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sábado, 28 de julho de 2012

Do desenho sobre a pele ao desenho sobre o papel

O primeiro lugar da escrita é a própria pele. Os primeiros aprendizados trazem o vínculo corporal com a vida. A criança espia o mundo através do corpo de sua mãe. Segundo Fernandéz (1994), "quando uma criança nasce precisa habitar o corpo da mãe de outra maneira". Esse vínculo traz algumas marcas de contato, sejam de afetos ou golpes recebidos.


As mãos de Sofia brincam no corpo de sua mãe:
tocam o cabelo, deslizam pela boca ou nariz, acariciam o colo, pressionam o peito, assim vai Sofia sendo alfabetizada através do corpo de sua mãe.


As mãos desenham o corpo de sua mãe - essas cenas de escrita do corpo - logo logo suas impressões de afeto marcarão o papel. Pele Papel.


"Traçar riscos dispersos sobre uma folha, tão 'elementar' como parece, é a resultante de longos trabalhos de escrita realizados sobre outro terreno" (Rodulfo, 2004, p. 72).


O toque é terapêutico. Tocar faz bem!


Faz bem ler:


- Fernández, Alícia. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1994.
- Rodulfo. Ricardo. Desenhos fora do papel: da carícia à leitura-escrita na criança. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cartas para Deus e sua relação com o Bullying: releitura das crianças da escola


“Cartas para Deus” é um filme que conta a história real de uma criança, com câncer, por lá em seu tempo (1996-2005), capaz de pensar mais nas pessoas que ama do que em si mesma.

Há pessoas hoje bastante apressadas que brigam com o tempo, sempre tão cheias de afazeres e atribulações, poucas delas param para Ver quem está ao seu lado, mas, há quem desperta as sombras dessa “caverna” ou redescobre as muitas possibilidades existentes de ser feliz também.

A nossa escola se preocupa com a tomada de consciência da criança, do jovem - nossos estudantes - porque juntos aprendemos a conviver com as diferenças, a desmistificar saberes, a ressignificar a violência, a facilitar a paz e a aprender a bem viver.

A educação sustentável é um permanente processo onde pessoas, grupos ou comunidades tomam consciência do outro e a partir do meio que vivem, por ali adquirem conhecimentos, valores, habilidades, experiências que os tornam aptos a pensar, reinventar e agir individual e coletivamente em busca da resolução de problemas presentes e futuros nas dimensões psicológicas, sociais, políticas, econômicas, culturais, ecológicas e éticas.

O processo do aprender não está preso a nenhum limite de idade, assim como o processo de ensino-aprendizagem não deve conter qualquer marca de preconceito ou discriminação. Um dos motivos que o fenômeno bullying cresce - e se infiltra - no meio escolar é por conta da insistência de um grupo perseguir e intimidar colegas por suas diferenças, não valorizadas. Os valentões preferem quem apresenta baixa auto-estima, mostra-se fragilizado emocionalmente ou em franca desigualdade de poder, para ser a vítima preferida, o aluno-alvo desses ataques.

Esse filme serviu a nossos objetivos pelo sentido de coragem, superação, solidariedade no aspecto de convívio mais humano e por revisar o conceito de bullying através de personagens escolares e suas histórias familiares, que em novo tempo modificam seu jeito de ser com a forma da vítima responder, ou não responder aos constantes ataques. A amiga da criança-alvo não foi simplesmente espectadora, mas, exigiu respeito e procurou mostrar toda inadequação de conduta.

O melhor de tudo é a maturidade da "vítima" que não demosntrou baixa auto-estima e, ao contrário, ensinou o significado do perdão. O valentão dessa história aprendeu a lidar com seus sentimentos e a (re)descobrir palavras divinas e preciosas que acercam o Amor, que aproxima pessoas tão singulares e plurais. Ele também recebeu uma Carta de Deus, via protagonista dessa trama.

As crianças de nossa escola, estudantes de uma turma de quarto ano e também de quatro turmas de quinto ano, fazem suas releituras destacando as importantes passagens do filme...

Cartas de Tyler a Deus...
Laiane da C21301 e Cintia da C22303







Sarah da C22302 e Jonatan da C22304
Cuidados da Mãe
Eduarda da C22303










O susto da avó injetando remédio...
José Jacó da C22303 3 Ana Carolina da C21301
Ciúmes de Ben em relação à mãe e ao irmão Tyler
Adriely da C22301
Telhado de casa - um lugar de muitas inspirações...
Ronilson da C22303 (boa textura do aluno)
Braddy, o carteiro, e Galo, o cachorro...
Allan da C22301 e Rodrigo da C22303
Tyler vomita no pé de Braddy: outro desafio do novo carteiro...
Rodrigo da C22303
Braddy e Tyler jogando bola: aprendizagens mútuas
Willian da C22303
Sobrancelhas postiças: aquele 'tchan' em Tyler...
Alan da C22301 e Flávio da C22303
Tyler é "guerreiro de Deus"...
Carlos da C22303
Samanta dando um lição em Alex, a seu modo, no refeitório da escola...
Adryan da C22301
Perdão de Tyler a Alex, seu amigo da escola...
Pâmela da C22301
A bela amizade de Samanta e Tyler...
Ydara da C22302
Braddy, o carteiro, vai à igreja aconselhar-se sobre o que fazer com as Cartas de Tyler a Deus...
Felipe da C22301
Tyler recebe Alta da Quimioterapia...
Clara da C22301 e Lucas da C22304
Tyler e o gostoso desafio de ser "O Goleiro" do time da escola...
Pablo e Erielton da C22304 e Anderson da C22301
Tyler e o leito do hospital...
Marlon da C21301 e Rodrigo da C22303
Momento da passagem...
Biatriz da C21301 e Igor da C22304
O nenê da vizinha nasceu...
Andrei da C22301
Inauguração da Caixa de Correio de Tyler...
Wenderson da C22303 e Geovane da C22302
Este filme sensibilizou muito as crianças de nossa escola que refletiram sobre as atitudes de Alex ou de crianças como ele, mas, principalmente pelo perdão de Tyler que fez todos repensaram as atitudes de colegas e nessa carona ver-se um pouquinho mais...

Assim meninos e meninas escreveram cartas para outro colega, animados com a referência de Tyler a Alex ao abordar o perdão. Os estudantes motivados também escreveram Cartas para Deus a falar sobre dificuldades na família, na escola, nos brinquedos, nos lanches, enfim, sobre sentimentos e cotidianidade.

Caminhamos pelo processo de tomada de consciência a buscar, sobretudo, modificar as atitudes das crianças frente às travessias, redes, nós, laços, surpresas, percalços, alegrias, ou seja, nas reinvenções do cotidiano. As mediações dessa atividade pedagógica foram realizadas pelo Professor Elias Gomes, pela Professora Cíntia de Artes e contam com a colaboração de professoras referências das turmas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Árvores e Nascimentos: à procura de uma muda para Sofia

Lorena com a sua árvore, em 1982.
Plantei um sombreiro para Lorena e um pinheiro para Lígia em Paranaguá, árvores típicas do litoral paranaense, no sopé da Serra do Mar, ali morávamos bem próximo ao "Pé do Gigante". Bastante sugestivo o nome do nosso bairro: o Jardim Samambaia, conjunto habitacional que, no início da década de 80, era considerado um local longínquo, ainda mais para nós que morávamos no Centro da Cidade.


Agora estamos em Belém do Pará, localidade em que a nossa Sofia irá nascer, por aqui a passagem familiar floresce. Estamos agora em busca de uma árvore para Sofia, pretendemos plantá-la no Sítio da Lorena e do Assis, que moram no bairro do Curuçambá, na periferia do município de Ananindeua (PA), localizado na região metropolitana de Belém.



Aluna e Aluno plantam um muda
no solo de nossa Escola
Quem poderá nos ajudar? Vou pedir primeiro para os dois professores coordenadores do Projeto AMA de nossa escola. No viveiro de mudas do projeto tem um "berçário", ali plantas típicas estão sendo bem cuidadas por professores e seus monitores.


A planta de Sofia virá desse lugar de muitas aprendências! Ideal para seu crescimento.


Veja por aqui uma boa referência sobre o dia da árvore, bom motivo para despertar ou fortalecer a consciência ecológica. Bons frutos. Belas sombras. Mais vida e mais amores!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PROJETO AMA: uma homenagem ao dia mundial da ALFABETIZAÇÃO


PROJETO AMA

AMA: é o ensino e a aprendizagem para a convivência harmoniosa com o meio ambiente. O projeto busca relacionar o amor à vida através das relações dos estudantes com a natureza, o cotidiano e o conhecimento. O cotidiano do aluno está ali sempre presente porque discutir as questões que permeiam o dia a dia de crianças e jovens é essencial para a educação.


A partir de todas as fases do plantio, a começar pelo pensar e planejar, pela concepção do germinar e o potencial da semente e tratamento exigido, assim o alunado acerca-se de novos cuidados e respeito ao Outro e vai desconstruindo hábitos, nessa tomada de consciência percebe as importantes relações interdependentes implicadas em cada ato humano.

Educar requer paciência porque a história de vida das pessoas é diferente, tolerância porque aprendemos que só os peixes mortos não conseguem nadar contra a correnteza, e “navegar é preciso"[1].

Assim admiro demais o trabalho pedagógico dos educadores que FAZEM A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ACONTECER na nossa escola - das crianças menores aos jovens que frequentam o Curso Médio Integrado - Técnico em Meio Ambiente.

Releitura do AMA
Alfabetização Ecológica é o nosso desafio neste século da informação e do conhecimento para tornar o mundo mais sustentável! Precisamos juntos aprender a “saber viver” de forma mais sustentável, com mais amorosidade nesta sociedade líquida, onde tudo que é sólido se desmancha no ar...

Revista Nova Escola
Parabéns professores Elias Gomes (pedagogo) e Célio Costa (engenheiro agrônomo). Vocês nos mostram que alfabetizar não é só uma questão de gênero e assim ultrapassam preconceitos. No Brasil, há mais alfabetizadoras do que alfabetizadores, a mulher predomina no campo da educação infantil e das séries iniciais, inclusive no quadro mundial, somente 1,5% ou 16,5% dos homens trabalha nessa modalidade de ensino. Nós mulheres não temos preconceito e esta homenagem é uma prova desse nosso sentimento universal!




Os nossos parabéns aos educadores e educadoras que atuam na alfabetização e valorizam o meio na aprendizagem escolar dos estudantes porque sabem ir além do código e permear de sentido a produção do conhecimento. Vocês sabem fazer a diferença neste contexto político e pedagógico. É a leitura de mundo na leitura da palavra.

[1] Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a. C., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, In Vida de Pompeu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Educar para a Paz: a educação de crianças, jovens e adultos

O vídeo “Vida Maria” ajuda a organizar discursos porque no conjunto e, em seu papel, emocionados os protagonistas conversam, como em metaconstrução, quando as pessoas se transformam nos detalhes de seus personagens ou conteúdos, misturam-se às possibilidades de Maria, às chances de superação e ao que tem em comum com ela.


Na escola, um de nossos estudantes expressou que não gosta de matemática porque quebraram-no o dedo quando criança, por não decorar a tabuada, outros revelaram que a contínua repetição da falta de afetividade e oportunidade na vida de Maria assemelhavam-se à história da mãe, outras revivem a juventude e as oportunidades que passaram, alguns alunos abaixaram a cabeça pensativos após o filme e as palavras engasgavam na folha em branco, enfim, o filme como um alerta para si mesmos significa não perder situações que possam ser importante porta do tempo que lhes atravessa e ressignifica.

Nesse observar cuidadoso do professor que cuida de observar, compreender e motivar o estudante, algo muito valioso alia-se a pergunta que nos empurra ao saber fazer e mediar as aprendizagens: “que atividades mentais realizam para aprender (...) como vivem e sentem o processo de aprender e que finalidade tentam alcançar para realizar o esforço que supõe”. (Marchesi, 2006, p.32).

Depoimentos significativos marcam e fortalecem ainda mais o exercício docente: “já fui xingado de velho, cabeça branca, papai Noel, mas, não vou desistir”; “muito desses jovens imitam minha maneira de falar, não entendo, por que não vivem a vida deles?”. Educar pela e para a Paz remexe com as idiossincrasias, com olhares arraigados em estereótipos que veem só o que agrada ou não conseguem acolher o outro. O educador é o mediador dessas relações silenciosas ou escancaradas da sala de aula e que, por vezes, impedem de aprender melhor.

Sobre sustentabilidade de vida aqui encerro com Mahatma Gandhi: Se todos trabalhassem para obter seu sustento, e não mais, haveria bastante alimento e ócio suficiente para todos. Então, não haveria gritos de superpopulação, nem enfermidades, nem a miséria que vemos ao nosso redor. (...) Os homens poderão, sem dúvida, fazer muitas outras coisas com seus corpos e mentes, mas tudo deveria ser um trabalho de amor pelo bem-estar comum”.

Referência
MARCHESI, Álvaro. O que será de nós, os maus alunos? Porto Alegre: Artmed, 2006.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Persistência e Esperança: o pouco pode ser muito

Aluna, 12 anos.
O ato da escrita: emoção, desenho e expressividade.
Debates ou gestos? “Deseinhos bobinhos" ou grandes dissertações?

Não interessa a forma, pois, na batalha contra a violência e o bullying, toda e qualquer atitude com alunos e alunas pode fazer a diferença. Só sei que deve sair dos bancos e teses acadêmicas e se voltar para a escola. Com afeto e inteligência. Consciência e compromisso pedagógico. Sem oposição pela paz.

E não demorar muito, pois, a cada dia muita coisa acontece e ali na escola elas precisam da gente. Um ou cinco minutos no lance de um olhar significativo pode modificar alguma coisa dentro da criança ou do jovem. Nada efêmero.

Prevenção, cura ou reeducação qual a medida certa para cada caso? Você distingue no momento seguinte ao olhar. Experimente e ali você decide com a criança de toda idade.

Estou por aqui no blog a escrever sobre o tema desde 2010. Neste ano a mídia pipocou de exemplos vivos, marcas profundas na vida de muita gente que vive a escola ou passa na frente dela ou ao seu largo na memória, críticas ao moderno ou cheio de saudosismo, apoiando ou banalizando o tempo atual.

Antigamente existiam ou pouco se comentava. Hoje se tem mais estudos sobre o assunto. Quantas referências por aí e por quê? A vida corre, as pessoas sem tempo para olhar o outro. A moral e a ética exigem paciência e respeito pelo outro e pela nossa outridade. Pior que tem muita gente opinando e pouco fazendo.

Menina, 11 anos.
Assim na escola deixamos o papo e vamos lá conversar com as crianças. A cada dia sabemos de histórias de abandono, separação, marcas no corpo da criança, marcas no coração da criança que torna-se adolescente ou adulto, consequências sociais enormes, desconversas de alguns, preconceitos, maus-tratos, escárnios, denúncias, queixas, choros, voz contida, desenhos fauve, evocação do vazio, bonecos sem vida no papel, cenas incompletas, entrecortadas, composição borrada, trêmula, amasso do papel, sofrimento nele, pressão intensa, cores fortes, energias atravessadas, ocultação, simbolismos variados a dizer o que a boca não consegue falar, mas, também pensa que desenhos nada revelam.

Voltamos mais uma vez e outra, não cansamos de falar, cantar, representar o amor, o respeito, o cuidado como bandeiras da paz e da esperança. Ação positivista ou neoliberal? Qual é o enquadre de nosso fazer? Murmúrios por ali ou aqui nos acessos furtivos. Lá vem ela com aquela bobeira de novo. O aluno precisa ser expulso da escola! Medidas enérgicas. Aos órgãos de correção a solução do problema social. Punir ou transferir. O que fazer?

Ouvir a criança. Sentir a criança. Olho no olho.
Não há olhar sem escuta e escuta sem olhar (Wallon e Lacan).
E a educação? Qual é a filosofia da escola pública? Não, não pode ser "escola pobre para o pobre" (Demo, 2011). O que os governantes pensam? Tantas ideias novas surgem, programas, bolsas auxílios e kits são criados tomando o tempo do que mais importa: a aprendizagem do alunado. Estar ali com eles. Sentindo a temperatura de suas mãos e olhando o rosto que se desvia, envergonhado ou sofrido, cabeças e olhos rebaixados e quase sem esperança.

Deixar a criança falar.
Dizer sobre atos de escrita. Mediar saberes.
Vai demorar quanto tempo para chegar aqui com o aluno ou a aluna tudo o que se pensa lá em cima? Na academia, no governo... Quantos atravessamentos por aí vão e o que chega à sala de aula ou pátios escolares corresponde ao dito e escrito lá em cima? Quem confere? Como avalia?

Enquanto isso vamos nós criando as formas possíveis do amor, tendo paciência e persistência de lidar com a violência de todos os sentidos. Nada nos afasta das crianças de todos os tempos que ali estão matriculadas na escola. Algumas sem referência de educador em casa.

Destaco algumas passagens diante desta batalha do amor que me acorrem no fazer articulado e cujas alternâncias perpassam às funções e conexões da inteligência e da afetividade e que preponderam em diferentes momentos do desenvolvimento infantil e da consciência humana. Ora uma um pouco mais do que a outra, e não ao largo da outra. A natureza humana é dinâmica: pensar e fazer, fazer e pensar junto. A leitura aperfeiçoa o fazer. Torna-o melhor. É o que se espera, estudar torna as pessoas melhores.

Piaget: O afeto é o motor da inteligência. Entretanto, Piaget baseia-se na noção do autismo e do egocentrismo a defender que a consciência é primeiro individual para depois se tornar social, preocupar-se com o Outro. O pensamento egocêntrico das crianças “situa-se a meio caminho entre o autismo no sentido estrito da palavra e o pensamento socializado” (Piaget apud Vygotsky, p. 12).

Freud: ressalta o aspecto social e a pressão exercida pela sociedade sobre as nossas pulsões infantis. A consciência individual não é um fato primitivo. Há uma simbiose afetiva esboçada nos primeiros movimentos de diferenciação.

Wallon:para apreender-se como um corpo dentre os corpos, como um ser entre os seres, é preciso utilizar-se de analogias, assimilar o que já sabe, perceber, individualizar-se, e discernir os diferentes aspectos que vão lhe possibilitar ter uma representação de si mesmo” (1995, p. 211). O fantasma do outro, que cada um traz dentro de si influencia em nossas relações com o outro. Ou seja, “as relações entre o eu e o socius, ou outro íntimo, podem variar do normal ao patológico, como é o caso dos delírios de influência” (Bastos, p. 60). O socius é também denominado alter – interdependente, antagônico, confidente, conselheiro, censor e até espião. De onde vem o medo e a insegurança da criança ao representar suas emoções? E no processo expressivo de seu dizer(se)?

Maturana:O emocionar da convivência no discurso, na linguagem, não pode nem deve ser negado, porque é com ele que se dá o viver humano. É no emocionar que surgem tanto o amigo como o inimigo, não na razão ou no racional” (p.77).

Aurora Rabelo, no prefácio de Maturana (p. 7) “‘emoções são fenômenos próprios do reino animal, onde nós humanos, também nos encontramos, e que o chamado ‘humano’ se constitui justamente no entrelaçamento do racional com o emocional, na linguagem, faz desabar o imperialismo da razão”. Continua ela dizendo adiante sobre ele: “Maturana funda o social numa emoção em particular, o amor, por ser esta a emoção que permite a aceitação do outro como legítimo outro na convivência” (p.8).

Freinet:a criança dá provas das suas aptidões criadoras, porque incessantemente imagina, inventa e cria” (p.14) e é preciso “aclimatar a expressão livre da criança em aulas resolutamente abertas para a vida” (p. 15). Freinet critica: “o desenho e a pintura são tidos como atividades de luxo e que não devem usurpar as técnicas escolares consideradas essenciais” (p. 19). Entretanto, para ele: “o desenho e a pintura são para a criança actividades naturais e excitantes como a marcha, a linguagem, o canto e a dança” (p.26). Assim, a criança avança mais segura de si, é o que nos pondera Wallon mais adiante.

Falar com a criança e entre outras
é saber dialogar com os saberes que nos atravessam.
Ali com os alunos e as alunas nos sentimos bem em persistir neste complexo antídoto: o amor!

Desculpem-nos, mas, não dá tempo de elucubrações em determinadas horas, a escola está clamando por atitudes urgentes. Vamos conversando sem deixar a escola à mercê dos tempos ou programas que estão a chegar sabemos lá quando e quanto de fato da fonte chegará ao destino. Ela nos exige competências e atitudes. Saber se relacionar com as aprendizagens e nas atividades experimentais do laboratório da vida.

A escola é o nosso campus. “A pedagogia ensina a técnica mas não a arte”, segundo Freinet. O tempo urge, pois, “a criança estará engaiolada e mesmo que lhe abram a porta não se aventurará a sair” (p.120). Só pelo amor e persistência, e dadas às circunstâncias ou algumas mediações inteligentemente sensíveis!


As emoções são mediadoras das aprendizagens e dos aprendentes-ensinantes!

Leia:
















Referências
BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. A construção da pessoa em Wallon e a constituição do sujeito em Lacan. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
DEMO, Pedro. Sobre falar e escrever errado: comentário sobre um debate duvidoso. Brasília, 2011. Disponível em: http://pedrodemo.sites.uol.com.br/textos/errado.html
FREINET, Célestin. O método natural II: a aprendizagem do desenho. 2 ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1977.
MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.
VYGOTSKY, Lev. Pensamento e linguagem. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Imagens primeiras: arquivo pessoal.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Retratos do Bullying e acenos de paz: olhar da inclusão e suas traduções

Menino, 9 anos
O trabalho desta exposição adveio de duas turmas: uma de alunos de Ciclo I (1o. ano ou Alfabetização) e a segunda é de uma turma de Ciclo II iniciante (4o. ano ou 3a. série).


Na turma 1, as crianças de 6 anos assistiram ao vídeo "Convivência" e a turma viajou junta na narrativa e através das imagens do livro "A Tartaruga Infeliz", de Therezinha Casasanta, conta a história que uma tartaruga gostava dos lustrosos pelos do coelho e de uma cachorrinha, além da agilidade deles na locomoção. Até que, no meio do passeio dos três amigos, uma mudança inesperada do tempo fê-los perceber que o casco duro servia sim como uma boa sombrinha, protegendo a amiga da chuva. E, ao contrário, os pelos dos dois amigos como barbantes encharcados. E ela mesma não mais se achou bicho sem graça. E "se você conhecer uma tartaruga infeliz conte esta história".


Já o vídeo "Convivência", retrata a forma de tratamento de quinze passarinhos, muito dos mal-educados, para com o passarinhão desengonçado com suas altas pernocas, bastante simpático e que tanto queria ser amigo deles. Sem acordo!


A conversa deu gosto a todos. Muita gente queria falar e tudo teve que se organizar direitinho. Um falava e outros ouviam. Assim todos puderam falar e ouvir. Os dizeres continuaram dando vazão às memórias casadas ao novo exibido ou narrado e assim as narrativas adequaram-se aos limites do papel e traduziram a imaginação e a relação de cada aluno com as experiências em comum na sala de aula.


Na turma da tarde, ao contrário, os alunos assistiram às mesmas apresentações expostas nos dois post anteriores, aqui e aqui, cantaram as músicas da paz, representaram seus saberes e emoções e, por último, formaram grupos operativos na hora do recreio e realizaram trabalhos em suas equipes.


Agrupamos algumas ideias por aqui.


1. Primeiro, o olhar de dois queridos alunos com necessidades educacionais especiais:
A menina, de 7 anos, foca a violência estampada na figura de corpo larvário. Sentiu medo?
O menino, de 6 anos, dá corpo à violência central, porém, ladeada pelo círculo da amizade, antagonismo que se defronta com a representação da professora (maior círculo azul na roda). São figuras continentes circulares. Bela mandala. Bela composição! Conversa nos trinques ao gosto da representação.
Os alunos frequentemente fazem desenho para a professora, ou outro leitor, como nós virtuais. Poucas são as representações que trazem os corpos relacionais, ou seja, que os protagonistas da cena interagem entre si, vivem o enredo, sem se preocupar de se mostrar ao leitor. Olhar dramático, com mais sentido e que sabe mostrar o significado das relações humanas. Alguns detalhes caminham para essa troca.


2. Retratos para o leitor - corpos frontais e alguns ainda combinam elementos de perfil, mostrando transição, pequena rotação, porém, é conflito natural das representações iniciais:
Menina, 9 anos. Não resolve na imagem, único quadro e um só tempo,
o problema exposto entre dois personagens à esquerda.
Menina, 6 anos, proteção reforçada às mudas (arco-íris escuro)
Menina, 6 anos. Meninos e Meninas em Paz.
Menina, 9 anos.  Deboche e Dança: violência e paz. Como integrar?
3. Corpos Interativos ou Relacionais: personagens dramatizam suas relações (bom esquema corporal).
Menino, 8 anos. No primeiro quadro, representa a violência, no segundo, busca  recuperar a amizade.
Observa-se sequenciação. São os mesmos personagens (de perfil, de frente ou de costa). Estes ainda sem as mãos.
Menina, 9 anos. Briga e reconciliação em tempos diferentes. Mesmos personagens de perfil. Pés com movimentos coordenados. Mãos um pouco ocultas ou indefinidas. Braços desproporcionais.
4. Letramentos incorporados: signos culturais
Menino, 6 anos. Linguagem das placas de trânsito e metáfora do coração.
(5) Encontramos esta representação de um aluno batendo na professora. Mostra o motivo da violência no balão. Inquietante!
Aluno, 9 anos. De onde vem esta memória? 
Acontece? Esperamos que sejam somente exceções. E muito raras. Sabemos que há casos igualmente esdrúxulos, de filhos que batem nos pais. De qualquer forma é um alerta. Falar palavrão em sala de aula, ou mesmo adulto preconceituoso que ofende crianças não são bons exemplos de educação. É igualmente pernicioso sejam os "educadores" pais ou professores. Adultos são sempre referências para as crianças.


Que seja só mais um pesadelo de criança, daqueles depois de ouvir uma história horripilante contada à meia-luz pelos mais velhos da casa... E do tipo "matinta-perêra", "mula-sem-cabeça" etc.