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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Letramentos e Ecologia no movimento das aprendizagens: materiais para ler e não para aprender a ler


As professoras de nossa escola estão observando crianças da comunidade e da própria escola sobre como elas se relacionam com práticas e materiais reais de leitura e escrita, para melhor valorizar a procedência de suas formas de ler o mundo, considerando que as pessoas ocupam lugares sociais diferentes, têm atividades e estilos de vida associados a esses lugares e que “nem todos têm o mesmo nível de letramento, [até porque] cada família, cada comunidade e cada sujeito constrói saberes que não são universais” (Soares, 2001).

Embalagens familiares e de grande circulação social são usadas como suportes de textos e gêneros do mercado (rótulos de produtos diversos, bulas, receitas, prescrições médicas, catálogos, cardápios, placas de lojas, sinalização urbana, cupom fiscal, conta de energia elétrica, tickets, cartão de chip de celular etc.).


Nas experimentações das professoras, a metáfora ecológica oferece termos importantes que podem proporcionar um marco para as discussões sobre letramento na nossa escola, denominada Eco-Escola. O termo “ecologia do letramento” (Barton, 1994) se encaixa no projeto pedagógico por traduzir a interação entre indivíduos e seus ambientes. Em cada lar uma história desenha relações próprias ou imbricadas com outras histórias de vida.

Nichos ecológicos, ecossistema, equilíbrio ecológico, diversidade e sustentabilidade podem ser aplicados à atividade humana de usar a leitura e a escrita. A “ecologia humana” estuda a relação entre a atividade humana e o meio ambiente. E o letramento nessa ótica faz “parte do ambiente e ao mesmo tempo influencia e é influenciado pelo ambiente” (Barton, 1994, p. 29). O termo está sendo internalizado na prática das professoras a partir de suas interações. As professoras descobrem que há algo em comum no que analisam em crianças de idades diferentes.

Nessa amostragem e com referenciais expostos as professoras compreendem que as crianças têm um conhecimento prévio sobre o que elas apresentam e aos poucos se surpreendem com as possibilidades do aprender nas interlocuções durante suas pesquisas, o que lhes solicita aplicar conhecimentos ou acessar novas leituras para saber pensar melhor mediar o observado. Verificam o dito e o não-dito, o que e o como as crianças dizem, sabem e expressam em seus olhares, gestos ou silêncios e sobre o que vivenciam nos momentos de suas interações intensas e diversificadas com o suporte textual, as outras crianças e a professora - que ali representa de alguma forma os adultos de suas relações.

A práxis importante das professoras está em compreender o papel mediador durante essas dialogias individuais ou coletivas da criança e o seu processo de construção do conhecimento, além de relacionar tais vivências com suas concepções de currículo, didática, criança, adulto, habilidades de leitura e escrita, natureza e frequência de usos dessas habilidades.

As crianças do processo do aprender a aprender das professoras são da faixa etária que elas atuam em sala de aula, como forma de repensar o planejamento e o ambiente pedagógico; socializar experiências durante formação continuada de nossa escola, conhecida como HP (Hora Pedagógica), onde há cooperação (pensar e agir em conjunto) das professoras e coordenação pedagógica.

Durante leitura dos suportes de escrita buscam identificar e definir concepções de letramento básico e letramento crítico, observando o que a criança lê do rótulo apresentado, por exemplo:

- imagens, slogan, cor ou linguagem de fundo, logomarca (função apelativa do produto – busca influenciar o consumidor);
- o modo do preparo (forma secundária - função injuntiva – instruir o consumidor);

Depois, aos poucos a professora ensina a ver função informativa do produto (composição, classificação como alimento, higiene ou limpeza, selos de qualidade, qualidades nutricionais, peso líquido, SAC para o consumidor, informações do fabricante, endereço completo do fabricante - inclusive site na internet, preço em formato de códigos de barras, selos sinalizadores de reciclagem etc.).

O que é ser criança e o que é ser adulto, são perguntas para a criança que facilitam a compreensão e a ajudam a repensar as mediações pedagógicas.

Se para o educador Rubem Alves, "o papel do professor é ensinar o aluno a pensar provocando a curiosidade da criança ou adolescente", para mim, percebo também a professora se espantando durante interações com a criança. Algo inédito ocorre nessas relações. Como ela não sabe o que a criança colaboradora irá responder, por vezes, se admira com a resposta, se espanta com as colocações da criança porque, sobremaneira, reside nas professoras algo importante na função pesquisadora, o de ter ouvido sensível e no processo da escuta, aprende a fazer perguntas fora do  seu roteiro, ou seja, criança e adulto se tornam aprendentes e ensinantes.

Em vídeo sobre ser um professor de espanto, o próprio Alves nos diz que:

Inteligência não é saber as coisas. Para saber as coisas, basta você ter boa memória. Há idiotas de memória perfeita que guardam todas as coisas. (...) Então a questão da inteligência não é saber as respostas. A questão da inteligência é saber fazer as perguntas e as perguntas surgem deste espanto diante das coisas. Estou com a ideia de que é preciso criar um novo tipo de professor: professor de espanto. O que é o professor de espanto? É o professor que não sabe nada, ele não precisa saber nada, ele não precisa saber as respostas, mas ele fica espantado. A missão do professor seria pegar os alunos e mostrar os espantos para eles. Por exemplo: o espanto da mosca azul, o espanto dos caramujos, fazer as crianças pensarem. Cada professor devia ser um professor de espantos, antes de serem professores que dão as respostas.

Uma professora que não sabe nada é aquela professora que sabe lidar com conceitos de aprender, desaprender e reaprender, cujas certezas não cegam o movimento das aprendizagens. Assim percebo as relações das professoras com os saberes das crianças que, nesses momentos, se deliciam com suas novas aprendizagens.



Referências

- ALVES, Rubem. O papel do professor: http://www.youtube.com/watch?v=_OsYdePR1IU&feature=player_embedded
- BARTON, David.  Literacy: an introduction to the ecology of written language. Cambridge, USA: Blackwell Publishers, 1994.
- FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
- KLEIN, Lígia Regina. Alfabetização: quem tem medo de ensinar? São Paulo. Cortez, 2002.
- SOARES, Magda. Letramento: como definir, como avaliar, como medir. In: SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. (p. 61–125). 
- TEBEROSKY, Ana; GALLANT, Marta Soler. Contextos de alfabetização inicial. Porto Alegre: Artmed, 2004.

sábado, 30 de junho de 2012

Festa Junina: a bicharada dos quintais do paraíso

Reunir crianças e seus familiares em festa na escola é algo que realiza todo educador. Fizemos as brincadeiras de forma espontânea o tempo todo, coreografia livre e orientada, releitura dos ensaios e projetos durante duas semanas, assim como aprendemos a tecer o improviso no processo.






Muitas crianças tiveram dificuldades de arrumar roupa típica, como prevíamos, não queríamos que se recolhessem em cantinhos, durante cantos e danças, mas tudo foi motivo para criarmos o espaço das relações de forma repensada, descontraída e organizada nessas interações. Ao final, alguns alunos evangélicos apareceram no evento pela concepção compreendida do trabalho.
Mães, pais, mães, irmãos, tios, tias e avós saíram contentes. A festa terminou sem sujeira ou bagunça, sem brigas ou mal-estar, e muitos sorrisos na despedida do semestre. Abraços, carinhos e corporeidade valorizada.
Ao final, servimos mingau de milho, que na região sul ou sudeste é conhecido como canjica. Coloco por aqui, as imagens do evento, buscando aproximar-se e reviver a cultura junina local.


O convite da festa inspirou-se no ônibus escolar, confeccionado sob medida, com crianças nas janelas, o nome próprio e o de suas localidades, como: Paulo Fonteles, Mártires de Abril, Dorothy Stang, Castanhal do Mari-Mari, Sucurijuquara, Chico Mendes, Caruara. 68% do alunado mora nesses assentamentos, e somente, 32% são do Assentamento Vale do Paraíso, onde está situada a nossa escola.





O arraial da festa adveio do projeto "Nossos Quintais tem mais vida", cada turma pensou, confeccionou o seu e afixaram próximo às salas ambientes.


Traje típico daqui, emocionou muita gente. O chapéu foi confeccionado pela avó dos irmãos,
com papelão e papel de seda. A calça do maior tradicionalmente trazia pendurada tirinhas variadas, figurino mais antigo. A calça e a camisa do mais novo diferenciavam-se nas bandeirinhas pregadas, releitura popular mais recente.
Loirinha feliz: professoras conseguiram trajes para vestir as meninas
Brincadeiras dançantes das Crianças do Maternal II
Aluna de Verde bem alegre. História muito triste de vida, a exemplo de muitas outras do lugar.
Turma do Jardim II na grande roda
Crianças do 1o. ano na concentração: a animação foi boa mesmo.
Dança que integra Pais, Mães, Avós, Tios, Professoras, Funcionários e Alunos.
Degustação do Mingau de Milho ou Canjica: com sabor típico - e bem daqui ó!
Equipe das Educadoras do Paraíso: momento de avaliação e novas aprendizagens
Algumas das muitas borboletas do nosso jardim... plantas típicas do entorno
A maioria virou criança por aqui: cenário pensado e confeccionado no coletivo, que se manteve, inclusive,
após a saída do grupo de alunos e seus familiares. [imagem capturada logo à retirada]

sábado, 2 de junho de 2012

Os quintais do alunado de nossa escola: processos didáticos e criativos


Tudo começou com a escuta do poema de Flávia Muniz, “A perua e o espelho”:

A confusão começou
Certa vez, no galinheiro,
Quando as aves encontraram
Um espelho no terreiro.

Uma galinha vaidosa
Logo quis contar vantagem:
- Com licença, galináceas,
Vim conferir minha imagem!

(e por aí vai... continue aler aqui o poema)

Bem, o texto provocativo fez todo mundo olhar um pouco para o seu próprio quintal e por lá descobrir coisas interessantes e talvez até algumas despercebidas aos olhos cotidianos ou das inúmeras brincadeiras, quem sabe...

Assim houve diferentes leituras, e das leituras as escritas do poema, até de outros.

Legal mesmo foi perceber que os professores revisitaram a didática de escrever em cartaz as palavras de cada verso, observando o espaço entre palavra e outra, entre verso e outro, entre título e poema, dar espaço as respirações dos alunos enquanto apontam o que supostamente acreditam ler, e que aos poucos vai ali identificando sílabas parecidas e coincidentes, iniciais, finais, palavras repetidas, questões comparativas e provocadas, vão instigando mais a ler com prazer, e dá-lhe processo mediativo.


A professora preferiu apertar as palavras para dar destaque ao desenho... Fica confuso, pois, aí o título se mistura ao texto, as palavras não coincidem, o estribilho não se destaca... Tudo é motivo de ler, mas, cuidado aqui não foram valorizados o texto musical, seus versos e palavras. A criança é bastante visual, e tudo é texto e motivo de releituras.

Este poema está melhor distribuído, as palavras dos versos se encontram, se provocam, se melodiam, os desenhos permeiam e valorizam palavras-chaves, e delas novas histórias podem até ser contadas...

Das palavras histórias novas são contadas, e alguns quintais se destacam conforme o seu contador, pois é, teve até quem duvidasse que havia pavão em algum deles e lá foram professoras e alunos conhecer o tal lugar encantador com seus personagens encantados a surgir nos relatos da "hora da roda". Bem, para espanto e mais maravilhamento, havia mais de um pavão: dois, três e quatro! Jóias no contexto do quintal... êba!

Vejam por aqui, as palavras escolhidas pelos alunado da educação infantil: espelho, galo, marreco, perua.

Hum-rum! motivo de dramatização da boa, 'cês nem sabem... são coisas lá da escola do Paraíso, no Distrito de Mosqueiro, coisas da gente de Belém bem brasileira.

Em outras turmas, surgiram outras palavras e suas histórias maravilhosas...

morcegos, pintinhos nos ovos de galinha,  pica-pau e cobra até
Uma turma resolveu modelar seus bichos com massinha e provocaram mais curiosidades... e houve até aqueles que disseram que nos seus quintais não haviam bichos, só árvore. Depois, convidados a olhar melhor foram descobrindo por lá, alguns visitantes: formigas intrometidas, borboletas plainadoras, pássaros famintos ou enamorados, besouros, minhocas, pois é de tudo foi aparecendo naqueles lás e cás.

Lugares de mais poemas na escola... por lá também se deleitam e lá vão viajando pelo paraíso ou nos assentamentos de onde a maioria do nosso alunado mora...

E assim se perguntam sobre as crianças sem quintais como os deles, com bichos criados pelas famílias ou seus visitantes.

Ou bem ali mesmo, nas estantes de sala de aula, encontraram poemas dentre as páginas dos livros de animais, árvores e outros personagens das novas histórias. Enfim, toda palavra gerava motivo de muitas outras.

A didática nas reuniões diárias com a coordenação logo após o almoço, com bom uso das "horas pedagógicas" e diárias, foi sendo discutida e ressignificada, no dia seguinte os professores nos surpreendiam com suas iniciativas em aulas mais dinâmicas e interessantes para todos.

No processo de autonomias pedagógicas vamos valorizando o educar pela pesquisa e a autoria necessária das escrituras da vida que ali perpassa nos diferentes ambientes da Ilha de Mosqueiro... Pois assim vamos concordando com Barthes (2004, p.22): "escrever é hoje fazer-se o centro do processo de palavra, é efetuar a escritura afetando-se a si próprio, é fazer coincidir a ação e o afeto , é deixar o escritor no interior da escritura, não a título de sujeito psicológico (...), mas a título de agente da ação". As professoras de nossa escola vão se percebendo nesse conjunto dialógico como autoras de novas palavras combinadas com a vida que perpassa em seus questionamentos sempre reconstrutivos.

Estamos bastante animados. A escola vem aprendendo a vivenciar com os servidores da merenda, da higienização, da secretaria, da vigilância e motorista momentos de reconstruir as palavras na ação dramática, que sempre ocorre às sextas-feiras. Logo, logo, vamos colocar por aqui tais vivências. Até!

Referência
BARTHES, Roland. Escrever, verbo intransitivo? In: Barthes, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alfabetizar e Letrar: da variedade linguística à competência linguística


Ouvi hoje professores sobre as palavras do universo da criança ribeirinha da Ilha de Jutuba (PA) a partir da palavra açaí, e chegamos às brincadeiras da corrida do bocó e do pular macaca.

Bocó vem de burro, ou de montar num burro, a vassoura do açaí depois de seca enverga. A parte que se liga ao tronco serve como montaria, assemelha-se ao faz de conta da vassoura que as crianças imaginam galgar um cavalinho. A vassoura do açaí arranha o chão, faz barulho, cada menino faz a sua montaria e sai correndo no bocó até o pique marcado, quem chega antes ganha a corrida.

Pular macaca é como brincar de amarelinha, assim as meninas se referem a esta brincadeira. Gêneros distintos, escolhas marcadas.

Estávamos junto a entender como aliar código e significado e começamos a relacionar, brinquei com o grupo a dizer palavras com:

/si/ (fonema), surgiram “ci” ou “si”, geralmente letras iniciais: cinema ou sino, cidade ou sinuca. Depois do meu toque à consciência fonológica, foram complementando: assassino, próximo, desci, fascinação...
si (sílaba), surgiram: básica, trânsito, Brasil, silêncio...

Nomes de crianças com:
S inicial: Sandro, Simone, Sofia
S final: Luís, Lucas, Taís
S no interior: Rosinha, Teresa, Elisângela
S precedido por consoante: Celso, Robson, Cristina
SS: Vanessa, Alessandro, Cassiano

Depois solicitei que pensassem nas Letras Monogâmicas, o “casamento perfeito”, a “fidelidade absoluta”, que a gente pode ensinar o código sem medo de encontrar variações (casamento sem traições):

- de supetão, assim logo no início, o pensar sempre trava, depois que entendem, topam a brincadeira, relaxam, a coisa engrena e daí surgiu: B, P, D, T, F, V, NH

E as poligâmicas? Pois é, já havia começado a brincar com uma delas, a letra S.

Depois lembraram da letra X como sendo também poligâmica:

Xícara, Xadrez, Xuxa /ch/                            Exato, Exame /z/
Contexto, Excelente /s/                               Máximo, Excesso /ss/
Sexo, Complexo /ks/

Outras poligâmicas: Z, C, SS, SC, SÇ, XC

Para associar outros universos temáticos, a leitura de obras de literatura infantil ajuda a brincar com nomes, daí veio:

BENTA             (menta / lenta / senta / tenta)
NASTÁCIA         lembra...
NARIZINHO       lembra...
EMÍLIA             lembra...

Trabalhar Narrativas Cantadas: A bela rosa juvenil / Cinco Patinhos (Xuxa Só para Baixinhos) / Dona Viúva / Teresinha de Jesus

E CHARADAS:
a) Qual a diferença entre TARTARUGA e BARCO?
A tartaruga tem o CASCO em cima e o barco tem o CASCO embaixo.

TARTARUGA               e                      NAVIO             =          CASCO

CASCO (qual o personagem da HQ que tem medo de água?) =    CASCÃO

Variações encontradas nas crianças ribeirinhas:
NAVIO / BARCO / CANOA / CASCO / CASQUINHO
(há semelhanças e diferenças na palavra e no significado)

b) Está na parede e nas canetas?

PAREDE                      e                      CANETA          =          TINTA

c) O que é a TROMBA para o elefante? (mão)
E a TROMBA do tamanduá? (focinho-boca)
E a TROMBA de gente? (cara fechada, “fechou o tempo”)

ELEFANTE       +          TAMANDUÁ    +          GENTE             =          TROMBA
(plurissignificação)

CURIOSIDADES CHAMAM PESQUISAS:
O SAGUI MENOR DO QUE UMA ESCOVA DE DENTES
Clique aqui para assistir ao vídeo


O menor macaco do mundo, o sagui-leãozinho, é do tamanho de uma escova de dentes e pesa 130 gramas. Encontrado no Amazonas, é tão pequeno que alguns índios o deixam no cabelo para que cate piolhos e outros bichinhos”.

(Solicitar que tragam escova de dentes e embalagens de produtos com aproximadamente 130 gramas / Olhar o mapa e encontrar o Amazonas / Pesquisar a tribo indígena - ampliar informação).


DENTES + GRAMAS + ÍNDIOS + PIOLHOS (palavras a serem trabalhadas)


ES    CO    VA                               PI    O    LHOS
ES    CO    LA                               BI    CHI  NHOS
SA    CO    LA
ES    CO    LHA


Para ler a matéria sobre a Sagui e outras curiosidades, clique aqui.


- Outra informação importante: para melhor entendermos o motivo de usarmos “m” antes de p e b, e não a letra “n”.

A lógica é articulatória.
M - B - P são fonemas que compartilham do mesmo ponto articulatório, ou seja, são fonemas bilabiais.
E ao contrário, o fonema N tem característica linguodental, se emitido antes de P e B, por isso dificulta a co-articulação desses fonemas. Essa razão deve ser explicada  exemplificada para o aluno, a aluna.


Por exemplo: Fale a palavra "pomba", agora diga bem devagar separando as sílabas: POM + BA, perceba que no momento que vamos pronunciar o "ba" somos obrigados a fechar a boca, assim fica mais caracterizado um "m", onde fecha-se a boca na pronúncia.


Agora diga a palavra "ponta": PON + TA, perceba que a nossa língua se recolhe ao pronunciar o "n" e encosta nos dentes ao pronunciar o "ta", e esse som com a boca aberta caracteriza um "n" . Fale "dente", e sinta - é consciência fonológica!


Assim vamos trabalhando a aprendizagem e desenvolvendo o conhecimento. As atividades propostas ajudam a conhecer as questões ortográficas da Língua Portuguesa. É importante trabalhar a consciência fonológica sempre com o auxílio de referenciais significativos para o alunado: rótulos, nomes e palavras já contextualizadas - como nas sugestões acima. Dessa forma, podemos completar a análise e as possíveis relações em todas as instâncias da língua oral e escrita: o texto com função social, os conteúdos de Língua Portuguesa, o nome de meninos e meninas da turma, o nome da letra, o som que ela pode representar naquele contexto e o alfabeto.

Rasa é o cesto que vale como medida para venda.
Casquinho é o tipo da canoa bem "fininha".
Com os professores e as professoras da Ilha de Jutuba aprendi mais uma palavra nova, bem até porque ainda estou aprendendo as falas paraenses, como paranaense, e mesmo estando por aqui há 20 anos.

A palavra é RASA, vindo da conversa sobre o Açaí, a vassoura, a brincadeira, os meninos. Falei a eles para refletirem sobre o que Vygotsky nos conceitua como sendo “a palavra enquanto microcosmo da consciência humana”, e o que entendemos disso em nossa práxis?

Açaí tem a ver com Bacaba, com Rasa, com Vassoura, com Trabalho, com Brincadeira, com Peconha, com Guarumã, com Guaraná...


A rasa é um cesto fabricado da palmeira de guarumã (guarumã-açu). Nesse cesto transportam-se os frutos do açaí após a debulha (operação manual para separar os frutos maduros do cacho) até as embarcações que o conduzem ao trapiche de Icoaraci ou de Belém. Nesse trabalho participam muitas vezes todas as pessoas da família, incluindo as próprias crianças.


Uma rasa possui cerca de 14 quilos de açaí, e que pode custar R$ 5,50 para o produtor e no período da entressafra chegar a custar R$ 23. (sistema de valor e sistema de medida, medida arbitrária - etnomatemática).


É preciso fazer com que o conteúdo atravesse as disciplinas, mas, tenha significado para a criança, precisamos saber trabalhar o código e a produção de sentidos. Chamamos de etnoalfabetização, respeito pedagógico que destaca o processo da aprendizagem que considera as diferenças e peculiaridades de um grupo e no caso das crianças ribeirinhas, a partir de suas percepções, sua linguagem, seus costumes e sua cosmovisão. É a palavra da criança, é a palavramundo e é por isso, a palavra o microcosmo da consciência humana. Daí se mostra a necessidade de se desenvolver a competência linguística da criança.


* Variedade lingüística = identidade, cultura própria, dialeto – aprendizagem empírica
* Competência lingüística = prestígio na sociedade letrada – aprendizagem escolar

domingo, 2 de maio de 2010

Cuabamorandu: o céu de amazônidas


Este projeto foi muito especial, através dele conheci o Prof. Dr. Germano Bruno Afonso (UFPR) e, com ele, um pouco mais do céu regional visto através dos olhos dos índios Tembé. E de como eles se relacionam na escola da vida, com as influências cotidianas e recíprocas da natureza na natureza humana.

Desta forma compreendi melhor o significado da etnoastronomia, motivo principal para a construção do projeto pedagógico e institucional do Planetário do Pará. Esta foi a minha proposta. Convite recebido, proposta aceita e desafio assumido perante a sociedade paraense. Assim o projeto foi delineado em maio de 1997. Quando o Planetário do Pará foi inaugurado em setembro de 1999, entregamos nas mãos do governador da época, o primeiro exemplar do trabalho feito com os índios Tembé e outro exemplar da Cartilha à Capitoa Verônica, como retorno de nossas pesquisas. Assim estávamos nos alfabetizando nos saberes do povo da terra para melhor valorizar o olhar do homem e da mulher amazônidas para o céu. Somos Um.

Um compromisso ficou ainda a ser cumprido, por todos nós que fazíamos o Planetário, a missão de contribuir com a Capitoa Verônica, enquanto matriarca da Aldeia Tekohaw, situada próximo às águas do município de Paragominas. Em seu clamor sabiamente nos solicitava: "ajudem-me cuidar e guardar nossa história".

Um mês depois, enviei para a Câmara Brasileira do Livro a nossa inscrição para concorrer ao Prêmio Jabuti 2000. Muita coisa mudou a partir daí. E em janeiro de 2000, sai do Planetário do Pará, e assumi a Editora da Universidade do Estado do Pará - UEPA. Aliás, a editora não existia, fundei a editora.

Estudei mais um pouco sobre antropologia e etnopedagogia, assim publiquei livros de Edgar Morin, Ilya Prigogine, Maria da Conceição Almeida (UFRN) e Edgard Carvalho (PUC-SP), e dos professores da UEPA, dentre eles, o professor Iran Abreu Mendes, fiz parcerias com a Unesp quando entramos na Associação Brasileira das Editoras Universitárias.

Publicamos a coleção "Nomes de Deuses" (Noms de Dieux), da radiotelevisão belga RTBF Liège, entrevistas a Edmond Blattchen, em co-edição Uepa-Unesp. A coleção é composta por oito livros, cada um corresponde a um tema/entrevistado: Paul Ricoeur (O único e o singular), Ilya Prigogine (Do ser ao devir), Edgar Morin (Ninguém sabe o dia que nascerá), Trinh Xuan Thuan (O agrimensor do cosmo), Dalai Lama (A compaixão universal), Jean-Yves Leloup (Se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo), André Comte-Sponville (O alegre desespero) e Hubert Reeves (Os artesãos do oitavo dia).

Não deixei a peteca cair. Mas, quem respondeu à Capitoa Verônica? Ironia do destino, a cartilha dos Tembé, logo que saí do Planetário, dois meses após, por questões "políticas", foi indicada entre os três finalistas ao Prêmio Jabuti, na categoria dos didáticos. Chamaram-me e eu participei da premiação no Rio de Janeiro, em maio de 2000. Para surpresa de todos, a UEPA ganhou o prêmio de 1°. lugar na categoria dos Didáticos. Muitos flash me seguiram na ocasião e depois na capital paraense, mesmo a contragosto de alguns.

Volto à pergunta: e a capitoa Verônica?

Fico com a sua palavra: "Nós os índios, sempre cantamos e dançamos nas nossas cantorias, como forma de manter a unidade do nosso povo e a alegria da comunidade. Se a gente cantar e dançar, nós nunca vamos acabar".

E nós homens brancos, como nos chamam, como comemoramos nossas conquistas? A sabedoria deste povo precisa ser melhor compreendida.

Qual o meu aprendizado? Compreendi muito acerca da "etnopedagogia e etnoalfabetização" com o povo da aldeia Tekohaw. Por isso mesmo valeu a experiência que passei durante dois anos, um na criação do projeto, outro na implantação e um período bem pequeno na coordenação de todo o complexo.

Dez anos se passaram e recebi a homenagem da UEPA e do Planetário do Pará, no dia 30 de setembro de 2009, em meio às diversas autoridades do Estado. E nos dizeres da placa constava: "Em comemoração aos 10 anos do Planetário do Pará, temos a honra de prestar esta homenagem por suas contribuições". Fiquei muito emocionada a lembrar de todo o processo e seu desdobramento.

O que queríamos? Bem mais, o povo Tembé era somente a primeira nação indígena a nos ensinar sobre a inteireza do ser em sua relação cotidiana com as naturezas... O projeto sobre etnoastronomia findou ali. Hoje o Planetário tem novos objetivos. Ficarei muito contente se responderem aos anseios da Capitoa. Esta sim será a melhor homenagem que rendemos ao povo que fez a diferença entre os diversos planetários brasileiros e cuja identidade ganhou notoriedade em diferentes países da Europa e do nosso continente, na época da difusão do conhecimento pedagógico e científico vivenciados em Planetários, na versão Pará-Brasil, principalmente, porque aprendemos muito com os grupos étnicos.

Deixo, logo abaixo, uma pequena amostra desse trabalho, porém, o melhor é ler a cartilha e saber mais sobre as constelações indígenas e suas influências. Poderão conhecer o conjunto de estrelas que perfazem a Ema, a Siriema, a Anta, o Queixo da Anta, o Beija-flor, o Jabuti, a Canoa. Concepções que giram em torno do Sol e da Lua, as relações com o Cruzeiro do Sul e a Via Láctea. Os desenhos nessa apresentação foram feitos pela professora Maria Cristina Mascaro.

Quem eram os povos ágrafos? Com quem aprenderam? Pelo menos percebemos em nosso cotidiano que eles sabem muito mais respeitar a natureza que os homens e mulheres que estudaram muito. Como está o nosso Planeta?

Vamos cuidar de nosso povo? Os índios são a memória viva de nossos antepassados a frear nossos costumes, muito presos aos determinantes socioculturais do povo da cidade.

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Missão incompleta!