade de reescrever a vida!

Este é o papel do educador que acaba aprendendo com a criatividade do aluno. E o aluno com as oportunidades de reescrever o mundo. Estímulos, interesses e significados. Lançamos redes sobre idéias. Revisitamos a história e possibilitamos novos caminhos redesenhando as trilhas do saber. A escola vai cumprindo sua função educadora das aprendizagens.
Colméias dos saberes, favos que alimentam, nutrientes que energizam e substanciam diferentes idéias e possibilidades de integrar as naturezas que perfazem a Vida, redescobrindo a alegria e o amor.

É maio reencantando a educação. Tempo de renascer. Boas metáforas que se materializam nos produtos que recriamos. Escola da Vida. Enfrentamentos do Amor. Possibilidades de superação. Todos somos capazes de aprender. Sentimento de inclusão. Fim. Recomeço. Ciclos contínuos. Novas teias.

P. S. Algo incrível aconteceu após postagem do tema, bem próximo da tela de meu computador e pela janela chegou uma inesperada visita. Cheirou meus lápis e canetas, passeou por papéis e livros. Não me recordo de ter visto uma por aqui: a dona abelha. Bela coincidência! Foi embora desiludida.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Pedagogia do Encantamento: serenidades e sinergias como antídotos necessários para viver


Olho para a escola e me preocupo com a realidade que nossos olhos são capazes de ver. Onde está o aprender com alegria e prazer? Nas décadas de 70 a 90 falamos muito acerca das necessárias criticidade e criatividade para transformar o que achávamos importante. Mesmo que nos silêncios e nas caladas das noites. E hoje, onde queremos chegar? Segundo Paulo Freire (1996, p. 160), “a afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade (...) e ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”, as crianças que ainda estudam imobilizadas nas salas de aula ou trabalham clamam pelo sentimento e sentido de infância, poesia e abraços, protagonismos e autorias. Mais que comida. Comer sim, com sabor e saber. Bom apetite!

Pensar o currículo da escola para e com os estudantes, as crianças da comunidade, os filhos, os sobrinhos, os netos e os vizinhos, o que significa? Como se pratica através de projetos pedagógicos próprios construídos a partir deles e com eles e não para eles?
Reunir e tricotar com diferentes movimentos, tamanhos e fios de diferentes novelos, cores, espessuras, texturas, técnicas e artes. Fios ou lãs? Depende do tempo e do espaço local, do objetivo, do processo e produto final, do desejo, do modelito e nas circunstâncias previstas ou não.

Nicolescu (1999), nos fala de uma educação que se dirige à totalidade aberta do ser humano e não apenas a um de seus componentes. Estamos a repensar acerca da necessidade de se ter clareza e compreender o que não está evidente, de re-olhar o óbvio, conceber o currículo na escola, desconfiar do lugar que falamos, ressignificar a caminhada ou trajetória definida, e se perceber humilde ao reencontrar a palavra de que não sabemos o que sabemos, do que significa o “só sei que nada sei”...

Como tirar os meninos da violência e das drogas que circundam a racionalidade alucinógena? Por que os meninos querem fugir da realidade e não enfrentá-la? Por falta da afetividade, da amorosidade, do abraço, do olhar cuidadoso... É uma boa hipótese!
Pensamos em jogos e lúdicos, conteúdos e ciências, moral e ética, atualidades e historicidades, representações e interpretações, realidades e sistemas semióticos ou computacionais, projetos e desejos, sonhos e esperanças, enfim, cuidamos da coexistência do corpóreo e da intelecção nas abordagens pedagógicas. Paradoxos importantes para ampliarmos o olhar.

Droga e sexo, amor e afetividade, emoções, sentimentos e racionalidades. Se ao invés de reiterar a violência falarmos do amor e suas relações, mencionarmos a respeito do meditativo, contemplativo, mas, também nos preocupamos com a expressão, a comunicação, a troca sensível e ética? Quais as implicações da ausência do cuidado com a sensibilidade (emoções, sentimentos, intuição, simpatia, corporeidade, imaginação/imaginário, poético, razão compreensiva) nas práticas educativas?

É preciso falar da fruição da sensibilidade no processo do educar que sabe interligar o apolíneo e o dionisíaco, a lucidez e a ludicidade, os pensares e os sentires... Como potencializar a emergência dos sonhos que nos inspiram a viver e a amar? Educar supõe busca de sabedoria na afirmação e na re/criação de sentidos que colorem/cromatizam e dão vida ao nosso existir.

Vamos repensar o dito e o não-dito, paradoxo inquietante, diante da leitura dos números abaixo, referente às matrículas efetuadas na EJA em 2010, resultados obtidos na própria escola:

EJA Gênero Idade 2009 2008 2007 2006 2005
2ª. et. Aluno 15 Retido Retido Retido Retido Progredido
3ª. et. Aluna 16 Retida Retida Retida Progredida Retida
3ª. et. Aluna 16 Transferida Retida Retida Retida Progredida
3ª. et. Aluna 53 Retida Retida Retida Retida Progredida
3ª. et. Aluno 20 Retido Retido Retido Retido Retido
3ª. et. Aluno 20 ---- ---- Abandono Retido ----
4ª. et. Aluna 27 Retida Retida Retida Progredida Retida
4ª. et. Aluna 58 Desistente Retida Retida Retida Progredida
4ª. et. Aluno 19 Retido Retido Retido Retido Progredido
4ª. et. Aluno 19 ---- Abandono Retido Retido Retido

Por que os meninos e as meninas entram e saem da escola (2005-2009), fracassam três, quatro ou cinco anos seguidos e depois retornam em 2010? O que eles mais desejam da escola? O que eles vem fazendo para alcançar os seus sonhos? São algumas das perguntas a esses meninos que denomino como “grupo de risco”. Outras questões decorrem e se desdobram a partir das falas de desejos e sonhos, realidades e retornos, porvires e sucederes.

Há um caminho a percorrer, um risco que exige fôlego para pensar a partir de seus depoimentos/sentimentos e necessidades de novas vivências pedagógicas. Assim desejamos re-olhar a realidade propondo-nos a trilhar com eles para somente nos desafiar a pensar sobre práticas pedagógicas mais significativas. Eles buscam transformar a realidade e não fugir dela. Por isso a droga e a marginalidade vão perdendo espaço para os sonhos e as esperanças! A educação e os educadores ganham espaço na comunidade a favor da Vida. Chega de drogas e violência! Viva o AMOR! Um brinde à saúde e à Paz que merecemos.


(...)
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

(Almir Sater, Tocando em Frente)


Post-Scriptum: Que maravilha as coincidências dessa vida blogueira, passeando pelos Blogs dos amigos encontrei o link para esta postagem lá na Blogosfera Marli, vale a pena chegar lá de mansinho, ouvir Lenine e navegar nas palavras da postagem da professora, que está vibrando com a oportunidade de novamente trabalhar com crianças da educação infantil, essa turminha ela chama carinhosamente de "Meu Jardim", por ser um lugar de muitas aprendências, pois, lá a gente também "canta, dança, conta histórias, faz de conta, imagina monstros e fadas, chora e ri com a mesma intensidade e verdade". Divinamente humana! Vamos embarcar nesse trem e conhecer as colinas do lugar onde mora Fiorentin? Uma bela e típica cidade gaúcha!
Referências

ANDRADE, Carlos Drumonnd de. Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1987.
ASSMANN, Hugo. Paradigmas educacionais e corporeidade. Piracicaba, SP: Unimep, 1993.
BARBIER, René. A escuta sensível na abordagem transversal. In: BARBOSA, Joaquim Gonçalves. Multirreferencialidade nas ciências e na educação. São Carlos, SP: EDUFSCAR, 1998.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A canção das sete cores: educando para a paz. São Paulo: Contexto, 2005.
BYINGTON, Carlos Amadeu B. Pedagogia simbólica: a construção amorosa do conhecimento do ser. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
GUSDORF, Georges. Professores para quê? para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
LELOUP, Jean-Yves. O corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
MATURANA, Humberto; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.
NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999.
SANTAELLA, Lúcia. Corpo e comunicação: sintoma da cultura. São Paulo: Paulus, 2004.
SNYDERS, Georges. Alunos felizes: reflexões sobre a alegria na escola a partir de textos literários. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

Imagem 1: www.crb.g12.br/.../Bicho_da_Seda/introducao.htm
Imagem 2: http://tevescopio.blogger.com.br/2009_04_01_archive.html (modificada)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Essas crianças... é só do prazer que surge a "vontade" de aprender


As formas de saber são sempre e inevitavelmente locais, inseparável de seus instrumentos e de seus invólucros (Geertz, 1997, p.10).
Estou lendo os relatórios de professores/professoras e juntos re-olhamos a trajetória 2009.

Em uma das Unidades Pedagógicas da Escola Bosque, situada na Estrada do Poção que fica na Ilha de Cotijuba, encontram-se dentre alunos da Educação Infantil algumas crianças que nunca saíram do lugar de onde moram, sequer atravessaram o rio até o Distrito de Icoaraci, em Belém (PA). No começo do período letivo, em 2009, as crianças não se percebiam em um contexto ambiental, mesmo aquelas de séries mais adiantadas da turma multiciclada/multisseriada.

O projeto "Horta do Conhecimento" desenvolve ações com as crianças daquela localidade, que vão desde o cuidado com o ambiente, o preparo do solo, o cultivo orgânico de algumas hortaliças e a produção de lanches diferenciados, na época da colheita. É uma festa para as crianças que além do delicioso cachorro quente tomam suco verde da horta.

O projeto favorece o desenvolvimento da oralidade, a reconstrução dos processos de letramentos e narrativas, de forma lúdica e interativa, com o objetivo de cultivar o que é sagrado: a produção do alimento, o consumo de nutrientes, a (re)educação alimentar a revigorar as relações de interdependência a partir do locus regional, ou seja, de cada ponto das Ilhas onde estão situadas uma das Unidades da Escola Bosque.

As ações pedagógicas se efetivam durante todo o percurso, no entrelugar “da sala à horta”, de afetos e comunicações, observando os componentes naturais nesse caminho e entre trilhas desfilam fauna, flora, solo, vento, sol ou chuva, movimentos e sorrisos, gritos, falares e andares.

Lá na horta realizam-se práticas de cultivo desde o preparo do solo até a colheita, manuseios que dão vida aos sucos e sanduíches naturais, sopas e pratos feitos a partir de suas hortaliças, focando o valor nutricional, a importância da saúde e a compreensão da sustentabilidade. Aqui e ali são salas de aulas reconstruindo-se, olhar aberto às ações curriculares que se intensificam e fomentam competências e habilidades docentes favorecendo tessituras a subsidiar os conteúdos que se entrelaçam em saberes produzidos, conhecimentos discutidos e mediados na Língua Portuguesa, no Conhecimento Lógico Matemático, nas Ciências Naturais e Sociais, nas Artes, na Corporeidade, no Movimento, no Re-Pensar, no Sagrado, nas Representações, na Vida!

A comunidade participa de oficinas com o objetivo de reconhecer e melhor utilizar hortaliças e as frutas da própria localidade. As orientações valorizam a prática de cardápios com alto valor nutritivo e baixo custo, considerando a filosofia da escola de educar para a sustentabilidade.

Essa é a práxis de professoras preocupadas em dar significado às aprendizagens de alunos e alunas. Mas, sempre algo nos diverte no trabalho que realizamos com crianças.

A professora perguntou na turma, quase ao final do período letivo, o que é produzido na horta. Imaginem o que algumas delas responderam? Hortaliças? Alfaces? Hortelã? ... Pegaram naturalmente a professora de surpresa: “cachorro-quente!”. É o que faz a festa da colheita: sanduíches especiais.

É uma delícia trabalhar com as crianças, elas tornam o trabalho pedagógico mais lúdico e cheio de aprendizagens mútuas.

Você tem alguma tirada boa? Lembro-me das tiras das HQ, ou seja, os comics. Fico a imaginar nossa expressão... Como podemos trabalhar o conteúdo, as perguntas, as percepções, as linguagens, a retextualização?

O processo de ensino-aprendizagem é visto como um processo que se define não em função daquilo que o professor ensina, exemplifica ou dá asas aos diferentes laboratórios de aprendizagens, na escola ou na comunidade. Mas esse processo deve acontecer a partir do que os alunos são capazes de aprender.

- O que vocês querem aprender em 2010? É uma pergunta que guia toda uma avaliação diagnóstica que se antecipa às elaborações dos Projetos Pedagógicos. Importante para o exercício dos protagonismos.

Sobre sentidos e significados, Alves (1986) nos fala sobre uma filosofia culinária da educação, do saber-sabor, dos desejos, paladares e cheiros: “Não há palavra que possa ensinar o gosto do feijão ou o cheiro do coentro. É preciso provar, cheirar, só um pouquinho, e ficar ali, atento, para que o corpo escute a fala silenciosa do gosto e do cheiro... O que importa está para além da palavra. É indizível” (Alves, 1986, p. 92-3).

- Como a escola resgata os saberes locais durante a realização pedagógica? Como realiza a transposição didática?

- Como o cotidiano é organizado para melhorar a aprendizagem?

- Que tipos de saberes da Ilha, da Horta, da professora, dos alunos, seus olhares e percepções, a escola aprende a integrar, tecer, ressignificar e reduzir o distanciamento?

A horta tem gosto de cachorro-quente! Há algo que os professores precisam aprender com os cozinheiros; a horta do conhecimento é um lugar do saber-sabor! Viva!


Referências:
- ALVES, Rubem. Estórias de quem gosta de ensinar. 6 ed. São Paulo: Cortez; Autores Associados, 1986.
- GEERTZ, Cliford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.