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sábado, 29 de setembro de 2012

A professora da educação infantil como pessoa e profissional: aprendizagens matemáticas


Falar de matemática para as professoras as faz suspirar de forma diferente, olhar para a gente de forma diferente, e a se entreolharem também... Mesmo assim comecei a desafiar o pensamento de modo bastante lúdico, e nessa descontração ajudei-as a rever seu repertório de aprendizagens anteriores, pois considero a indissociabilidade do professor pessoa e profissional como Nóvoa (1992, p.15), “o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor”.


- quantos algarismos tem o número 222? [afinal o que é algarismo, numeral e número? bem, por exemplo, o numeral 6321 representa uma quantidade (número) e é escrito com os algarismos 6, 3, 2 e 1, ok?]
- o maior numeral de três algarismos? [surgiu o 999... e depois o 987]
- a metade de dois? [bem mais rápida resposta]
- a metade de dois, mais dois? [alguns engasgos, mas, nas pausas da vírgula deu para solfejar].
- dei o número 6321 e perguntei-lhes: quantas dezenas [saiu o 2, o não sei, o n.d.a. (nenhuma das alternativas acima...); quantas centenas [3, 9, 32...]; quantas unidades [6321 quase geral]; quantas milhares [sem pestanejar disseram que eram 6]. Depois riram, apesar de desconfiarem que só tinham acertado as unidades e a casa dos milhares.

Conversamos sobre o modo como a crianças constroem o conceito de número. Pegar, separar, apertar, comparar, arranjar, distribuir, retirar, recolocar, movimentar novos objetos e pensamentos, a criança realiza ações próprias, reordena elementos em um conjunto, compreende inclusão, representa ideias e de brincadeira em brincadeira, de exploração em exploração vai reinventando a aritmética e com a mediação da professora, no meio das experimentações e trocas, o pensamento matemático se desenvolve melhor ainda.

Na pausa articulada entre ser criança, relembrar aprendizados e reescrever a função docente do dia, fomos repensando os esquemas mentais básicos da criança em seu processo de construção do número, discutindo os conceitos importantes de:

Correspondência biunívoca, um a um, cada elemento de um conjunto corresponde a outro elemento de outro conjunto, envolve a criança nos mais variados contextos: para cada dedo, um anel; a cada caixinha, a sua tampa; a cada aluno, uma carteira; a cada colher, um copo; para cada criança, um bombom.

Comparação: estabelecer diferenças e semelhanças que envolvem noções de cor, tamanho, forma, espessura, distância, quantidade etc. O tipo mais fácil é o que se dá entre elementos da mesma espécie. A comparação é base do processo de classificação, separar objetos em categorias de acordo com características em comum.

Classificação: envolve um agrupamento, segundo critérios próprios ou dados pelo outro, separar objetos por semelhanças ou diferenças, reunir parecidos conforme atributos, separar os distintos. As atividades de classificação possibilitam perceber e agrupar características comuns em classes e subclasses, estabelecendo relações e construindo noções. Classificar facilita a construção do número, a criança relaciona a representação simbólica do número ao conceito de número na medida em que consegue organizar coleções que possa quantificar.

Conservação: quando a criança percebe que a quantidade não depende da arrumação, forma ou tamanho dos objetos. A invariância numérica (conservação) só é atingida quando a criança concebe que apesar de misturarmos os elementos de um conjunto a quantidade permanece a mesma. Só se modifica por adição ou subtração.


Inclusão: a criança domina a estrutura de classe quando é capaz de incluir subclasses, por exemplo: peças de blocos lógicos agrupar os parecidos, classificar brinquedos, tipos de alimentos (doces ou salgados), em um cesto de frutas, separar por cor, casca ou polpa, as cítricas (abacaxi, caju, limão, laranja, acerola, ameixa etc.), as semi-cítricas (caqui, maracujá, maçã, goiaba, uva, morango etc.), as doces (banana, mamão, figo etc.), oleaginosas (abacate, coco, nozes, castanhas etc.), as hídricas (melão, melancia), mais de um nível de complexidade na ação de incluir.

Sequenciação: é o ato de fazer suceder a cada elemento outro sem considerar a ordem entre eles, isto é, sem qualquer critério. Por exemplo: colocar várias bolinhas, carrinhos, a chegada dos alunos na escola em fila, a entrada dos jogadores em campo, repetir a sequência de luzes, sons, imagens ou letras apresentadas etc.

Seriação: é a relação que a criança elabora para ordenar os elementos de um conjunto, sem saltar ou repetir algum, de maneira que eles tenham um lugar definido e invariável, seriar objetos segundo critério de tamanho, por exemplo, colocando em fila do menor para o maior, enfileirar objetos do mais grosso ao mais fino, do mais pesado ao mais leve, o que tem mais líquido ao que tem menos líquido, do mais escuro ao mais claro. Desafio: adivinhar a lógica, o critério do sistema numérico, por exemplo, por que o sete está entre o oito e o seis?

Número: é a representação da uma quantidade. É no entremeio dessas diferentes noções que se dá a construção do conceito de número. Uma estreita relação com a conservação numérica, as operações lógicas de classificação (classe de inclusão hierárquica) e seriação (relações assimétricas).

É preciso apresentar algumas estratégias que facilitem a identificação de quantidades considerando o conhecimento, o meio e os saberes das crianças. Por conhecimento, tomamos como referência, um dos saberes necessários à prática docente: “não basta ser apreendido (...) mas, também precisa ser constantemente testemunhado, vivido” (Freire, 1996, p.47). E segundo Rangel (1992, p.102), “a condição necessária para a construção do conhecimento matemático é, pois, a possibilidade do ser humano estabelecer relações lógicas sustentadas na sua ação transformadora sobre a realidade que interage”.

Sugeri algumas atividades para as professoras, como:
- não só trabalhar a escrita;
- não utilizar objetos quaisquer;
- não oferecer doses pequenas - até o nove, por exemplo;
- trabalhar com estimativas etc.

- Quantas pessoas – ou turistas - vêm aos domingos na Praia do Paraíso?

- Quantas barracas há neste espaço de lazer?
- Quantas crianças estudam na nossa escola?
- Tem mais meninos ou mais alunos?
- Vamos fazer um inventário de quantas colheres, canecas ou pratos têm na cozinha da escola?
- Como eles são distribuídos na hora da merenda?

- Ponto de partida: as notações da criança (conceitos ou números);

- Ponto de chegada: depende do planejamento/projeto pedagógico e a forma de mediação da professora.

É interessante observar o que minha experiência discente é fundamental para a prática docente que terei amanhã ou que estou tendo agora simultaneamente com aquela. É vivendo criticamente a minha liberdade de aluno ou aluna que, em grande parte me preparo para assumir ou refazer o exercício de minha autoridade de professor. Para isso, como aluno hoje que sonha com ensinar amanhã ou como aluno que já ensina hoje devo ter como objeto de minha curiosidade as experiências que venho tendo com professores vários e as minhas próprias, se as tenho, com meus alunos. O que quero dizer é o seguinte: Não devo pensar apenas sobre os conteúdos programáticos que vêm sendo expostos ou discutidos pelos professores das diferentes disciplinas mas, ao mesmo tempo, a maneira mais aberta, dialógica, ou mais fechada, autoritária, com que este ou aquele professor ensina” (Freire, 1996, p.90).

Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
NÓVOA, Antonio. Os professores e as histórias da sua vida. In: __. (Org.). Vidas de Professores. Porto: Porto, 1992. (p.11-30).
RANGEL, Ana Cristina. Educação Matemática e a construção do número pela criança: uma experiência em contextos socioenconômicos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dia dos Professores com Sorvete Colore: protagonismos e alegria

De onde vem essa data?
- Um pouco de História...

Em 15 de outubro de 1827 criou-se o Ensino Elementar no País, por intermédio de Decreto Imperial, estabelecendo escolas de primeiras letras em lugarejos, vilas e cidades. Entretanto, a data foi oficializada como feriado escolar, por essência e razão, somente através do Decreto Federal n. 52.682 de 14 de Outubro de 1963, assim definida: “para comemorar condignamente o Dia do PROFESSOR, os estabelecimentos de Ensino farão promover solenidades em que se enalteça a função do Mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”.

Como unir pais, mães, alunos e professores numa festa só?
- Um pouco de minha História...

Dentre as homenagens ao Dia dos Professores prestadas, em 1992, como surpresa recebi a música “O Caderno”, uma singela homenagem organizada por alunos de 3ª. e 4ª. séries, na época como coordenadora de uma escola de tempo integral, através de diferentes releituras, desenhada, cantada e dramatizada.

Por que marcou tanto? Por ter sido feito de forma espontânea por eles, fiquei admirada é pela escolha da música. Disseram-me que “O Caderno” era porque acompanhava suas produções escritas e plásticas, além dos planos de ensino semanal dos professores.

Esse mesmo alunado elaborou livros de literatura infantil de diferentes temas, aproveitamos a visita de Edmir Perrotti na escola, quando os alunos entrevistaram o autor, falaram sobre escrita, cultura, sentimentos, percepções, confecção e produção de uma obra para crianças, e apresentaram a ele seus livros. Depois em nosso folguedo e em brincadeiras de roda, dramatizaram o livro “Enquanto seu lobo não vem”, porque Perrotti aí valoriza a memória das cantigas e contos de tradição. Foi um show para professores, alunos, funcionários e responsáveis.

Um dia inesquecível, de ensinantes e aprendentes, aproximando os Dias das Crianças e dos Professores! Os alunos organizaram as homenagens para os professores e os professores para as crianças. Foi o “dois em um” mais significativo do ano. Deu trabalho para realizar, mas, valeu a pena apostar nos protagonismos das crianças. Os professores gostaram bastante.

Aprendemos juntos a conjugar o verbo AMAR!

Não poderia deixar de fechar este post, com a música de Toquinho e Mutinho, “O Caderno”, e se quiser ouvi-la aqui, trago mais abaixo, a voz de Chico Buarque, é só clicar. Primeiro a letra, depois a música.

Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco
Até o be-a-bá.

Em todos os desenhos
Coloridos vou estar
A casa, a montanha
Duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...


Sou eu que vou ser seu colega
Seus problemas ajudar a resolver
Te acompanhar nas provas
Bimestrais, você vai ver
Serei, de você, confidente fiel
Se seu pranto molhar meu papel...

Sou eu que vou ser seu amigo
Vou lhe dar abrigo
Se você quiser
Quando surgirem
Seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá
Num feroz carrossel
E você vai rasgar meu papel...


O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer...

Só peço, à você
Um favor, se puder
Não me esqueça
Num canto qualquer...

Feliz Dia dos Professores a Todos Nós!

Imagem 1: http://revistaescola.abril.com.br/avulsas/agenda_outubro_2009.shtml
Imagem 2: http://www.bondfaro.com.br/fotos--livros--enquanto-seu-lobo-nao-vem-c-lua-nova-autor-perrotti-edmir-editora-paulinas-cod-8573112425.html

sábado, 31 de outubro de 2009

Alfabetizar-se letrando na cultura escrita...

RECEITAS NOVAS?
MAIS SABOROSAS?

A postagem feita, em 27.10.09, que me inquietou e igualmente levou educadores a refletir mais um pouco sobre a aprendizagem da leitura e da escrita e a relação alfabetização x letramento x cultura escrita foi provocada por uma aluna de Pedagogia, que atualmente estuda o sexto período do curso. Ver postagem original em noah chiavenato. Fico animada pelo que nós professores aprendemos com os nossos alunos que nos fazem refletir mais sobre o processo que estamos construindo em nossas interlocuções com leituras, práticas, debates, releituras e reescritas. E "dá-lhe" desconstruções! Somos aprendizes a nos deixar tocar e revisitar nossas próprias certezas. É com essa simplicidade que vamos caminhando, conversando e sobre contrariedades, identificações e reinvenções.

As nossas postagens e comentários refletem esse desejo permanente de aprendermos com o outro. Sabe-se que para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização demanda uma relação de autêntico diálogo. Aquela em que sujeitos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido. Nesta perspectiva, portanto, os "alfabetizandos" assumem, desde o começo mesmo da ação, o papel de sujeitos criadores.

Como nossos interlocutores trago alguns pensadores da área para, em conformidade, com a postagem crítica da Fátima em questão dos métodos
, sobre a reportagem da Folha de São Paulo, a respeito das experiências de alfabetização no país e a relevância de como se dá ao método fônico contrapondo-se à forma de conceber a escrita enquanto representação da linguagem, ou seja, hoje nós da área re-olhamos a escrita não mais como simples código de transcrição gráfica de unidades sonoras. Mas, qual é o método mais acertado? Repetindo-se ao que Noah questiona (?!) e ao de tantos outros estudantes mais.

Sabemos que a criança aprende como um sujeito ativo que interage de forma produtiva com o objeto do seu conhecimento. Desta maneira, para apimentar o debate, segundo Pedro Demo (2009), o que se torna mais decisivo, nesse caso polêmico, é a qualidade do professor - "um bom professor alfabetiza o aluno, partindo do aluno, ajustando o método - método é algo instrumental, não é a razão de ser". E nesse debate reiteram-se:

Freire (1982): "aprender a ler e escrever já não é, pois, memorizar sílabas, palavras ou frases, mas refletir criticamente sobre o próprio processo de ler e escrever e sobre o profundo significado da linguagem".
Ana Teberosky (2005): "consegue ler bem quem teve algum tipo de oportunidade fora da escola. Os que dependem só dela são os analfabetos funcionais. A aquisição das habilidades de leitura e escrita depende muito menos dos métodos utilizados do que da reflexão que a criança tem desde pequena com a cultura escrita".
Emília Ferreiro (2001): "A escrita é importante na escola, porque é importante fora dela e não o contrário".

E por este motivo insisto no trabalho com crianças colaboradoras seja com estudantes de Pedagogia ou com professores em formação continuada a fim de aprender como Freinet (1979), pois, "meu único mérito como Pedagogo é talvez o de haver conservado uma influência tão marcante de meus primeiros anos: sinto e compreendo, como criança, as crianças que educo. Os problemas que elas se colocam, e que são tão grave enigma para os adultos, eu os coloco ainda para mim mesmo, com as claras lembranças de meus oito anos. E é como adulto-criança que detecto, através dos sistemas e métodos com que tanto sofri, os erros de uma ciência que esqueceu e desconheceu suas origens". No meu caso específico, aprendi a ler e escrever aos cinco anos de idade, na década de 60, entre 67-68, minha mãe me disse que de repente me viu lendo e escrevendo e não sabe explicar como. Por quê? Minha mãe, que era só normalista, se aposentou em 1976, e foi durante 33 anos professora de 1a. série. Eu frequentava a escola com ela desde os quatro anos de idade, andava de sala em sala e adorava ficar com as serventes e merendeiras da escola, ouvindo suas histórias e seus contos-cantos-encantos enquanto preparavam o lanche da meninada ou limpavam os banheiros tão cheios de escritas secretas em suas portas e paredes internas. Ah! eu adorava ler gibi. E ela não sabe ainda como aprendi...

Os 70 professores da escola, que eu trabalho como coordenadora, questionaram-se e aprenderam a ouvir melhor as suas crianças colaboradoras, em dezembro de 2008, re-olhando seus processos de aprendizagem:

- O que sabemos das crianças, de seus processos de desenvolvimento, da construção de seus conhecimentos, da ampliação de suas visões de mundo?

- O que conhecem sobre a escrita a partir do lugar de onde vivem? Como adquirem esses conhecimentos?

- Como interagem com a escrita – esse objeto cultural – e como interpretam o ato de leitura?

As perguntas foram as seguintes: "o que é escrita para você? para que se escreve? onde tem coisas escritas para se ler em casa? qual a palavra que você acha mais bonita? mais gostosa? etc.".

Os objetivos dessas entrevistas foram:
Geral: Analisar os processos de aquisição da escrita nas crianças, nas relações de ensino e no movimento das transformações histórico-sociais.

Específicos:
- Investigar processos e estratégias que crianças - da Educação Infantil aos primeiros anos - usam para interpretar a escrita no meio em que vivem.
- Identificar conceitos que a criança desenvolve a respeito deste tipo de linguagem antes do início de uma instrução formal.

Apresento alguns dos resultados na apresentação abaixo:


sábado, 9 de maio de 2009

Formação Continuada: ações demasiado humanas

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"Se você pudesse voltar ao tempo, o que mudaria?", esse foi o convite feito a professores(as) e técnicos(as) da escola para facilitar a construção de memorial sobre o próprio processo de letramento. Segundo Lacan (1969), “um ser que pode escrever a sua marca, isso basta para que ele possa se reinscrever noutra parte além dali onde a gravou. Convite a ver o mundo com os olhos de Criança em busca da sua Palavra-Mundo. Foram embalados por: Brahms’ Lullaby (Canção de Ninar de Brahms) e Clareana, de Joyce.