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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Uma aula lá fora: códigos de linguagem, ciências humanas e da natureza entrelaçados




A experiência do processo ensino-aprendizagem, vivenciada por educadores e alunado das turmas do 7º,  8º e 9º anos, da nossa Unidade Pedagógica situada na Ilha de Cotijuba (Belém-Pa), encheu de ânimo toda a comunidade escolar ali representada no lugar chamado “Igarapé do Piri”, onde há plantação e cultivo de açaizeiros, com o consentimento do dono do local. Segundo uma aluna, a maioria estava como ela, super-hiper-mega animada.

Saindo para a Aula em Campo Aberto
Juntos os professores de Geografia, Artes, Matemática, Ensino Religioso e a Coordenação com a Professora de Língua Portuguesa, que também atua em Sala de Leitura, resolveram pensar algumas questões pedagógicas levantadas: “Por que os alunos não conseguem relacionar os saberes intrínsecos aos adquiridos em sala de aula?”, “Como tornar possível a autonomia dos sujeitos diante das (re)descobertas locais e seus problemas?”.

A questão em comum rezava sobre a dificuldade de escrita do alunado em questão, revista como “a pouca habilidade de leitura [índices de previsibilidade, explicitação do conteúdo implícito, levantamento de hipóteses, generalização, relação entre forma e conteúdo] que compromete na formação de leitores competentes e capazes de reescrever sua cidadania” e, no caso, de como ajudá-los a pensar a realidade a partir do lugar que vivem.

O objetivo dos professores neste projeto era de observar o modo como os alunos representam suas relações sociais e como valorizam a sustentabilidade ambiental nesse conjunto. Assim procederam com os objetivos específicos de reconhecer as palmeiras sob o olhar da ecologia local, seu valor econômico, o uso, aspectos da nutrição, o manejo e o processo criativo através das experiências da arte, além de ajudá-los a apreciar o comportamento social e a dinâmica dessas relações. O capítulo “Palmeiras”, do livro “Frutíferas e Plantas úteis na Vida Amazônica”, foi a referência desse estudo.
Conhecimentos dos Professores em Campo
Saberes entrelaçados:

- equilibrar-se em uma ponte longa, ajudados pelos alunos, que sabiam onde e como pisar;

- do senhor do lugar sobre as inúmeras palmeiras a destacar os açaizeiros e tucumanzeiros;

- professora de Geografia retrata a paisagem local;

- professora de Artes ressalta as cores, as texturas das plantas;

- professor de Matemática contribui com as reflexões sobre o manejo e as medidas de distância entre os pés e sobre densidade;

- professora de Língua Portuguesa sugeriu que expressassem e escrevessem sobre suas emoções e conhecimentos.
Saberes dos Estudantes em Campo
Alunos disseram que nunca tiveram aula ao ar livre com todos os professores juntos, apesar de se sentirem muito tímidos no grupo; outros que nunca saíram da terra mais firme, falaram sobre seus medos de atravessar ponte daquele tipo; houve quem dissesse não saber que uma touceira deve ter no mínimo três açaizeiros; alguns destacaram o aproveitamento de “coisas e restos de árvores”; uma aluna disse ter conhecido melhor seus colegas e professores naquele lugar e a sua colega frisou que foi muito bom se unirem à natureza sobre cuidados importantes no plantio, até porque descobriu que as árvores disputam nutrientes, mas, houve quem falasse da ansiedade que antecedeu a aula-passeio. Desta maneira e naquele auditório aberto foram se pronunciando e se desinibindo. Sem interação, há a negação do sentido humano do ato de educar. Quantas aprendências por lá!
Estudantes ensinavam os professores e outros colegas a atravessar a ponte longa...
O processo de ensino, ali naquele lugar sem paredes, pode determinar a correspondência dos objetivos propostos pelos professores e juntos orientar tomadas de consciência e decisão mediante atividades didáticas coordenadas, de forma que libertassem os falantes, seus discursos, a forma de saber ouvir e se relacionar no coletivo por lá composto com o ambiente natural.
Redescobrindo as Palmeiras
Os professores compreenderam que a avaliação não tinha a pretensão de julgar o sucesso ou o fracasso do estudante, mas, perceberam juntos com os alunos que aprenderam mais sobre o significado de "educar pela pesquisa" nas diferentes descobertas possibilitadas. Encontraram ainda a palavra satisfação e o significado do repensar no processo educativo que orienta outras tomadas de decisão. Ou seja, materializou-se no ato de avaliar a própria autoavaliação, componente crítico que supõe ação reconstrutiva.

Transporte Local ao Igarapé
Em sala de aula, os estudantes destas duas turmas do Ensino Fundamental escreveram sobre a aula diferente e deixaram dito que preferem aprender deste jeito integrado.

Ambiente Educativo ao Ar Livre
O que se deseja é desenvolver nos alunos de nossa escola uma alfabetização científica que suscite o desejo de aprender a aprender e possibilite à compreensão de questões científicas, técnicas, sociais e ambientais que estejam relacionadas às suas vidas e comunidades.

Referências
DEMO, P. Educar pela pesquisa. Campinas, SP: Autores Associados, 1997.
SHANLEY, Patricia; SERRA, Murilo; MEDINA, Gabriel. Frutíferas e plantas úteis na vida amazônica. 2 ed. Bogor, ID: CIFOR, 2010.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre o processo de estudar a aprendizagem a partir da matemática na educação infantil


A inquietação de saber o como as crianças aprendem a contar e a fazer contas na escola e como relacionam esses novos conhecimentos com aqueles que adquiridos dia a dia de suas relações culturais com o mundo físico e social, há muito nos incomodava. Constatamos certo distanciamento entre a matemática da escola e a matemática da vida.

A maior curiosidade é de verificar em nosso cotidiano que as crianças tem facilidades para aprender muito mais a matemática da educação infantil e do primeiro ano e encontram mais dificuldades em aprendê-la a partir do quarto ano (terceira série) do Ensino Fundamental.

Onde está o problema e até que ponto as crianças estão de fato aprendendo nas séries iniciais a matemática?

Ao entrar em contato com uma das obras de Kamii, que muito nos ajudou a pensar, provocou-nos o desejo de não só estudar pré-escolares, mas, principalmente, o desejo de contribuir com a prática de educadores dessa modalidade de ensino. Para isso necessitamos aventurar-nos a desconstruir o processo de escolarização, por onde também passamos, com esses docentes.

O Distrito de Mosqueiro (Belém-Pa), um lugar de praia de rio com ondas, foi onde localizamos o belo cenário vislumbrado a partir da escola estadual e de sua turma de 48 alunos, com idades de 5 a 6 anos.
Rios-mares com ondas e as muitas aprendizagens...
Uma pergunta pode demonstrar por vezes a curiosidade que alguém tem para descobrir algo, desvendar mistérios, desmistificar preconceitos. A pulsão do querer saber mais amplia o olhar com diferentes possibilidades de redescobrir as múltiplas relações que a vida cotidiana nos tem facilitado. Precisamos ser pretensiosos e buscar descobri-las.

A matemática ajuda o sujeito a pensar. A Educação Matemática busca traduzir o conhecimento entre saberes, quando aprendemos a exercitar o saber pensar.

A Teoria de Piaget implica tão somente em ensinar a matemática, como qualquer outra disciplina, em um contexto que inclua a habilidade de que a criança pense autônoma e criticamente, e de maneira a reconstruir a lógica. Para ele a autonomia da criança deve se dar em um ambiente aconchegante e provocador que encoraje o pensamento crítico e autônomo, e que indissociavelmente, estimule a autonomia social, moral e intelectual. Aqui acrescentamos a afetividade que libera a autonomia, própria de um ambiente humanizado e cidadão.

As relações humanas são por vezes caóticas, e o caos exige ordem e a necessária auto-organização. A matemática deve também se preocupar com o desenvolvimento humano, na prática de saber viver, criticar e reinventar cotidianos, para que o cidadão saiba fazer, reivindicando no estranhamento a aproximação, na acomodação o enfrentamento, que fazem-no superar, na constante busca da equilibração, desafios com saltos quânticos.

Aos poucos a matemática deixa de representar o papel de “bicho de sete cabeças”, culturalmente temido, e constitui-se como ferramenta que rediscute e desconstrói o número, a geometria, as medidas e as operações relacionadas.

Se a matemática é só para pessoas especiais, como o indivíduo/sujeito, cidadão desacreditado e comum, aprende a construir a própria capacidade de desvendar e recriar dispositivos semióticos, ao saber representar e traduzir necessidades, identificar novos problemas e indagações que se “apresentam” no cotidiano?

Aprender a pensar remete-nos à pergunta do como a escola tem possibilitado ao aluno construir o seu próprio pensamento. O aluno se percebe indivíduo (plural) e sujeito (singular)? Para obter respostas precisamos fazer perguntas para a ciência/matemática da escola.

Que opções estão sendo disponibilizadas?
Que escolhas o sujeito tem conscientemente feito?
Que matemática faz parte do nosso processo de escolarização?
Que discurso incorporamos e consequentemente repassamos?
Que verdades e realidades perpassam na escola?

Acreditamos na iniciação científica de escolares da educação infantil. O espírito científico e o processo propedêutico atendem às intenções de buscar re-ligar o pensamento pela não fragmentação do conhecimento. Consideramos ainda o conceito de alteridade, com respeito às diversidades culturais, à complexidade de relações e à pluralidade de ideias e pensamentos. Reconsideramos a subjetividade quando o sujeito se vê nos processos interacionais. É indivíduo e sujeito.

Tanto na escola como na vida, deve se aprender a ouvir e a sentir o outro, sem inibir a própria fala, para isso é preciso saber ocupar espaços, investindo na autonomia do pensamento, na liberdade de exercitar o poder, o erro e o medo e aceitar desafios.

Também se aprende com a insegurança do caos, a dificuldade de enfrentar críticas, a alegria das descobertas, a dúvida das certezas, a aventura de lançar-se ao desconhecido, a incerteza da negação, a coragem de se dispor ao outro, o querer mais viver e aprender.

Quem é a criança da pré-escola? Quem é o seu professor? Que escola pública forma o contexto da educação brasileira? Que tipo de representações ilustram a nossa Região Norte? Que imaginário social possuem os representantes da Amazônia paraense? Qual a cultura do cidadão que habita a capital paraense? Quem são os ribeirinhos, pescadores, caseiros, comerciantes, artesões, funcionários públicos e desempregados que circulam e sobrevivem na Ilha de Mosqueiro? Que currículo está sendo viabilizado nas escolas públicas desse local? O que e como as crianças aprendem?

Mais perguntas precisam ser feitas para que essas crianças tenham prazer de matematizar a sua realidade na escola, com dados significativos, e não apenas sobrevivam à matemática temida.

Como fazer com que os professores dessas crianças gostem e redescubram a matemática e o prazer de aprender e ensinar? Segundo Freire (1998, p. 25), “ensinar é a melhor forma de aprender”. Por aqui se sinaliza o desejo de se aproximar do educador e ajudá-lo a repensar o significado da matemática em seu dia-a-dia.

Para isso se faz uso das oportunidades epistêmicas vividas na didática dos jogos matemáticos. É uma forma de melhor perceber o potencial do aluno, e a sua capacidade de pensar e de comunicar o pensamento. Esses exercícios efetivamente colocam o aluno diariamente em interação com seus pares e professora. O desenvolvimento da autonomia dá à criança o poder de saber buscar, porque estimula construtivamente a sua ousadia e sua autoconfiança. Sem esquecer da construção da beleza de sua corporeidade também pelo conceito de alteridade.

Os jogos aplicados proporcionaram a aproximação entre experimentadores e alunos possibilitando melhor circulação de conhecimentos, entre eles e os professores da escola pública escolhida, buscando facilitar a interlocução de percepções, problemas, questionamentos, idéias e sabedorias.

Resolvemos mudar o termo experimentador para o de problematizador, para nós vai além do significado de facilitador, porque vimos tanto a necessidade de nos aproximarmos do aluno e da escola, dialogarmos com eles, sermos mediadores do conhecimento que representamos, mas que de repente aprendemos com eles, sujeitos de interlocução. Temos consciência de que podemos redescobrir novos significados porque aprendemos a teorizar a própria prática, que singularmente nos dispomos a conhecer.

Responder perguntas e provocar outras no exercício da filosofia que é o de problematizar o conhecimento, ressignificar e popularizar a ciência, para que ela não estacione e não seja apenas para alguns sujeitos que se consideram privilegiados. Isto porque percebemo-nos capazes de também interrogar e aprender, e de exercitarmos e nos deliciarmos com a pesquisa e a sabedoria de aprender a aprender, advindas da troca interativa que nos propomos. Vale descobrir problemas e socializar os questionamentos que a vida pulsa e proporciona, desafiando-nos à exposição, à demonstração e à busca de soluções, ensaios e motivos para não desistir de viver.

As perguntas sempre abrem novos caminhos, as respostas, inversamente, indicam uma caminhada já percorrida. Que aprendamos em nossa vida cotidiana a sempre fazer perguntas. E que surjam outras mais.


A ciência progride porque tem regras de jogo, que dizem respeito à verificação empírica e lógica (...) a ciência estabelece um comércio particular com a realidade do mundo dos fenômenos, sua verdade, enquanto ciência, não reside em suas teorias, mas nas regras do jogo da verdade e do erro (Morin, 1998).




Referências
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. 9 ed. São Paulo: Paz e Terra 1998.
MORIN, E. Ciência com consciência. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.





terça-feira, 18 de outubro de 2011

Jogos Competitivos ou Cooperativos: uma visão diferenciada de superação

As cinco Unidades Pedagógicas (UP) de nossa escola, situadas nas Ilhas de Cotijuba, Jutuba e Paquetá, repensaram muito a proposta de calendário que inclui e estrutura os jogos internos no programa de cada período letivo, agenda bastante comum na maioria das escolas.


Essa definição conceitual da prática dos jogos foi intensificada e animada ainda mais a partir da pesquisa e orientação educacional sobre o fenômeno bullying na opinião do alunado, iniciada em outubro de 2010. Das UP participaram turmas do CII concluinte, do CIII e CIV, ou seja, do 5o. ao 9o. ano do Ensino Fundamental.


Eis a questão a (des)construir na escola: jogar contra o outro ou com o outro. Atitudes e condutas de companheirismo e de cooperação (sentimento de equipe) ou valorização do individualismo e antagonismo - ganhar ou perder (escolha dos melhores)? Qual modelo predomina no contexto atual? Modelo econômico ou modelo educacional?


Optou-se por reduzir a agressividade focada em muitas das representações do alunado dessas localidades durante a pesquisa, o grupo docente discutiu sobre as possibilidades mais concretas de interação e de aprendizagem em comum, inclusiva e diferenciada. O lúdico é excelente estratégia de aprendizado e ajuda a refletir sobre indisciplina, violência, estruturação social, educação ambiental, valores e bem viver.


A realização desse trabalho pedagógico comum motiva o processo de tomada de consciência através de estratégias metacognitivas no alicerce das aprendências (conhecimento de si e da auto-regulação mediada e cuidadosa e durante co-oper-ações). Assim, a prática cooperativa dá lugar ao encontro, ajuda a eliminar o medo, a ressignificar o erro, porque favorece a superação de desafios conjuntos e o compartilhar de sucesso e alegrias culturais. O sujeito concorre, mas é consigo mesmo e por isso aprende a ultrapassar os próprios limites com a ajuda do outro. Este é o sentimento que dá chance a todos de vivenciar o respeito e a solidariedade.


Fiquei muito feliz com a prática pedagógica da professora Fernanda Pedrosa, que recentemente ganhou o prêmio de EDUCADORA DO ANO, através da Fundação Victor Civita. A práxis retrata bem, salvo singularidades ribeirinhas e interdisciplinares, o espírito de nosso ELEC (Encontro Lúdico Esportivo e Cultural) proposto pelas Unidades Pedagógicas para brincar e aprender com o outro.

A proposta das UP partiu dos professores de Educação Física e envolveu todos os educadores locais, incluindo os funcionários da escola, numa importante e bela ação interdisciplinar.
Desafios Matemáticos, Jogos Interativos, Percepção Ambiental,
Horta do Conhecimento, Curta Criança, Minutos Poéticos...
No próximo post desse tema, novas imagens e representações produzidas durante o movimento pedagógico de estudantes e educadores.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Bullying não: escola é lugar de aprender e sonhar

Até entre alunos parece se consolidar que na prática a teoria é outra, ou seja, por que humanos se parecem tão contraditórios? Pelo menos é o que venho percebendo a dificuldade de admitir a existência de Bullying nos discursos escritos e imagéticos de crianças ou jovens. Talvez por ser o tema tão dolorido, preferem sublimar e falar de afetividades, regras de convivência, orientações ou sugestões ao leitor de seus textos e desenhos. Pouquíssimas crianças desnudam o que testemunham a respeito do tema.


Não que se queiram imputar a existência da violência em crianças e jovens que frequentam as escolas públicas, mas, é o que se percebe quando a estatística e a mídia levantam sobre a realidade de números e fatos cotidianos. E não só em escola pública. A cada dia nos assombramos com a existência de novas práticas que estampam os jornais e telejornais materializando a presença da geração atual agonizando a violência entre si ou aliciada por adultos.


Essa geração vem nos confirmar que a escola é lugar de aprender e por isso lá estão. Motivo para não sofrermos tanto assim. Ou não? O que a escola tem a oferecer de beleza e encantarias? Os sonhos e até os desejos ali nos entregam junto às nossas responsabilidades de ensinar e formar cidadãos de bem. E como trabalhamos a alegria na escola misturando às ciências nossas de cada dia?


O que aprendemos em nossa formação de professores e pedagogos? O que as cartilhas sobre Bullying nos ensinam na prática que se interdisciplinariza com a Vida e o cotidiano, ou seja, também perpassa, se modifica e se enreda nos saberes dos alunos? Regras de convivência, de fazer melhor, de discursar o tema que lhes é tão dolorido, de assistir outras realidades em filmes... De se escancarar o Sistema Febem, os números dos Conselhos Tutelares, dos CRAS, de noticiários sanguinolentos, ou mesmo de ouvir sobre relatos mais próximos... Mas, o que os alunos querem? Silenciar o tema ou apagar da memória, se possível, a realidade desassistida.


Carteiras quebradas, paredes riscadas, banheiros sujos, latas de lixos vazias, chãos sujos, copos ou pratos de merenda largados no recreio, plantas arrancadas ou pisadas, volumes de livros de ocorrências se apinhando e desvelando choros, soluços, ironias, vinganças, faltas, lacunas, abandonos, maus-tratos, fomes, ausências, abusos e silêncios nas salas de técnicos pedagógicos. O encaminhamento diante das mazelas sociais desassistidas é o de repassar aos órgãos disciplinadores competentes as realidades que atrapalham a práxis pedagógica.


- Qual é a função da escola?


Essas crianças e jovens parecem nos dizer que querem aprender. É a esperança da família depositada na escola e decantada a eles. A escola continua promovendo as aprendizagens, e as não-aprendizagens como vem sendo trabalhadas? Qual é o perfil de aluno que aprende e obtém melhor desempenho nas escolas? O de boa família ou o da bolsa-família? E as bolsas de estudos e as premiações, quem promove e quem as recebe? Quem recebe elogios, abraços, chamegos, atenção, palavras de estímulo? Qual é o mérito? Qual a dignidade?


Assim se faz necessário pelo que venho lendo nas produções de diferentes alunos, fazermos revisão de nossa práxis. A visão cartesiana da educação, capitalista ou neoliberal, vê lugar no mundo do trabalho e das boas famílias os melhores alunos e no submundo os alunos que não conseguiram aprender nos “bancos escolares”, porque ali na escola é lugar de alunos de famílias onde se tem afetos, cuidados e valores aprovados, santificados e justificados. Discurso moral, moralizante ou amedrontador consegue promover as não-aprendizagens e evitar a formação de futuros marginais?


Os alunos após palestras, conversas, releituras de filmes e livros de literatura parecem querer dizer do que costumam ou mesmo gostariam de ouvir e ver como válido, mas, há aqueles que se fazem fruir e preencher de versos os encantos que guardam em seus ouvidos e corações, ou mesmo admitem a realidade que lhes confronta ou perturba no cotidiano e nos perguntam como adultos e senhores de conhecimento: o que podem fazer para além das lições ou sermões?

Qual tem sido a resposta das escolas para esses apelos silenciosos, semi-abertos, desviados, negados ou escancarados? A pedagogia de projetos aprende a reler a realidade e propor alternativas. Como se conquista os alunos para que possam atuar em seus protagonismos e não como mero público-alvo, mas, convidados a saber pensar com os adultos e encontrar caminhos para ornamentar de sorrisos a sua vida que se constata em suas múltiplas linguagens o sentido retificado de que na prática a teoria é outra. O projeto não deve ser feito para o aluno, mas, com o aluno para que se respeite a forma como ele pensa e não como ele recebe mastigado o fazer, o executar.


Desafio de escrever na cartilha da escola as experiências recolocadas daqueles que testemunham ou são alvos de seus cotidianos que integram os sistemas governamentais de nossas relações escolares e interdependentes, a partir do percebido nas múltiplas linguagens do alunado.


Buscamos ouvir os alunos em turmas de ensino fundamental I, II e ensino médio a fim de pensar junto a eles os caminhos que precisamos trilhar e propor como projeto as ações que nos ensinam a saber pensar, fazer e aprender com seus protagonismos. Desafios, desconstruções, dificuldades, perspectivas são tantas e necessárias nesse processo.

O que a nossa formação é capaz de aprender a dialogar com seus pensamentos estará fazendo parte desse percurso continuado das aprendizagens, porém, se mistura com a vontade de fazer a partir da forma de saber ouvir os silenciadores que aplacam as dores de falar, insinuar e definir a violência que assola a realidade das escolas brasileiras neste aqui, mas, que nos percebemos a partir de nossa escola e por intermédio de nosso alunado os riscos de dizer e reunir mais conhecimentos que nos fundamentem no alento de realizar e pelo menos descruzar nossos braços. Se o erro para nós é como fonte de virtude então não se pode retroceder. Chega de lavar as mãos. Coragem de nos assumir frágeis no percurso e refletir juntos diante de um erro faz parte de quem quer aprender fazendo. Sabemos que são eles, os alunos, capazes de nos apontar o caminho a pensar e a fazer.


O que a política tem a ver como o nosso projeto pedagógico? Tudo. E por isso chamamos de projeto político pedagógico. As definições que chegamos e vamos complementar precisam se consolidar em ações. Por enquanto a ação de ouvir se configura como levantamento da realidade vivida e percebida em nossas práxis, com o diagnóstico desta fase podemos apontar caminhos a discutir com alunos a melhor forma de percorremos juntos as trilhas de nossa escola.


Questiona-se também sobre o que os políticos sabem e colocam em suas pautas quando dizem nas campanhas ou assistem jornais a respeito da violência nas escolas? Chega de conceber o Bullying, é preciso ressignificar, e principalmente, com urgência, através de medidas e subsídios que nos ajudem a modificar essa realidade que há tempo nos assola, desencontra e causa tanta maresia, como marujos de primeira viagem, paradoxalmente, navegando há mais tempo por mares tão revoltos.


Educadores e escolas não podem ser reféns de um sistema, pois, nele estão reunindo saberes adquiridos no processo curricular da vida, na formação universitária ou continuada, com diálogos entre si e a realidade da escola. O cotidiano dessa escola teoriza saberes que atravessam realidades, conhecimentos e Vidas. E vamos por ali, aqui e acolá nos formando na complexidade desses saberes.


Espero não estar sendo repetitiva, mas persistente, como ainda me falta sistematizar as produções de alunos do ensino médio reavaliando o contexto que ali desnudam junto a outros, estarei em breve reescrevendo o conjunto desse primeiro estágio visto por três ângulos diferentes das linguagens mediadoras, no aguardo também da aplicação de questionário de perguntas objetivas que preserva a identidade do sujeito, marca somente o gênero, a idade e a turma que nos ajuda nas diferentes compreensões ou intervenções no âmbito escolar.


- O que você pode nos contar e ensinar a respeito de realidades, projetos ou sonhos?

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Imagem 3: http://www.treebranding.com/blog/?tag=redes-sociais
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Prenúncios de Setembro: a educação do sentido interdisciplinar

- Esse “Sol de Primavera” prenuncia bons tempos...
Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera abre as janelas do meu peito

a lição sabemos de cor
só nos resta aprender...
(Beto Guedes)


Setembro anuncia a primavera, muito percebida no sul do país, de ares amenos, do sol na medida, dos perfumes das flores exalando jardins, quintais ou vasos. Mês das ninfas. Primavera lembra ninfa, que protege a planta, o animal, a pessoa ou o lugar. Na mitologia, eram elas divindades dos rios, bosques, florestas, campos. Ninfa é noiva, promessa de fertilidade, traz em si os frutos da nova geração, nas comunidades primitivas as meninas na menarca dançavam, a dança da beleza, do encanto...

Flores promessas dos frutos. A beleza que encanta e faz dançar. Setembro é o mês destes símbolos, mês da fertilidade, mês da beleza, mês da iniciação, das danças referentes, da Vida!

Mês de encanto que religa terra, ar, fogo, água... Esperanças, conhecimentos, poesias, criação, inovação, ou como Gusdorf (1995) nos inspira, porque supõe “abertura de pensamento, curiosidade que se busca além de si mesmo” e nos leva ao outro, nos integra à vida, pela concepção de interdependência.

Se setembro é vida, é interdisciplinar: ciência e cultura, sociedade e história - mitologia, literatura, música, poesia, danças, corpo relacional, astronomia, leitura de estrelas, comportamento e movimento planetário, hemisférios, ângulos, sazonalidade, agricultura, economia, política, matemáticas da vida. Para Gusdorf (1995, p.26), "a exigência interdisciplinar impõe a cada especialista que transcenda sua própria especialidade, tomando consciência de seus próprios limites para colher as contribuições das outras disciplinas". A colheita das aprendizagens interligadas. Recontos, releituras, questionamentos, desconstruções, criatividade, novos significados, é preciso reordenar o conhecimento, definido por Gusdorf (1995) de “campo unitário da cultura”. Tais saberes plurais se singularizam, com mais sabor, cor e estilo, com o envolvimento dos alunos, com a alegria deles, com o protagonismo autêntico da pedagogia de projetos pensada com eles.

- Mês de reencantar a educação, por que não?
Referência
GUSDORF, Georges. Professores para quê? para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
Imagem 1: http://fotos.sapo.pt/zZ27el2OkZzH5CqeQTZj
Imagem 2: http://umdiaumaestrela.files.wordpress.com/2007/12/virgogoddess.jpg

domingo, 15 de agosto de 2010

Quando o corpo fala: a interdisciplinaridade em jogo de emoções

Da conversa entre a professora de educação física e o professor agrônomo, apaixonados pela vida e cinéfilos de carteirinha, durante uma carona para a escola, surgiu a idéia de criar e ofertar alternativas diferentes na semana de “jogos educativos” - da escola que atuamos. Os jogos foram realizados em duas semanas distintas: uma para o alunado da educação infantil ao primeiro segmento do ensino fundamental. E na outra semana, exclusiva para o alunado do segundo segmento ao ensino médio, incluindo a EJA.

E daí você pode nos perguntar o que a proposta tem a ver com a educação física? Assim como a da postagem anterior? Quem sabe ao final possa também redefinir os sentidos da prosa e os significados recolocados. As aprendências nascem nessas trocas de percepções...

Dentre os objetivos desejados pela professora, redefino a pluralidade e a bricolagem de sonhos, projeções e ação, com a apresentada em seu relatório: “ressignificar as atividades físicas e promover novas leituras de mundo através dos meios tecnológicos como o cinema, dvd, computadores e os rituais do próprio corpo e suas emoções”.

- Como foi desenvolvido o programa para o alunado da segunda semana?

- Em cinco sessões, uma a cada dia, ocupando somente um período diurno, e com a duração de 3 horas. Cada sessão em 3 etapas: a) vivências corporais - jogos expressivos, por 30 minutos; b) sessão de filmes com duração de 90 minutos; c) responder a um questionário intitulado “jogo da emoção”.

Olha a programação dos filmes escolhida pela dupla vibrante, cuja resenha aqui transcrevo, com pouquíssimas interferências:

1º dia: O Cortejo – Cirque Du Soleil: o corpo em perfomance.

A técnica, o domínio, o treinamento e a disciplina com arte. O fascínio do novo circo ecologicamente sem animais.

2º dia: Hair

Musical, produzido em 1979, retrata as profundas mudanças sociais, o movimento hippie, a guerra do Vietnam, rebeldia e ideais dos jovens dos anos 60 e 70. Proibido no Brasil, só foi liberado nos anos 80. Duas canções tornaram-se ícones culturais, como “Let the Sunshine In” e, principalmente, “Aquarius”. A cena de um dos jovens em jeans, camiseta e tênis imundo, dançando em cima da mesa de um importante jantar também se tornou ícone no mundo todo. A rebeldia e a transgressão dos jovens da época, no Brasil foi retomada numa propaganda de tênis esportivos e fez grande sucesso nos anos 90/2000.

3º dia: Flash Dance

Outro musical, este de 1983. Traz o problema da moça pobre, dos subúrbios, que de dia trabalha como soldadora numa construtora e de noite dança num cabaré esperando a oportunidade de um teste que possibilite abraçar a carreira da dança erudita de forma séria e respeitada. As poucas oportunidades dos jovens pobres das periferias, os sonhos, a discriminação das carreiras artísticas e a importância da determinação e persistência para mudar de vida. O tema principal “Flash dance” também se tornou uma das canções mais conhecidas e dançadas do mundo.

4º dia: West Side Story

Terceiro musical (1961). Traz a intolerância racial entre os jovens dos países ricos e dos países pobres. Jovens dos guetos americanos contra os jovens imigrantes porto-riquenhos. A violência das gangues de rua. Considerada uma releitura “moderna” de Romeu e Julieta, de Shakespeare. No Brasil, recebeu o nome de “Amor sublime amor” e a trilha musical principal também eternizada dentre as canções de amor mais conhecidas no mundo.

5º dia: Bad (Michael Jackson).

Clip de 1987. Apresentado na íntegra. A inspiração poética na abordagem da mudança de comportamento do jovem do subúrbio que concluindo o ensino médio e valorizando a escola, volta para o gueto onde mora e se depara com os amigos ainda com comportamento marginal. Discriminado e desafiado adota uma postura falsa de criminalidade e desmascara os amigos. Luta entre o bem e o mal, as escolhas dos jovens, a auto-afirmação. Seu sucesso e sua obra são considerados de grande valor por promoverem a integração racial. Sua música e dança influenciaram muitos artistas do soul, jazz, hip-hop e música popular no mundo todo.

A terceira parte, a escrita, como proposta de aproximação semiótica e discursiva, para a assistência interlocutora expressar o vivenciado ali, teve como título o “Jogo da Emoção – Quando o corpo fala...”, organizado em duas colunas, com frases incompletas a insinuar complementação, espaço aberto de dizeres - olhares, silêncios, escritas: “EU SENTI...”, e na segunda coluna: “E PRECISO FALAR SOBRE...”. Abaixo, vinha escrito: Classificação/Importância, incentivando opiniões.

Temas relacionados com a escola, a vida e os problemas que hoje enfrentamos. Após a escrita, houve reflexões em conversas informais, para falar, ouvir ou debater impressões, expressões, percepções...

A intenção era criar outro espaço para vivenciar a experiência de educação para o sensível, para a paz - como proposta interdisciplinar relacionada aos jogos internos. Outra opção pensada para alunos que não participam dos jogos. Alguns docentes também se fizeram presentes nas programações ofertadas.

Na avaliação do público presente, o evento deve se repetir.

- O que o cinema tem a ver com a educação física e nas semanas de jogos escolares?


Imagem 1: http://terrydoesart.blogspot.com/2009/06/3-piece-jazz-10x12-acrylic-on-stretched.html
Imagem 2: http://www.nytimwa.com/2006/09/29/arts/design/29pica.html?_r=1
Imagem 3: http://portuguesbrasileiro.istockphoto.com/stock-illustration-1511367-free-flow-jazz.php

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A práxis de educação física nas trilhas da escola: água na boca

"Só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca". (Baticum, Chico Buarque)

Naquele lugar tem tudo de bom e do melhor. Gente, bicho, planta, alunado e professor apaixonado.

Dentre os relatórios pedagógicos da escola, referente ao primeiro semestre, o que mais me encanta é ver a contemplação e ouvir a voz das crianças, no discurso escrito de professores, narrativas que nos entorpecem de beleza e encantaria seguindo pistas de suas aprendências, falas, clamores, desejos, reticências, re-olhares, atitudes e perspectivas.

O que nos alegra é o contato das crianças com o meio, percebendo-se nele e interagindo com o adulto que lhe transmite segurança, alegria e vontade de dizer:

“Nosso peixinho dourado” – para a carpinha que vive no laguinho. O lago da escola tem formato de borboleta. Por ali sobrevoam “borboletas azuis”. E outros dizeres mais: “os peixinhos de bigode”, “o peso corporal deles e o peso das tartarugas”, “os besourinhos alaranjados que nasciam e cresciam na parte baixa dos troncos das árvores, ao lado da sala de Educação Física, e um dia foram embora”...

Cantos. Dias e momentos necessários de conversar com os animais, acalmar-se, assim os pássaros no silêncio ouvido e o rompimento para imitar o cantar dos tucanos... (Você já ouviu um tucano cantando?)

- “Professora eles tão com fome?”, “acho que é um filhote que tá perdido...”, “a mãe dele vai dar comida para ele?". E para o gavião visitante imponente no alto da árvore: “acho que ele gosta da gente, né professora?”.

Beleza. Caminhando pelas trilhas da escola: ”você fica linda professora”, assim enfeitaram-na com flores encontradas, logo colocadas entre as mechas de seus cabelos. Ou buquês de flores catadas em um copo a enfeitar a sala de Educação Física.

Medo e surpresa. Incontáveis cascas das trocas dos corpos das cigarras que a curiosidade os fazia pensar que estavam mortas e então se surpreendiam com a transformação. No meio da brincadeira, para meter medo, iam pendurando na roupa da professora pelo meio do caminho... E o corpo dela andava feliz com as idéias deles.

Comércio. A árvore com frutinhos vermelhos mesclados de preto e branco, caídos no campinho, fez surgir muitas perguntas, por ser muito bonito e diferente. Era da família do guaraná. Adoraram saber que a "priminha do refrigerante" lá estava, catavam e usavam na brincadeira da “confeitaria” (“docinhos” com terra). A professora visitava e comprava os docinhos. Os preços variavam: um real, dez reais. (Dez reais por um docinho?).

Representação. O “teatro da floresta” a partir das lendas, no campinho no meio do bosque. Ali transformam idéias em ações com os recursos disponíveis: troncos, folhas, flores, gravetos. Delimitam o espaço da cena, ornamentam o ambiente, criam vestuários para personagens imaginários. E assim vão organizando no tempo das ações expressivas. E as vivências ganham novos sentidos. A professora ajuda refletindo sobre como o texto narrado indica, pede, determina a ação e o sentimento que ela trás. Roteirização a deslanchar improvisos corporais e sonoros.

Jogos esportivos. Com eles, o entendimento do ganhar e perder, aceitação das diversidades de talentos que vem à tona, o reconhecimento e superação dos próprios limites, a firme convicção nos valores da cooperação e da ética para obter sucesso. As mídias. O marketing esportivo. A sexualidade. O consumismo. Conversas e reflexões. Perguntas feitas pelos alunos e respostas muitas vezes dadas por eles mesmos. Reprimendas sobre ofensas pessoais e linguajar obsceno. Respeito pelos pais e pela escola. E a proposta dos jogos internos da escola. Vínculos necessários com os professores regentes. Ações integradas repensadas, desejadas, necessárias.

Nessa práxis, educação física e educação ambiental estão vinculadas, tem tudo a ver. Ali em todo o movimento pulsa a interdisciplinaridade. O currículo é vivo! As crianças se sentem libertadas. Felizes alegram mais. Outras estão aprendendo a lidar com os afetos e suas emoções como que surpresas, sobre maneira que amar é preciso!


Imagens da Escola: arquivo pessoal

domingo, 20 de dezembro de 2009

Revanche de edublogueiros nas trilhas da escrita e recursos imagéticos: assim mostram a nossa cara


Partilhar uma mesa com outras e diferentes pessoas tem algo de sagrado. Assim aprendi a ver aquela imagem de Jesus na ceia. Assim entendo as famílias que buscam trazer o sagrado alimento que sustenta a Vida que corre nas veias de todos da casa e de outros mais que a ela se achegam.

Partilhei a mesa, em uma solenidade de entrega dos prêmios para educadores e escolas vencedores do II Educablog Paraense, com outras pessoas que significaram muito para que esse momento acontecesse e sinalizasse um novo tempo na educação pública do Pará.

Lá estive representando a comissão avaliadora do certame, porém, muito mais como apreciadora do processo interativo de professores com a máquina, de professores com seus pares e alunos parceiros que aprendem a lidar com o conhecimento tecnológico e através dele aprimorar competências, habilidades, intensificando ainda mais os protagonismos pedagógicos necessários e em um tempo que exige re-olhar as nossas relações de interdependência com o mundo e suas voltas, a clamar por mais humanismo e ética.

Coube a mim, e a outros dois colegas, a avaliar professores blogueiros. Estilos diferenciados.

O projeto mexe com a educação e o pensamento reflexivo de seus educadores que apresentam a práxis desenvolvida na escola e em todos seus ambientes pedagógicos, incluindo cotidianidades, sentimentos e percepções acerca da vida e sua dinâmica curricular.

Nos blogs a face discursiva expõe suas interfaces representativas de um ou mais grupos, por pilhagem, recortes ou reinvenção, de gerações e localidades, realidades e invisibilidades desfilam e suas subjetividades criativas, prazerosas, significativas e até divertidas permitem, remarcam, questionam e aproximam a relação teoria e prática. A nova face imagética e discursiva repagina e articula os conhecimentos escolarizados. É a tão decantada interdisciplinaridade acontecendo.

Os professores assumem a função de orientar projetos de alunos mediando saberes e conteúdos, latentes e manifestos, que reintegram componentes do cotidiano, observando realidades, texturas, vozes, gestos, luzes, cores, vestimentas, topografias, utopias e recônditos digitais emergem, talentos surpreendentes. É o novo. Os desafios da geração. O melhor são os possíveis advindos da multiplicidade do diálogo, reconhecendo o colega de sala, da sala ao lado, de turnos diferentes, estranhos que se permitem conversar, os comentários exaltam as interfaces dialógicas. Novas aprendizagens com o diferente. Basta ser instigante ou simplesmente saber cativar o outro. As postagens chamam discursos e outros horizontes se descortinam. O conteúdo se desdobra. A vida perpassa a ciência e a cultura.

O mundo pode ser fascinante e dar chances às vocações, às perspectivas, às esperanças, às mudanças. O devir não é indesejado, pois, "o que foi antes já não é, o que não tinha sido é, e a todo instante é uma coisa nova" (Chauí apud Ovídio, 2003). A boa nova, destes novos tempos, é que a alegria é possível. A paz também. Talentos motivam talentos. O fracasso escolar pode ser revisto. As defasagens idade-escolaridade podem ser superadas.

Imagens focam o cotidiano e eventos de aprendizagens promovem seus protagonistas. Reorganiza-se a imagem da escola, a comunidade participa e no trânsito interativo dessa tela - vitrine global - os blogs se destacam.

Desta maneira o novo tempo se descortina, professores escrevem, questionam, ilustram, desconstróem, e também a si, reorganizam espaços e o tempo, argumentam, integram ações, enfrentam realidades e os desafios atuais.

O blog proclama e renova sonhos de um mundo melhor e possível a todos. É o que subjaz nas escritas de cada edublogueiro que tive a oportunidade de avaliar. E aprender. As autorias ganham espaços e deixam aos poucos os velhos tempos do control c - control v. Precisamos legitimar nossos pensamentos nos discursos escritos de que fomos historicamente privados. Essa é a chance, a oportunidade, a revanche de brasileiros edublogueiros.


Referências: CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática, 2003. (p.31)
Foto 1: meu arquivo pessoal

Foto 2: Rai Pontes/Ascom/Seduc, disponível em: http://www.seduc.pa.gov.br/portal/index.php?action=Destaque.show&iddestaque=565&idareainteresse=1

sábado, 21 de novembro de 2009

Escritores da Liberdade


Para alunos desmotivados e professores ansiosos

Em reunião ocorrida nesta semana com professores referências das turmas do segundo segmento do ensino fundamental e coordenação, discutimos sobre o caso de bebidas alcoólicas entre alunos de uma turma de 8º. ano/7ª. série, que é a mais velha na modalidade, cuja média etária é de 14 a 16 anos de idade. Muitos foram retidos por falta no ano anterior e apresentam poucas presenças neste. A desmotivação, a dificuldade na socialização entre eles, e a questão da leitura e escrita foram apontados como seus principais problemas.


A queixa predominou e a sentença foi a de rever ou transferir responsabilidades para outros órgãos ou a instituição família. E daí refletimos sobre qual é a proposta pedagógica necessária, e se havia alguma sugestão. Os alunos vão continuar na turma até o final do ano. Deste modo, é preciso pensar sobre o que provoca a desmotivação. O contexto social problemático pela violência (a)cometida, a falta de perspectivas, carências, baixa-estima etc. Por quê?


Duas passagens de Arendt (2001) nos sacodem mais um pouco e nos levam a re-olhar a realidade, pois, inicialmente para ela, há duas causas que podem ter relação profunda com a crise da educação atual: a incapacidade de a escola levar os alunos para pensar e a perda da autoridade de pais e professores.
O novo alerta é sobre a questão desconstrutiva do (in)sucesso escolar: “a educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para expulsá-las a seus próprios recursos, [ou transferir a outrem] e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”.
Precisamos manter acesa a chama das esperanças alimentando novas perspectivas.
O caso parecia se redesenhar lembrei-me do filme “Escritores da Liberdade”, pois, nada li de concreto nessa direção na “memória da reunião” que me foi repassada.
Final de ano e alunos novamente retidos e outros com promoção automática no ciclo quatro, e no próximo ano, se voltarem, como estarão? No filme, a professora sozinha se depara com alunos turbulentos, a falta de recursos e de cooperação da direção da escola.

Cada aluno escreve um diário sobre seus conflitos internos e entrega se quiser à professora e a interface com “O diário de Anne Frank”, daí decorre a tolerância entre eles, aos poucos se aproximam pelos problemas comuns. O legal é que eles produziram um livro que relata a série de dificuldades sofrida na questão racial e a necessidade de se implantar novas realidades sociais.

Penso que a discussão do filme irá acender na equipe docente da turma várias luzinhas no fim do túnel, e provocar a integração entre professores e entre eles e os alunos numa ação interdisciplinar possível e necessária para que a sala de aula faça a diferença na vida dos alunos. Erin Gruwell, a recém advogada que quis ser professora, ou carinhosamente para os alunos, a Miss G, enfrenta problemas íntimos, mas, não se deixa abater, inclusive no próprio ambiente de trabalho.
Veja um trecho do filme, logo abaixo, para re-pensar o desafio da educação que vimos enfrentando:


Fiquei bastante animada para começar a próxima semana. Durante conversa sobre o projeto pedagógico com a professora referência dessa turma, sugeri eventos comuns entre professores da turma para ajudá-los a pensar na situação vivida e percebida. Músicas, filmes, leituras etc. Encontrei esse filme em uma das prateleiras da locadora, espero que ela também tenha obtido sucesso na escolha do gênero.

Se você sabe de algum outro que trate dessa temática por gentileza estamos precisando dessa ajudinha. Se passou por uma experiência semelhante aqui estamos nós para ouvi-la.
Uma pergunta não quer calar:
- Por que "Miss G" fez a opção pela profissão "professora"?

Referência: ARENDT, Hanna. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.