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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Alfabetização e a Diversidade das Palmeiras do Pará: o entrelaçar de saberes na Educação Infantil


A educação infantil não é feita para alfabetizar, mas, se for bem feita, alfabetiza. Sabemos que o problema da alfabetização deixou de ser estudado do ponto de vista do adulto porque passou a ser levado em consideração o posicionamento da criança. Não os saberes da cultura, mas, os saberes da criança. A forma como ela expressa a sua realidade. As palavras do lugar norteiam o estudo a partir da palavra da criança.


O destaque desse trabalho se deve à chamada das famílias que cooperam na indicação do lugar na comunidade próprio para apreciar, brincar e pesquisar.


Apenas um senão nesta discussão pedagógica. De volta à sala de aula, o que se trabalha? De repente, o conto de “O Patinho Feio” surge e com ele vem o estudo da palavra pato e o modelo sintético decorre à exaustão, muitas vezes dissociado do significado. A criança cansa de decorar. Embora saibamos que a memória é a base da aprendizagem. Mas, há necessidade de evocarmos a memória reflexiva e sua capacidade reconstrutiva.

O pato na cultura de Belém enriquece o almoço do Círio de Nazaré. “O Patinho Feio”, conto de Hans Christian Andersen, nos fala sobre rejeição e discriminação pela aparência física. Depois do tempo de intensas (re)descobertas, as palavras podem ajudar a compreender o conjunto das letras ali compostas e recompostas.

O que o pato tem a ver com as palmeiras? A teia pode até ser tecida desde que as crianças topem reinventar a palavra. Em que o açaí se parece com o buriti, a pupunha e o tucumã? Exercício de pensamento, a lógica matemática das comparações vem aí.
Buriti, Pupunha, Tucumã e Açaí: frutos da amazônia em suas palmeiras.
Algumas curiosidades das plantas ou seus frutos compartilhadas em aula, além das conversas sobre sabores, preferências e culinária dos frutos dessas palmeiras:

- Pescadores usam os bichos (larva de um besouro) dos caroços de Tucumã como isca, também como alimento, óleo medicinal ou creme de cabelo.

- A cor da casca do fruto da pupunha, assim como, o teor de óleo e tamanho são bastante variados. Quanto mais avermelhada for a polpa maior é o teor de vitamina A, boa para olhos, cabelos, unhas e pele. Seu óleo serve como remédio para dor de ouvido e garganta, além de alisar os cabelos.

- A raiz nova do açaí como chá combate a verminose. O cacho queimado do açaí serve como repelente. O sumo do palmito do açaizeiro ajuda a estancar sangue.

- As folhas adultas do Buriti servem para fazer pipas e o pecíolo fornece material para o artesanato e confecção de brinquedos. O fruto possui uma das maiores quantidades de Vitamina A, vinte vezes mais que a cenoura.

- A lenda do Tucumã é muito antiga como todas as outras e busca explicar sobre a criação da noite que estava guardada dentro do caroço do fruto, nele havia sapinhos coaxando e grilos cricrilando, pois é, daí o indiozinho resolveu jogar no chão e então... a história vai encantando a todos.
Releitura da Lenda Indígena sobre "A Criação da Noite", através da argila.
É o manejo sustentável dos saberes rediscutido em sala de aula ou nas proximidades da Praia da Saudade, na Ilha de Cotijuba (PA). A participação das famílias de nosso alunado foi muito importante nesta atividade pedagógica, até porque muitas delas vivem do extrativismo dessas plantas. São seis Unidades Pedagógicas além da nossa Escola Sede.
Crianças na Praia da Saudade identificando as quatro espécies de palmeiras.
Território de múltiplas aprendizagens.
Etapas do gostoso momento de ler, fazer e saborear um bolo de pupunha... hum-rum!
Leitura da Receita, Medidas e toda a Química na mistura e transformação

Vai ao forno... "Tic-tac passa tempo e não demora, chega logo tic-tac"
Nova Releitura em Sala de Aula
É a troca permanente entre professora, alunos, pais e mães, avós ou tios das crianças e coordenação que aprendem juntos a compreender e relacionar processos intuitivos e ciência, saberes e a leitura do livro. Conhecendo mais a palavra no seu contexto, juntos continuam a redescobrir as palavras do meio e a ampliar sua leitura de mundo.


A escrita é representação. O desenvolvimento da escrita, segundo Vygotsky (1998, p.131), se dá pelo deslocamento do desenho de coisas para o desenho de palavras. A criança precisa querer aprender a ler e a escrever, para isso é indispensável a mediação pedagógica. A própria criança abre a porta para a alfabetização e para que isto aconteça é importante que ela mesma perceba a cotidianidade dessa leitura no seu contexto, assim como a valorização de sua autoria no processo. Família e escola cooperam nessa produção infantil em seus diferentes contextos. Pelo desejo  e necessidade de pais e mães as crianças também estão na escola.


Referências
SHANLEY, Patrícia; SERRA, Murilo; MEDINA, Gabriel. Frutíferas e plantas úteis na vida amazônica. 2 ed. Bogor, ID: Cifor, 2010.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sensibilidade criadora e poética visual: arte, ciência e construção do conhecimento


Esta combinação faz as crianças aprenderem com muita vivacidade e imaginação a partir da própria escola e a mediação pedagógica importante de sua professora. As imagens aqui apresentadas dão a dimensão pedagógica possibilitada nas aulas de artes visuais de nossa escola: um show de sensibilidade e conhecimento da professora Cintya Moraes. Isto é educação ambiental.

O nosso currículo pretende ajudar as crianças a ver o mundo com curiosidade e admiração, aumentando a sua sensibilidade com relação à natureza, assim como a sua expressividade ao reagir ao meio ambiente – sua morada neste cantinho da biosfera aqui na Ilha de Caratateua e a partir de nossa escola que fica num belo bosque. Neste trabalho de arte se traduz um pouco de nossas referências ambientais – “alunos felizes” (Snyders, 1988).

E assim nos inspiramos em muitos autores, nesse processo múltiplo das aprendências e por ele a relação de interdependência vivida nesse fazer-se interdisciplinar, permeados pela educação ambiental, como bandeira de nossa escola. As seguintes palavras chaves fazem parte dessa nossa leitura de mundo compartilhado: o "sentido do outro", a "curiosidade" (Paulo Freire), a "tolerância" (Karl Jaspers), a "estrutura de acolhida" (Paul Ricoeur, o "diálogo" (Martin Buber), a "autogestão" (Celestin Freinet, Michel Lobrot), a "desordem" (Edgar Morin), a "ação comunicativa", "o mundo vivido" (Jürgen Habermas), a "radicalidade" (Agnes Heller), a "empatia" (Carl Rogers), a "questão de gênero" (Moema Viezzer, Nelly Stromquist), o "cuidado" (Leonardo Boff), a "esperança (Ernest Bloch), a "alegria" (Georges Snyders), a unidade do homem contra as "unidimensionalizações" (Herbert Marcuse) etc.

Elegemos as imagens da ação pedagógica que nos traduzem um pouco... Ações, atos e teias de encantados aprendentes que buscam como nós reencantar a educação, e a chamar por aqui Hugo Assmann.

Planta e formiga nos chamando a re-olhar movimentos,
bem lá perto do laguinho da nossa escola.
Nessa análise visual, no espaço da escola, os alunos buscam criar em sua volta um novo ambiente através de suas novas formas de observação. Suas redescobertas:

- "achei um 'ninho' de formiga" (aluno do 2o. ano);
- "parece uma casca de besouro seco!" (aluna do 2o. ano);
- "olha é bem redondinha essa folha que eu achei!" (aluno do 2o. ano);
- "essa folha é bem vermelha, é bonita!" (aluno do 5o. ano);
- "encontrei uma folha comprida" (aluno do 2o. ano).

Experiência estética no bosquinho da nossa escola.
Processo de re-construção do olhar - alunos do 2o. ano
Aprende-se a conviver, a envolver-se com entusiasmo, a percorrer com o olhar
o espaço ocupado e desvendar seus signos nas mais diversificadas interpretações.
Aprendizado mútuo a estreitar ligação do ensino-aprendizagem!
Criação de situações de intensa alegria - a arte na escola recolorindo de sentido abrangente
pedagógico e sensitivo o desenvolvimento das potencialidades das crianças
Contextualizando a realidade vivenciada do aluno
poderemos entender melhor sua capacidade de comunicação
Motivo de integrar arte no currículo da nossa escola: "seja pela literatura ou pela poesia, pelas artes visuais, dramáticas ou musicais, dificilmente existe algo mais eficaz do que a arte para desenvolver e aperfeiçoar a capacidade natural da criança de reconhecer e expressar padrões" (Fritjof Capra, 2006, p. 50).

Repetição de formas e texturas qualificam a expressão visual das imagens
que a natureza pode nos proporcionar em sua simplicidade e grandeza.
As crianças podem usufruir do bem estar da nossa escola exercitando seus sentidos.
Este cogumelos foram encontrados no bosquinho. A visão exercitada ajuda a recriar o simples
traçado no papel, com lápis de cor, e conjugar proporções expressivas e surpreendentes.
Arte óptica e seus efeitos visuais de Victor Vasarely (1908-1997),
movimento, ritmo e equilíbrio a mexer com as crianças...
A textura visual em seu geometrismo faz com que as crianças se divirtam interagindo com a imagem entre si mesmas, dialogando:
- "eu vejo um labirinto" (aluno do 3o. ano);
- "é um caminho até o fim do mundo" (aluno do 3o. ano).
Percepção visual do aluno de 9 anos do 3o. ano
Conversando sobre a produção do colega:
- "pode ser várias minhocas" (aluna do 3o. ano);
- "eu vejo muitas montanhas" (aluno do 3o. ano);
- "são as ondas da praia" (aluna do 3o. ano).

Cor e Luz e suas múltiplas relações...
Diálogo plural e experiência estética ajuda a redescobrir as flores da majestosa Piquiarana,
cuja árvore alcança até 35 metros de altura, e estavam ali perto do auditório da nossa escola.
Releitura dos alunos do 4o. ano: linhas, formas, cores e texturas...
A tridimensionalidade provoca uma nova textura tátil,
são os movimentos do olhar na ordem-desordem, recombinado o claro-escuro
Segundo Pamela Michael (apud Stone e Barlow, 2006, p.143): "as crianças são especialistas em criar visões de lugares que elas viram apenas na imaginação - lugares que ganham realidade pelo ato da criação", assim as crianças dialogam com a professora, as outras crianças e os diferentes "endereços ecológicos" que se misturam na nossa escola, a Escola Bosque de Outeiro (Belém-Pa), como é carinhosamente conhecida.

Referências
- Assmann, Hugo. Metáforas novas para reencantar a educação: epistemologia e didática. Piracicaba, SP: Unimep, 1996.
- ______. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
- CAPRA, Fritjof. Falando a linguagem da natureza. InSTONE, Michael K.; BARLOW, Zenobia (Org.). Alfabetização ecológica: a educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, 2006. (p. 46-57).
- MICHAEL, Pamela. Ajudando as crianças a se apaixonar pelo planeta Terra: educação ambiental e artística. InSTONE, Michael K.; BARLOW, Zenobia (Org.). Alfabetização ecológica: a educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, 2006. (p. 142-156).
- SNYDERS, Georges. A alegria na escola. São Paulo: Manole, 1988.
- ______. Alunos felizes: reflexão sobre a alegria na escola a partir de textos literários. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AMA: leituras e saberes da vida amazônica

Agentes e Monitores Ambientais - AMA - é o nome do projeto pedagógico que reúne desejo, vontade, observação, muita leitura e prática sobre frutíferas e plantas úteis a partir do bosque e outros recantos de nossa escola, cuja área mede 12 hectares, praticado por professores e estudantes engajados no projeto.


Lei sábia criada pela tribo dos Índios Iroquois
lá do lado de lá - na América do Norte.
O livro "Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica", editado por Patrícia Shanley, Murilo Serra e Gabriel Medina, tem sido a referência de estudos do grupo envolvido na práxis pedagógica. A própria pesquisadora Patrícia Shanley visitou nossa escola e doou exemplares desse livro ao projeto. E que Você pode ter acesso ao livro só clicando aqui.


Atualmente, o projeto conta com a colaboração da pesquisadora Rose (Colorado, EUA). As imagens abaixo fazem parte de uma das etapas do estudo de crianças e jovens envolvidos sobre "reconhecimento das espécies e leitura do nome popular e científico das plantas frutíferas". Os estudantes que participam do projeto como monitores desenvolvem atividades no contraturno de seus estudos regulares.


Porém, "a meta não é o mero domínio de matérias específicas, mas estabelecer ligações entre a cabeça, a mão, o coração e a capacidade de reconhecer diferentes sistemas - aquilo que Gregory Bateson certa vez chamou de 'o padrão que interliga'" (ORR, David W. Prólogo. In: Stone, Michael K.; Barlow, Zenobia. Alfabetização ecológica: a educação das crianças para um mundo sustentável. Ed. Cultrix, 2006. p. 11).


Leitura e Reconhecimento de algumas das frutas de nossa escola...
Jaca
Cajá
Leituras...


Mediação Pedagógica
Pesquisadora Rose e Professor Elias
Produção dos Estudantes
Releituras das espécies: ciência x saberes x criatividade
Aprendências no Livro...


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Árvores e Nascimentos: à procura de uma muda para Sofia

Lorena com a sua árvore, em 1982.
Plantei um sombreiro para Lorena e um pinheiro para Lígia em Paranaguá, árvores típicas do litoral paranaense, no sopé da Serra do Mar, ali morávamos bem próximo ao "Pé do Gigante". Bastante sugestivo o nome do nosso bairro: o Jardim Samambaia, conjunto habitacional que, no início da década de 80, era considerado um local longínquo, ainda mais para nós que morávamos no Centro da Cidade.


Agora estamos em Belém do Pará, localidade em que a nossa Sofia irá nascer, por aqui a passagem familiar floresce. Estamos agora em busca de uma árvore para Sofia, pretendemos plantá-la no Sítio da Lorena e do Assis, que moram no bairro do Curuçambá, na periferia do município de Ananindeua (PA), localizado na região metropolitana de Belém.



Aluna e Aluno plantam um muda
no solo de nossa Escola
Quem poderá nos ajudar? Vou pedir primeiro para os dois professores coordenadores do Projeto AMA de nossa escola. No viveiro de mudas do projeto tem um "berçário", ali plantas típicas estão sendo bem cuidadas por professores e seus monitores.


A planta de Sofia virá desse lugar de muitas aprendências! Ideal para seu crescimento.


Veja por aqui uma boa referência sobre o dia da árvore, bom motivo para despertar ou fortalecer a consciência ecológica. Bons frutos. Belas sombras. Mais vida e mais amores!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PROJETO AMA: uma homenagem ao dia mundial da ALFABETIZAÇÃO


PROJETO AMA

AMA: é o ensino e a aprendizagem para a convivência harmoniosa com o meio ambiente. O projeto busca relacionar o amor à vida através das relações dos estudantes com a natureza, o cotidiano e o conhecimento. O cotidiano do aluno está ali sempre presente porque discutir as questões que permeiam o dia a dia de crianças e jovens é essencial para a educação.


A partir de todas as fases do plantio, a começar pelo pensar e planejar, pela concepção do germinar e o potencial da semente e tratamento exigido, assim o alunado acerca-se de novos cuidados e respeito ao Outro e vai desconstruindo hábitos, nessa tomada de consciência percebe as importantes relações interdependentes implicadas em cada ato humano.

Educar requer paciência porque a história de vida das pessoas é diferente, tolerância porque aprendemos que só os peixes mortos não conseguem nadar contra a correnteza, e “navegar é preciso"[1].

Assim admiro demais o trabalho pedagógico dos educadores que FAZEM A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ACONTECER na nossa escola - das crianças menores aos jovens que frequentam o Curso Médio Integrado - Técnico em Meio Ambiente.

Releitura do AMA
Alfabetização Ecológica é o nosso desafio neste século da informação e do conhecimento para tornar o mundo mais sustentável! Precisamos juntos aprender a “saber viver” de forma mais sustentável, com mais amorosidade nesta sociedade líquida, onde tudo que é sólido se desmancha no ar...

Revista Nova Escola
Parabéns professores Elias Gomes (pedagogo) e Célio Costa (engenheiro agrônomo). Vocês nos mostram que alfabetizar não é só uma questão de gênero e assim ultrapassam preconceitos. No Brasil, há mais alfabetizadoras do que alfabetizadores, a mulher predomina no campo da educação infantil e das séries iniciais, inclusive no quadro mundial, somente 1,5% ou 16,5% dos homens trabalha nessa modalidade de ensino. Nós mulheres não temos preconceito e esta homenagem é uma prova desse nosso sentimento universal!




Os nossos parabéns aos educadores e educadoras que atuam na alfabetização e valorizam o meio na aprendizagem escolar dos estudantes porque sabem ir além do código e permear de sentido a produção do conhecimento. Vocês sabem fazer a diferença neste contexto político e pedagógico. É a leitura de mundo na leitura da palavra.

[1] Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a. C., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, In Vida de Pompeu.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alfabetizar e Letrar: da variedade linguística à competência linguística


Ouvi hoje professores sobre as palavras do universo da criança ribeirinha da Ilha de Jutuba (PA) a partir da palavra açaí, e chegamos às brincadeiras da corrida do bocó e do pular macaca.

Bocó vem de burro, ou de montar num burro, a vassoura do açaí depois de seca enverga. A parte que se liga ao tronco serve como montaria, assemelha-se ao faz de conta da vassoura que as crianças imaginam galgar um cavalinho. A vassoura do açaí arranha o chão, faz barulho, cada menino faz a sua montaria e sai correndo no bocó até o pique marcado, quem chega antes ganha a corrida.

Pular macaca é como brincar de amarelinha, assim as meninas se referem a esta brincadeira. Gêneros distintos, escolhas marcadas.

Estávamos junto a entender como aliar código e significado e começamos a relacionar, brinquei com o grupo a dizer palavras com:

/si/ (fonema), surgiram “ci” ou “si”, geralmente letras iniciais: cinema ou sino, cidade ou sinuca. Depois do meu toque à consciência fonológica, foram complementando: assassino, próximo, desci, fascinação...
si (sílaba), surgiram: básica, trânsito, Brasil, silêncio...

Nomes de crianças com:
S inicial: Sandro, Simone, Sofia
S final: Luís, Lucas, Taís
S no interior: Rosinha, Teresa, Elisângela
S precedido por consoante: Celso, Robson, Cristina
SS: Vanessa, Alessandro, Cassiano

Depois solicitei que pensassem nas Letras Monogâmicas, o “casamento perfeito”, a “fidelidade absoluta”, que a gente pode ensinar o código sem medo de encontrar variações (casamento sem traições):

- de supetão, assim logo no início, o pensar sempre trava, depois que entendem, topam a brincadeira, relaxam, a coisa engrena e daí surgiu: B, P, D, T, F, V, NH

E as poligâmicas? Pois é, já havia começado a brincar com uma delas, a letra S.

Depois lembraram da letra X como sendo também poligâmica:

Xícara, Xadrez, Xuxa /ch/                            Exato, Exame /z/
Contexto, Excelente /s/                               Máximo, Excesso /ss/
Sexo, Complexo /ks/

Outras poligâmicas: Z, C, SS, SC, SÇ, XC

Para associar outros universos temáticos, a leitura de obras de literatura infantil ajuda a brincar com nomes, daí veio:

BENTA             (menta / lenta / senta / tenta)
NASTÁCIA         lembra...
NARIZINHO       lembra...
EMÍLIA             lembra...

Trabalhar Narrativas Cantadas: A bela rosa juvenil / Cinco Patinhos (Xuxa Só para Baixinhos) / Dona Viúva / Teresinha de Jesus

E CHARADAS:
a) Qual a diferença entre TARTARUGA e BARCO?
A tartaruga tem o CASCO em cima e o barco tem o CASCO embaixo.

TARTARUGA               e                      NAVIO             =          CASCO

CASCO (qual o personagem da HQ que tem medo de água?) =    CASCÃO

Variações encontradas nas crianças ribeirinhas:
NAVIO / BARCO / CANOA / CASCO / CASQUINHO
(há semelhanças e diferenças na palavra e no significado)

b) Está na parede e nas canetas?

PAREDE                      e                      CANETA          =          TINTA

c) O que é a TROMBA para o elefante? (mão)
E a TROMBA do tamanduá? (focinho-boca)
E a TROMBA de gente? (cara fechada, “fechou o tempo”)

ELEFANTE       +          TAMANDUÁ    +          GENTE             =          TROMBA
(plurissignificação)

CURIOSIDADES CHAMAM PESQUISAS:
O SAGUI MENOR DO QUE UMA ESCOVA DE DENTES
Clique aqui para assistir ao vídeo


O menor macaco do mundo, o sagui-leãozinho, é do tamanho de uma escova de dentes e pesa 130 gramas. Encontrado no Amazonas, é tão pequeno que alguns índios o deixam no cabelo para que cate piolhos e outros bichinhos”.

(Solicitar que tragam escova de dentes e embalagens de produtos com aproximadamente 130 gramas / Olhar o mapa e encontrar o Amazonas / Pesquisar a tribo indígena - ampliar informação).


DENTES + GRAMAS + ÍNDIOS + PIOLHOS (palavras a serem trabalhadas)


ES    CO    VA                               PI    O    LHOS
ES    CO    LA                               BI    CHI  NHOS
SA    CO    LA
ES    CO    LHA


Para ler a matéria sobre a Sagui e outras curiosidades, clique aqui.


- Outra informação importante: para melhor entendermos o motivo de usarmos “m” antes de p e b, e não a letra “n”.

A lógica é articulatória.
M - B - P são fonemas que compartilham do mesmo ponto articulatório, ou seja, são fonemas bilabiais.
E ao contrário, o fonema N tem característica linguodental, se emitido antes de P e B, por isso dificulta a co-articulação desses fonemas. Essa razão deve ser explicada  exemplificada para o aluno, a aluna.


Por exemplo: Fale a palavra "pomba", agora diga bem devagar separando as sílabas: POM + BA, perceba que no momento que vamos pronunciar o "ba" somos obrigados a fechar a boca, assim fica mais caracterizado um "m", onde fecha-se a boca na pronúncia.


Agora diga a palavra "ponta": PON + TA, perceba que a nossa língua se recolhe ao pronunciar o "n" e encosta nos dentes ao pronunciar o "ta", e esse som com a boca aberta caracteriza um "n" . Fale "dente", e sinta - é consciência fonológica!


Assim vamos trabalhando a aprendizagem e desenvolvendo o conhecimento. As atividades propostas ajudam a conhecer as questões ortográficas da Língua Portuguesa. É importante trabalhar a consciência fonológica sempre com o auxílio de referenciais significativos para o alunado: rótulos, nomes e palavras já contextualizadas - como nas sugestões acima. Dessa forma, podemos completar a análise e as possíveis relações em todas as instâncias da língua oral e escrita: o texto com função social, os conteúdos de Língua Portuguesa, o nome de meninos e meninas da turma, o nome da letra, o som que ela pode representar naquele contexto e o alfabeto.

Rasa é o cesto que vale como medida para venda.
Casquinho é o tipo da canoa bem "fininha".
Com os professores e as professoras da Ilha de Jutuba aprendi mais uma palavra nova, bem até porque ainda estou aprendendo as falas paraenses, como paranaense, e mesmo estando por aqui há 20 anos.

A palavra é RASA, vindo da conversa sobre o Açaí, a vassoura, a brincadeira, os meninos. Falei a eles para refletirem sobre o que Vygotsky nos conceitua como sendo “a palavra enquanto microcosmo da consciência humana”, e o que entendemos disso em nossa práxis?

Açaí tem a ver com Bacaba, com Rasa, com Vassoura, com Trabalho, com Brincadeira, com Peconha, com Guarumã, com Guaraná...


A rasa é um cesto fabricado da palmeira de guarumã (guarumã-açu). Nesse cesto transportam-se os frutos do açaí após a debulha (operação manual para separar os frutos maduros do cacho) até as embarcações que o conduzem ao trapiche de Icoaraci ou de Belém. Nesse trabalho participam muitas vezes todas as pessoas da família, incluindo as próprias crianças.


Uma rasa possui cerca de 14 quilos de açaí, e que pode custar R$ 5,50 para o produtor e no período da entressafra chegar a custar R$ 23. (sistema de valor e sistema de medida, medida arbitrária - etnomatemática).


É preciso fazer com que o conteúdo atravesse as disciplinas, mas, tenha significado para a criança, precisamos saber trabalhar o código e a produção de sentidos. Chamamos de etnoalfabetização, respeito pedagógico que destaca o processo da aprendizagem que considera as diferenças e peculiaridades de um grupo e no caso das crianças ribeirinhas, a partir de suas percepções, sua linguagem, seus costumes e sua cosmovisão. É a palavra da criança, é a palavramundo e é por isso, a palavra o microcosmo da consciência humana. Daí se mostra a necessidade de se desenvolver a competência linguística da criança.


* Variedade lingüística = identidade, cultura própria, dialeto – aprendizagem empírica
* Competência lingüística = prestígio na sociedade letrada – aprendizagem escolar

sábado, 20 de agosto de 2011

Açaí e sua rede de conhecimento no mundo da palavra: alfabetizar-se na cultura da escola


O singular e o plural / O sujeito e o objeto
se misturam, como nesta obra de
 minha cunhada Miriam Gonçalves

Alguns equívocos de se trabalhar a palavra gera exaustão na criança, no alfabetizando. O professor desconhece o que Vygotsky chama de aprendizagem e desenvolvimento. Como uma criança aprende? Como um sujeito aprende depois de ter feito etapas mal feitas em sua escolarização?

Paulo Freire nos apresenta a palavramundo quando reitera por vezes que a palavra mundo precede a palavra da criança, ou seja, “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”. E que para Vygotsky (1991, p. 132) “uma palavra é um microcosmo da consciência humana”, por isso nos mostra que a palavra está na criança e em sua rede de significados, a qual reinventa sentidos ao bel prazer e para nosso deleite. Vamos aproveitar e também debulhar a palavra, pois, Sônia Kramer diz que a palavra precisa ser trabalhada logo em seguida. Código e Sentido juntos debulhados e enredados.

E falando de nosso ou de outros microcosmos...

Lembra da tagarelice de Emília quando fazia a sua “reforma da natureza”? A danada aproveitou que Dona Benta e todo o pessoal do sítio foram chamados para reformar o mundo na Conferência da Paz (Paris, 1919), que ocorreu logo ao final da Primeira Guerra (1914-1918). Lá se buscava reescrever um tratado a partir do depoimento dela com a Tia Nastácia. Afinal, as duas mulheres sabiam como melhor governar a paz e a alegria do sítio através de sua Humanidade e Bom Senso - admirava-se o Duque de Windsor lá "pelas zoropas" e pra banda da Inglaterra. Pois é, as duas tinham o Visconde como consultor científico.

Noventaequatropéia e o espanto das gentes.
Monteiro Lobato e a Reforma da Emília
E lá pelo Sítio, sósórósósó a Emília foi aprontando, mas, orientava os bichos a ajudá-la a fazer uma outra reforma e bem diferente de tentar modificar a humanidade, mas, não esquecia da natureza humana em todo rebuliço, e olha lá um olho no pé e bem no “mingo” para evitar tropeços nas pedras, espinhos e estrepes. Assim deixou Emília, os ditadores com as mulheres do sítio de bom senso, munidas de belo espírito prático e tão cuidadosas de tudo, porque arretada do jeito que era, faria ela, a boneca de pano, um grande escândalo internacional.

Tênia Emília, com a ajuda de sua amiga rã, e no laboratório oco de uma árvore foi criando o passarinho-ninho, a noventaequatropéia, o livro comestível, o porco magro, o sei-lá-que-animal-é-esse, o bule que apita, o pernilongo cantor, a gaiola de cabelo, as pulgas moles e paradas no meio do ar, as moscas sem asas, a reforma na vaca mocha, a reforma na personalidade das borboletas azuis. E seus tantos enxertos in anima vile em formiga, grilo, minhoca, pulga e centopéia reaproveitando aulas sobre glândulas e outras fisiologias...

Depois, bem foi ela mexer com “O espanto das gentes”...

Quantas crianças por aí afora não realizam seus experimentos, inclusive questionando e reinventando palavras como é o tal do “biriquitote xefra”, do Marcelo Marmelo Martelo da Ruth Rocha.

Cada aluno que chega, traz consigo a vontade de encontrar os seus colegas, de brincar, de “aprender muitas coisas”, de reinventar coisas e palavras tais, enfim, percebemos que o afeto medeia as atividades, influenciados pelo mundo interior e exterior. Não se pode separar o sujeito de seu objeto, há ali influências mútuas, conhecimento adquire dimensão de autoconhecimento, a formação da consciência crítica é primeiro passo de toda proposta emancipatória. O que seria uma reinvenção?

Giroux e Freire pensam na perspectiva de currículo que conteste os modelos puramente técnicos, segundo Silva (1999, p. 55), “a concepção libertadora de educação de Paulo Freire e sua noção de ação cultural forneciam-lhe as bases para o desenvolvimento de um currículo e de uma pedagogia que apontavam para possibilidades que estavam ausentes nas teorias críticas da reprodução então predominantes”.

Nada de exaurir a criança ao be-a-bá sem sentido, reproduzindo uma palavra só ao longo de um projeto pedagógico. É preciso agregar a produção de sua palavra (objeto-sujeito) na palavra do outro (objeto-sujeito). Ela precisa produzir sentido em tudo o que aprende, caso contrário o seu pensamento com suporte na memória reprodutiva não consegue criar de tão cansada fica.

A palavra "açaí" e seu - nosso microcosmo
À aprendizagem segue o desenvolvimento, segundo Vygotsky, é preciso que a palavra focada seja vista em diferentes contextos ou gêneros literários. A nova palavra se desdobra nos significados. Do Açaí, Yasaí, Fruta-que-chora, Açaizeiro, Vassoura, Corrida de Bocó, Corrida de Peconha, Macaca, Brincadeiras, Trabalho, Colheita, Venda, Comércio, Fome, Boca Roxa, Boca Pálida, Energia, Tapioca, Peixe, Carne-de-sol, Bicho Barbeiro, Higiene, Bacaba, Barco, Casquinho, Trapiche, Icoaraci, Ilha, Rio, Ribeirinho, Águas, Fluxos, Movimentos, Luta, Luto, Alegria, Música, Dança, Festa, Ecojóia, Safra, Trabalho Infantil, Escola, Cidadania, Vida!

A palavra Açaí se desdobra em tantas outras, não é mesmo? Então nada de ficar exaustivamente o ano inteiro trabalhando só com ela. Sósórósósó Açaí? Bem, cria-se o “mapa mental” bem legal com o alunado.

Contraste...
Qual a diferença do açaí e da bacaba, da vassoura e da “corrida de Bocó”, da fome e da energia, do hematófago bicho barbeiro e do piolho no cabelo, do modo de tomar açaí nas praias cariocas e de tomar açaí no festival de Inhangapi (PA)?

O texto escrito ou imagético da criança não é um vir-a-ser, ela é um sujeito social e histórico, dotada de linguagem própria que traz consigo uma visão de mundo e o dizer característico de sua gente, assim se respeita e se constrói a sua autorreferencialidade através da multirreferencialidade no processo ensino-aprendizagem. 

Casquinhos abarrotados de açaí
Ou seja, "a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo", dá a criança gostosamente a oportunidade de "escrevê-lo ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente" (Freire, 1989, p.22), de uma práxis que permita a criança repetir, re-criar, re-viver a palavra e reinventá-la no texto que representa. Como também cooperar na reforma da natureza - humana - se preciso for, coisas de boneca que vira gente e espanta as gentes com medo do minhocão que vem vindo ou daquele que não "olha-pro-caminho-quem-vem".

Capa Original - 1a. edição 1941
Pois é, o minhocão botou os moradores para correr. E os jornais do mundo inteiro noticiaram e os canhões antiaéreos tentavam atirar contra a Coisa Preta lá de Juiz de Fora corrida pro Canal do Panamá e resolvida a beber sangue dum cavalo velho americano e a fazer as pulgas morrerem estataladas. Mas, que estranho fenômeno, hem Dona Pituitária?

Alguém por acaso sabe do monstro que assustou o mundo naquele lugar e no auge do café?

Coisas estranhas estão a acontecer aqui e acolá. E o texto do aluno a deslumbrar a vida e a nos fazer rir ou chorar - de tanto rir ou chorar mesmo. Quais as hipóteses das crianças e dos demais leitores? A coisa está mesmo preta! rs

Referências
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados, 1989.
LOBATO, Monteiro. A reforma da natureza. 38 ed. 13ª. reimpr. São Paulo: Brasiliense, 2004.
ROCHA Ruth. Marcelo, Marmelo, Martelo e outras histórias. 42 ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1993.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
VIGOTSKII, Lev Semenovich; LURIA, Alexander Romanovich; LEONTIEV, Alexis N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 10 ed. São Paulo: Ícone, 2006.
VYGOTSKY, Lev. Pensamento e linguagem. 3 ed. São Paulo; Martins Fontes, 1991.