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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Bullying não: escola é lugar de aprender e sonhar

Até entre alunos parece se consolidar que na prática a teoria é outra, ou seja, por que humanos se parecem tão contraditórios? Pelo menos é o que venho percebendo a dificuldade de admitir a existência de Bullying nos discursos escritos e imagéticos de crianças ou jovens. Talvez por ser o tema tão dolorido, preferem sublimar e falar de afetividades, regras de convivência, orientações ou sugestões ao leitor de seus textos e desenhos. Pouquíssimas crianças desnudam o que testemunham a respeito do tema.


Não que se queiram imputar a existência da violência em crianças e jovens que frequentam as escolas públicas, mas, é o que se percebe quando a estatística e a mídia levantam sobre a realidade de números e fatos cotidianos. E não só em escola pública. A cada dia nos assombramos com a existência de novas práticas que estampam os jornais e telejornais materializando a presença da geração atual agonizando a violência entre si ou aliciada por adultos.


Essa geração vem nos confirmar que a escola é lugar de aprender e por isso lá estão. Motivo para não sofrermos tanto assim. Ou não? O que a escola tem a oferecer de beleza e encantarias? Os sonhos e até os desejos ali nos entregam junto às nossas responsabilidades de ensinar e formar cidadãos de bem. E como trabalhamos a alegria na escola misturando às ciências nossas de cada dia?


O que aprendemos em nossa formação de professores e pedagogos? O que as cartilhas sobre Bullying nos ensinam na prática que se interdisciplinariza com a Vida e o cotidiano, ou seja, também perpassa, se modifica e se enreda nos saberes dos alunos? Regras de convivência, de fazer melhor, de discursar o tema que lhes é tão dolorido, de assistir outras realidades em filmes... De se escancarar o Sistema Febem, os números dos Conselhos Tutelares, dos CRAS, de noticiários sanguinolentos, ou mesmo de ouvir sobre relatos mais próximos... Mas, o que os alunos querem? Silenciar o tema ou apagar da memória, se possível, a realidade desassistida.


Carteiras quebradas, paredes riscadas, banheiros sujos, latas de lixos vazias, chãos sujos, copos ou pratos de merenda largados no recreio, plantas arrancadas ou pisadas, volumes de livros de ocorrências se apinhando e desvelando choros, soluços, ironias, vinganças, faltas, lacunas, abandonos, maus-tratos, fomes, ausências, abusos e silêncios nas salas de técnicos pedagógicos. O encaminhamento diante das mazelas sociais desassistidas é o de repassar aos órgãos disciplinadores competentes as realidades que atrapalham a práxis pedagógica.


- Qual é a função da escola?


Essas crianças e jovens parecem nos dizer que querem aprender. É a esperança da família depositada na escola e decantada a eles. A escola continua promovendo as aprendizagens, e as não-aprendizagens como vem sendo trabalhadas? Qual é o perfil de aluno que aprende e obtém melhor desempenho nas escolas? O de boa família ou o da bolsa-família? E as bolsas de estudos e as premiações, quem promove e quem as recebe? Quem recebe elogios, abraços, chamegos, atenção, palavras de estímulo? Qual é o mérito? Qual a dignidade?


Assim se faz necessário pelo que venho lendo nas produções de diferentes alunos, fazermos revisão de nossa práxis. A visão cartesiana da educação, capitalista ou neoliberal, vê lugar no mundo do trabalho e das boas famílias os melhores alunos e no submundo os alunos que não conseguiram aprender nos “bancos escolares”, porque ali na escola é lugar de alunos de famílias onde se tem afetos, cuidados e valores aprovados, santificados e justificados. Discurso moral, moralizante ou amedrontador consegue promover as não-aprendizagens e evitar a formação de futuros marginais?


Os alunos após palestras, conversas, releituras de filmes e livros de literatura parecem querer dizer do que costumam ou mesmo gostariam de ouvir e ver como válido, mas, há aqueles que se fazem fruir e preencher de versos os encantos que guardam em seus ouvidos e corações, ou mesmo admitem a realidade que lhes confronta ou perturba no cotidiano e nos perguntam como adultos e senhores de conhecimento: o que podem fazer para além das lições ou sermões?

Qual tem sido a resposta das escolas para esses apelos silenciosos, semi-abertos, desviados, negados ou escancarados? A pedagogia de projetos aprende a reler a realidade e propor alternativas. Como se conquista os alunos para que possam atuar em seus protagonismos e não como mero público-alvo, mas, convidados a saber pensar com os adultos e encontrar caminhos para ornamentar de sorrisos a sua vida que se constata em suas múltiplas linguagens o sentido retificado de que na prática a teoria é outra. O projeto não deve ser feito para o aluno, mas, com o aluno para que se respeite a forma como ele pensa e não como ele recebe mastigado o fazer, o executar.


Desafio de escrever na cartilha da escola as experiências recolocadas daqueles que testemunham ou são alvos de seus cotidianos que integram os sistemas governamentais de nossas relações escolares e interdependentes, a partir do percebido nas múltiplas linguagens do alunado.


Buscamos ouvir os alunos em turmas de ensino fundamental I, II e ensino médio a fim de pensar junto a eles os caminhos que precisamos trilhar e propor como projeto as ações que nos ensinam a saber pensar, fazer e aprender com seus protagonismos. Desafios, desconstruções, dificuldades, perspectivas são tantas e necessárias nesse processo.

O que a nossa formação é capaz de aprender a dialogar com seus pensamentos estará fazendo parte desse percurso continuado das aprendizagens, porém, se mistura com a vontade de fazer a partir da forma de saber ouvir os silenciadores que aplacam as dores de falar, insinuar e definir a violência que assola a realidade das escolas brasileiras neste aqui, mas, que nos percebemos a partir de nossa escola e por intermédio de nosso alunado os riscos de dizer e reunir mais conhecimentos que nos fundamentem no alento de realizar e pelo menos descruzar nossos braços. Se o erro para nós é como fonte de virtude então não se pode retroceder. Chega de lavar as mãos. Coragem de nos assumir frágeis no percurso e refletir juntos diante de um erro faz parte de quem quer aprender fazendo. Sabemos que são eles, os alunos, capazes de nos apontar o caminho a pensar e a fazer.


O que a política tem a ver como o nosso projeto pedagógico? Tudo. E por isso chamamos de projeto político pedagógico. As definições que chegamos e vamos complementar precisam se consolidar em ações. Por enquanto a ação de ouvir se configura como levantamento da realidade vivida e percebida em nossas práxis, com o diagnóstico desta fase podemos apontar caminhos a discutir com alunos a melhor forma de percorremos juntos as trilhas de nossa escola.


Questiona-se também sobre o que os políticos sabem e colocam em suas pautas quando dizem nas campanhas ou assistem jornais a respeito da violência nas escolas? Chega de conceber o Bullying, é preciso ressignificar, e principalmente, com urgência, através de medidas e subsídios que nos ajudem a modificar essa realidade que há tempo nos assola, desencontra e causa tanta maresia, como marujos de primeira viagem, paradoxalmente, navegando há mais tempo por mares tão revoltos.


Educadores e escolas não podem ser reféns de um sistema, pois, nele estão reunindo saberes adquiridos no processo curricular da vida, na formação universitária ou continuada, com diálogos entre si e a realidade da escola. O cotidiano dessa escola teoriza saberes que atravessam realidades, conhecimentos e Vidas. E vamos por ali, aqui e acolá nos formando na complexidade desses saberes.


Espero não estar sendo repetitiva, mas persistente, como ainda me falta sistematizar as produções de alunos do ensino médio reavaliando o contexto que ali desnudam junto a outros, estarei em breve reescrevendo o conjunto desse primeiro estágio visto por três ângulos diferentes das linguagens mediadoras, no aguardo também da aplicação de questionário de perguntas objetivas que preserva a identidade do sujeito, marca somente o gênero, a idade e a turma que nos ajuda nas diferentes compreensões ou intervenções no âmbito escolar.


- O que você pode nos contar e ensinar a respeito de realidades, projetos ou sonhos?

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domingo, 3 de outubro de 2010

Fenônemo Bullying: do lodo belas flores brancas

Estava lendo esta definição sobre a “flor-de-lotus”...

Tal como a flor do lotus cresce da escuridão do lodo para a superfície da água, abrindo suas flores somente após ter-se erguido além da superfície, ficando imaculada de ambos, terra e água, que a nutriram - do mesmo modo a mente, nascida no corpo humano, expande suas verdadeiras qualidades (pétalas) após ter-se erguido dos fluidos turvos da paixão e da ignorância, e transforma o poder tenebroso da profundidade no puro néctar radiante da consciência Iluminada (bidhicitta), a incomparável joia na flor de lotus”. Suas raízes ficam na profundidade sombria, mas, a flor se ergue sob a luz, síntese viva do mais profundo e elevado, de escuridão e luz, de material e imaterial, de limitações da individualidade e da universalidade ilimitada, de formado e do sem forma. Para ler mais, clique aqui.

... não pude deixar de relacionar e reanimar nosso trabalho em escola pública. No meu caso, um pouco mais de vinte anos como professora e porque ainda estudei em escola pública do 1º ano primário até o 2º grau e na mesma escola. Por lá cursei dois segundo grau na época: magistério e administração, e em seguida os estudos adicionais em pré-escolar.

- Por que acredito nas crianças e sonho com uma educação que consiga remexer com as realidades que atravessam as nossas escolas?


A flor-de-lotus é uma boa metáfora para nossa jornada e caminhos de vida.

- O que temos feito na escola?

Procuramos conversar sobre Bullying, usando recursos do power point, através de imagens e frases retiradas do cotidiano acerca de conceitos e significados, ou seja, de como cada criança ou (pré)adolescente, matriculado em turmas do Ensino Fundamental I e II, percebe e vivencia essa realidade bem de pertinho, seja como testemunha, alvo, autor ou alvo-autor, e nos diferentes espaços da escola. Pensares, sentidos e dizeres comunicados através das releituras de seu imaginário em forma de discursos escritos ou ilustrações.

Em seguida apresentamos o vídeo “A ponte para Terabítia”, por ali se visualizam diferentes situações Bullying, com mais ênfase nas turmas do Ensino Fundamental II, e destaque às cenas da hora do recreio que traz alunos menores, mas, esse mesmo filme inclui sonhos, fantasia, poesia, escritas, amizade, reconstrução diária, relação entre sonho e realidade, possibilidades, mudanças, transformação.

Nos trabalhos analisados, de quatro turmas, percebeu-se o quanto o alunado gosta de tratar do tema, se interessa a interagir com colegas, amplia debate, revela testemunhos e se coloca a escrever ou desenhar de forma autônoma, com segurança, uma pitada de receio, certa inquietude, espia o trabalho do colega ao lado e do outro, revelando também muita vontade de dizer algo. Confidências? Muitas vezes, suas escritas se tornam dialógicas, como se quisesse rediscutir regras de convivência e com certo gosto dar puxões de orelhas, como se nada acontecesse consigo. Entretanto, percebe-se mais reservas e tensão no papel e mais liberdade na linguagem oral com o(a) professor(a) mediador(a) em sala.

Algum substrato da percepção primeira:

Em uma turma do último ano do Ens. Fundamental II, 50% declara vivenciar Bullying, como testemunha (18%), como alvo (14%), como alvo e autoria (18%). A outra metade fica mais no discurso, conceitua, sugere ou pede ajuda à escola, colegas, pais ou responsáveis, conselho tutelar ou a polícia.

No 5º ano ou 4ª série, 50% dos alunos criam situação-problema e buscam solução (separar brigas, ter consciência e mudança de atitude, problema consultado ou transferido e resolvido na escola), este conjunto classifica como agressão física (40%) ou representa (10%) enquanto agressão moral. A outra metade da turma prefere sublimar ou reutilizar o tema, isto não quer dizer, que se desvia do tema, há subtextos, entrelinhas e entretantos. Fala sobre afetividades e interação sem sequer tocar na palavra. Saída pela tangente? Autodefesa? Outro modo de ver e dizer?

Na turma de 4º ano ou 3ª série, a maioria (93%) prefere escrever sobre regras de convivência, o que está certo ou errado com tendências a punições ou recompensas. Os outros 7% resolvem encarar o tema destacando, por exemplo, cena do filme e falando de suas identificações e sonhos.

A segunda turma de 5º ano ou 4ª série, unanimemente tece discurso moral através de regras de convivência em seus discursos escritos após palestra. E após sessão do filme, somente, 5% da turma discutem o assunto. A maioria da turma prefere falar ou ilustrar a amizade, a poesia, o amor, a aventura, a magia, a alegria.

- Por que esse tema parece dolorido aos alunos?

Na intenção de melhor objetivar os saberes dos alunos iremos aplicar um questionário na escola a fim de conhecer melhor os problemas, deixando-os mais livres para falar de seus sentimentos, receios, percepções e dúvidas. Assim que conseguirmos atingir uma boa representatividade do universo escolar, partiremos após diagnóstico para o desenvolvimento de projetos específicos.

O observatório da infância, por exemplo, discute com bastante propriedade o fenômeno Bullying e traz boas sugestões para desenvolvimento de projetos na escola. Inclusive apresenta um questionário bem fácil de aplicar, resguardando identidade do aluno e ajudando a pensar. Clique aqui e saiba mais.

O que foi interessante constatar após a primeira etapa do projeto (palestra e vídeo), alguns depoimentos favoráveis dos alunos que se dizem felizes em discutir o tema, com mais abertura e menos receio, inclusive citando a mídia, entender mais e porque puderam ilustrar seus sentimentos, assim que encontram os professores envolvidos no projeto falam sobre conhecimentos adquiridos, novas leituras, inclusive algumas confidências.

- Se você tiver alguma experiência ou sugestão para compartilhar conosco estamos sempre por aqui ou na escola.


Imagem 1: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjn1gP22yEMyORuY27teRO-YxDUxMuA7Mfn0WRl0bokuenLWDfEevFYPtREypq_ZZJ1J6x9JW0vsRVtIw1OgxKxVyus8_stm3r-NjTQv-yU0tWjoMaINxI08H8IOP6ARYSNY2Yns1gjZAD4/s1600/lotus7.jpg
Imagem 2: http://www.imotion.com.br/imagens/details.php?image_id=9638