quinta-feira, 10 de março de 2011

Imaginação material e poética visual na escola: o colorido multimodal da leitura

Para ilustrar a ideia de metalinguagem poética, trago aqui duas passagens do texto “Um tigre de papel”, de Marina Colasanti, capaz de provocar construções multimodais e movimentar as competências leitoras dos alunos...

"Sabendo que a ele caberia determinar seus movimentos e controlar sua fome, o escritor começou lentamente a materializar o tigre. Não se preocupou com descrições de pêlo ou patas. Preferiu introduzir a fera pelo cheiro. E o texto impregnou-se do bafo carnívoro, que parecia exalar por entre as linhas.
(...)
Em vez de escrever um salto, o escritor transmitiu a sensação de movimento com uma frase curta. Em vez de imitar o terrível miado, fez tilintar os cristais acompanhando suas passadas. Assim, escolhendo o autor as palavras com o mesmo sedoso cuidado com que sua personagem pisava nos tapetes persas, criava-se a realidade antes inexistente".

Da Vinci (1510-1513)
Retrata a gestação de bebê dentro do útero
 É hoje como ícone de integração entre ciência e arte
Outro texto interessante vem das palavras musicadas de Toquinho:
Era uma casa muito engraçada não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão, ninguém podia dormir na rede porque na casa não tinha parede, ninguém podia fazer pipi, porque pinico não tinha ali, mas ela é feita com muito esmero”. (não parece a descrição do útero gestante?)

A música faz rir crianças ou adultos, enfeitiça, inquieta, descontrói, a mediação ajuda mais a pensar. O conteúdo é do universo da pessoa desde pequenina...


Boas associações, trocas e diálogos podem surgir.

A casa é o símbolo de todas as peles que nos envolvem, o corpo materno, o seio, os cheiros, os sons, os toques, outros corpos do lar, a família, o céu em volta, as luzes e os ecos do universo. É a palavra mundo mais carregada de ressonância afetiva. Nela as fragrâncias e alquimias ganham sentido. Fogos e águas. Luzes e penumbras assustadoras. Portas secretas. Silêncios. Arquétipos que se incorporam nas formas como as crianças se expressam e fazem sua interpretação nas formas de interação com o meio através dos outros que a compõem.

O primeiro esboço que Darwin fez da sua "árvore da vida"
O texto pode servir como pretexto para diferentes produções. A multimodalidade compreende as diferentes formas de configuração dos significados. A linguagem é mais trabalhada em seus aspectos plurais, dá mais dinamicidade na produção e ajuda a circular mais a idéia e a promover mais a criatividade e a imaginação. Podemos combinar diferentes recursos, tecnologias, simplificar o discurso e facilitar a comunicação e a pesquisa, a elaboração de diferentes projetos pedagógicos com os alunos, entre os próprios alunos. Ajuda na autonomia intelectual. Toma-se a curiosidade como desafio epistemológico.


A troca de papéis é algo natural entre docente e discente. Pois quem ensina aprende e quem aprende ensina ao aprender ressignificando as aprendências. Somos ensinantes e aprendentes.

Mudança na tecnologia, consequentemente, mudança nas atividades linguísticas. O conhecimento cotidiano torna-se multicultural, com colorido multilinguístico e multimodal. Novas autoridades emergem nesse contexto. As fontes mudaram. A televisão soberana há tempos perde mais o seu espaço para diferentes alternativas tecnológicas. Ou deve se modernizar. Ser mais interativa. O diálogo em casa ou na escola talvez ainda faça falta.

As sensações, as emoções, os sentimentos se misturam à fala, à postura, à atitude, à dinâmica, ao letramento, às imagens, aos números, às formas geométricas, aos mapas, aos gráficos, às palavras, aos signos e colaboram com o processo criativo, as construções multimodais e em diversos meios sociais.

Jean Foucambert (1994) me ensinou a entender melhor a leitura de mundo quando afirma que “aprender a ler não é receber um saber existente, mas, sim, transformar a situação que faz com que não se saiba ler”. É preciso reinventar, argumentar, desconstruir, caso contrário, a informação logo será deletada. Servirá apenas ao fim destinado.

O mundo encurta. O tempo se dilui. Estamos bombardeados de informações.
- Por que queremos estar informados?

O que reinventamos revela a forma como pensamos a vida.
- Como forma de sobreviver, fazemos constantes interfaces entre passado e futuro no agora.
- No aspecto do transcender, revisitamos o passado para incursionar no futuro.
Modos de sobrevivência e criatividade visam à transcendência. Assim é a permanente necessidade pela busca, pela pergunta que nos leva a resolver problemas.


Educar para a cidadania.
Educar para a felicidade.
Educar para a compreensão.
[Requer uma nova visão sobre a inteligência]

Qual o sentido do aprender para o aluno? E Foucambert de novo me fala que “ninguém torna-se leitor sem querer”. Os saberes não nos alinham à transformação, com eles gestamos a realidade tal como ela é. Só a pergunta nos leva para frente.

Na qualidade de professores de todas as idades que consciência temos do que transmitimos? O que são as informações? Para que serve dar a conhecer? A leitura combina com bons argumentos. Consciência se adquire no espaço da produção do aluno. Quais são os tempos e os espaços de criação da escola?

Há importantes bloqueadores da criatividade, que Goleman (1998) chama de “assassinos da criatividade”, perceptivos, emocionais, culturais e ambientais, intelectuais e de expressão, na escola e fora dela. O pior deles é o tempo. Não saber usar o próprio tempo disponível em uma tarefa. Alguns de nós sofremos com o “vício de novidade”, fascínio pelo novo, pela informação...

Acumulamos informações sem uso. Depósitos ambulantes. Antes vivíamos copiando, reproduzindo. Hoje abarrotamos memórias. Deletamos informações sem gestar ideias ou construir projetos. O mundo do descartável parece anuviar nossa visão de mundo, de sujeito, de cultura e de currículo de vida. Não é também uma forma alienante de viver como dantes?

Vamos re-olhar os determinantes assassinos de nosso poder criador:
- a vigilância: a observação constante inibe autonomia, ou seja, é também sinônimo de invasão da privacidade;
- avaliação importante: não como fonte de castigo, capaz de dar prazer e satisfação, reorientar;
- recompensas: uso excessivo de prêmios;
- competição: uma não progressão pessoal, vencer ou perder;
- controle excessivo: dizer o que deve ser feito;
- restrição de escolhas: limitar atividades, inibir iniciativas e inclinações;
- pressão enquanto desrespeito à motivação.

Comparamos agora com as quatro ferramentas da criatividade apontadas por Goleman (1998):
- fé na própria criatividade: intuição, palpite ou percepção súbita; vontade, força e materialização; alegria, deleitar-se com a atividade; coragem, romper com a barreira do medo e da crítica; compaixão, colaborar e realizar esforços
- ausência de julgamento: silenciar a autocrítica, esboçar ideias, rabiscar, combinar, brincar, dançar, sorrir, retornar, retextualizar, avançar...
- observação acurada: contemplar o mundo com a admiração de uma criança; ter a precisão de um cientista; considerar todas as coisas à volta com uma consciência juvenil
- perguntas argutas: capacidade e vontade de fazer perguntas, mesmo que sejam consideradas imbecis.

O exercício da criatividade convoca a imaginação e juntas se tornam componentes dos projetos pedagógicos. Podemos dizer que criatividade e imaginação precisam estar como elementos de organização do trabalho pedagógico e de construção desse tempo e espaço das aulas.

Segundo Alencar (2001), a “criatividade é um recurso humano natural que necessita ser mais cultivado neste momento da história, onde as mudanças aceleram, levando a incerteza a fazer parte inevitável de nossas vidas. Ela se constitui em uma habilidade de sobrevivência para as próximas décadas”.

Sob olhar polifônico de Bachelard, a imaginação é vista como a essência do espírito humano, originária. Ela dá dinamismo às atividades do homem, atividade intelectual e atividade onírica, colocando-o como pensador, como sonhador.

Assim uma pergunta mais nos vem: como trabalhamos a imaginação do alunado? Ouvindo saberes e encaminhando questionamentos, ações, imagens, relações aprendentes. Precisamos pensar em como as imagens representam o imaginário, como a fala do professor se conduz entre silêncios e respirações, nos agitos e outras respirações e nos silêncios intermitentes do diálogo. Tempo de aprender. Tempo reflexivo. Tempo criativo.

Precisamos parar e pensar na forma que concebemos a imagem em nossa práxis, podemos reconhecer outras e novas possibilidades: reprodutora (percepção e memória), evocadora (imagens afetivas), irrealizadora (tons mágicos, em sonhos, devaneios ou brinquedos), fabulosa (mitos, lendas, crenças, fanáticas) ou criadora (releitura das artes, nas ciências, nas técnicas e na filosofia).

A imaginação orienta o fazer. É o conteúdo humano. É material disponível. Assim precisamos melhor revisitar as interações que movimentam os ambientes pedagógicos das salas de aulas até o portão que se abre para o mundo e se deixa atravessar por ele.

Quais argumentos arrumamos a partir de nossos questionamentos de forma a reconstruir saberes e modelar ideias? E como a "criança" faz isso? Possibilitamos o desenvolvimento de sua consciência com prazer, ou seja, a sua corporeidade relacional? Um saber que ganha corpo, movimento e identidade.

Paulo Freire (1996) nos adverte a provocar o refinamento da curiosidade do aluno motivando a reconstruir a inteligência do objeto ou do conteúdo de que se fala para que se estabeleça a comunicação no sentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de inteligir e comunicar o inteligido. Como estratégia didática e relação mais humana, ao escutar o aluno aprendemos a falar com ele. Não basta o aluno realizar a atividade é preciso exercer interlocução e se perceber epistemologicamente curioso no processo.

Porém, "esta curiosidade permanente não deve ser estimulada apenas a nível individual, mas a nível de grupo. O que vale dizer: o convite à assunção da curiosidade na busca da leitura do real, do concreto, deve ser um convite não apenas ao menininho A, ao menininho B, mas ao grupo de estudantes, de crianças". (Freire, 1996, p. 94)

Referências
ALENCAR, Eunice Soriano de. Criatividade e educação de superdotados. Petrópolis: Vozes, 2001.
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
___. A terra e os devaneios da vontade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
___. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
COLASANTI, Marina. Um tigre de papel. In: Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: 1986. (p. 207-208).
FOUCAMBERT, Jean. A criança, o professor e a leitura. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GOLEMAN, Daniel; KAUFMAN, Paul; RAY, Michael. O espírito criativo. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. Cultrix: São Paulo, 1999.



quarta-feira, 9 de março de 2011

A doce mulher selvagem: a loba em nós

Ontem foi o dia internacional das mulheres.

Estranho falar de algo assim tardio? Coisas de vida e nada proscratinada. É o tempo que se e nos refaz diariamente.

"Em momentos de grandes metamorfoses e transformações toda grande mulher deve ler esse livro. Ele recruta o que há de mais forte e selvagem em todas nós". Desta feita recebi o livro de presente, com esse recado carinhoso de Ceiça Almeida (UFRN), em junho de 2001, há quase dez anos atrás.


Uma das mulheres mais incríveis que já conheci. E este livro tem a ver conosco. Com todas as mulheres. Apaixonei-me por ela também. Amiga de Morin. Apresentou-me a ele. Editamos livros da complexidade juntas quando eu estava como editora da Universidade do Estado do Pará (Eduepa), de 2000 a 2004. Prigogine gostou de sua obra editada e nos indicou outra, através de Morin e Ceiça, e que busquei junto à Unesp a melhor forma de editar no Brasil, assim saiu a coleção de livros “Nomes de Deuses” (Noms de Dieux) – e de bolso! Presentes significativos. Inesquecíveis como poucos.

Recomendo a leitura do livro “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkolas Estés (Ed. Rocco). É a releitura da mulher guerreira, ou da compreensão da natureza da mulher selvagem. Assusta por vezes alguém desprevenido. Talvez não. A mulher é doce e selvagem. Lua e Sol. Sol e Lua. Por ali lendas e histórias antigas reapresentam a fortaleza da mulher, nos recolocam como uma loba. Liberta os conflitos da mulher moderna. Rueira. Rural. Caseira. Profissional. Artesanal e digital. Reescrita e reeditada. Até atingir a libertação. Conflitos internos e externos ressignificados. Emancipada. Amorosa. Fera. Feliz.

De início, La loba incorpora-se em uma mulher que se esconde, mora num lugar oculto, todos sabem onde está. Poucos viram. Lá ela fica à espera de alguém perdido ou que procura algo. Muito estranha. Evita pessoas e fala língua estranhas. Mais próxima dos animais. Sua lenda afirma que acolhia ossos de todos viventes por ali e naquele acolá, guardava-os. Admirava mais os lobos. Quando montava os quebra-cabeças, de ossinho em ossinho, fazia a fogueira, ofertava ao mundo, cantava uma canção. Renascia. Incorporava. O lobo voltava viver na loba. Força e vitalidade. Tudo ligado. Corria. Enfrentava obstáculos. Saltava desfiladeiros e se tornava uma linda mulher e a cada cerimônia mais bela. Visceral. Assim Ceiça me percebeu. Assim amamos as mulheres. Todas em nós. A idade da loba. Auto-análise. Rejuvenesce!

Lenda. Verdades. O livro é para homens e mulheres. Faz-nos bem! Fortalece-nos na caminhada. Vamos juntando os ossinhos, peçinha a peçinha, pozinho a pozinho. Cálcio faz bem! Glucosamina e Condroitina também. Ainda mais agora que estou com poliartrose erosiva. Ossos perdidos no deserto! Cantemos em volta da fogueira. Celebramos a vida!

Todo processo exige zelo e trabalho. É a força da vida. Quem canta seus males espanta. É o sopro da vida. Destaco quatro passagens do livro de Estés:

"Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior. Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem, a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça, essa instrutora, mãe e mentora selvagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior”. (p. 21)

E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto - ela é a base. Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para a nossa vida". (p.27)


"Portanto, o termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis. Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver". (p.21)

Em termos arquetípicos, a natureza da vida-morte-vida é um componente básico da natureza instintiva. (...) a mulher que chora junto ao rio, desde o anjo sombrio que afaga os seres humanos com a ponta de uma asa, fazendo com que caiam em êxtase, até o fogo-fátuo que aparece quando uma morte é iminente, as histórias estão repletas de remanescentes de antigas encarnações da deusa da vida-morte-vida.

Grande parte do nosso conhecimento da natureza da vida-morte-vida é contaminada pelo nosso medo da morte. Portanto, nossa capacidade para acompanhar os ciclos da natureza da vida-morte-vida é muito frágil. Essas forças não "fazem" nada a nós. Elas não são ladrões que nos roubam aquilo que prezamos. Essa natureza não é um motorista irresponsável que destrói o que valorizamos e foge em alta velocidade.

Não, não, as forças da vida-morte-vida fazem parte da nossa própria natureza, como uma autoridade interna que sabe os passos, que conhece a dança da vida e da morte. Ela é composta pelas partes de nós mesmas que sabem quando algo pode e deve nascer e quando ele deve morrer. Trata-se de um mestre profundo, se ao menos aprendermos seu ritmo. Rosário Castellanos, poeta e mística mexicana, escreve acerca da entrega às forças que governam a vida e a morte: ... dadme la muerte que me falta... [dá-me a morte que preciso].

Os poetas compreendem que não há nada de valor sem a morte. Sem a morte, não há lições; sem a morte não há o fundo escuro contra o qual o diamante cintila. Enquanto aqueles que são iniciados não tem medo da Morte, a cultura muitas vezes nos incita a jogar a Mulher-esqueleto pelo penhasco abaixo, não só por ela ser apavorante, mas também porque demora muito para que aprendamos a lidar com ela. Um mundo desalmado estimula cada vez maior rapidez na procura desenfreada daquele único filamento que parece ser aquele que arderá imediatamente e para sempre. No entanto, o milagre que estamos procurando leva tempo: tempo para encontrá-lo, tempo para trazê-lo à vida.

A busca moderna pela máquina do movimento perpétuo equivale à busca de uma máquina de amor perpétuo. Não surpreende que as pessoas que tentam amar fiquem confusas e atormentadas e que, como na história dos sapatinhos vermelhos de Hans Christian Andersen, dancem loucamente, incapazes de parar com a agitação frenética, e passem rodopiando direto pelas coisas que, no fundo do coração, elas mais prezam”. (p.173-174)

MULHER...

... “é a força da vida-morte-vida; é a incubadora. É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngues: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela sussurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la.

Ela é ideias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz, 'Por aqui, por aqui'.

Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É à procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de todas as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e ideias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus Pensamentos". (p. 27)

E o seu companheiro?

"O companheiro certo para a Mulher Selvagem é aquele que tem uma profunda tenacidade e resistência de alma, aquele que sabe mandar sua própria natureza instintiva ir espiar por baixo da cabana da alma de uma mulher e compreender o que vir e ouvir por lá. O bom partido é o homem que insiste em voltar para tentar entender, é o que não se deixa dissuadir". (p.165)

Espero que você se sinta seduzido a ler mais sobre o livro. Faz bem!

Obrigada Ceiça, a lembrança de nossos tempos de Natal e Belém aqui se renascem. Bons estudos! Saudades!


Para saber mais sobre Ceiça Almeida e o Grupo da Complexidade é só acessar a página do Grecom: http://www.ufrn.br/grecom/ e se encantar. Deixa levar!





Eduepa, 2001
Lançamento do livro de Ceiça Almeida, Iran Mendes e John Fossa
Na foto: Fossa, eu, Carlos Aldemir, Iran e Ceiça
No Café Filosófico da A.S. Book de Natal (RN) - 2001
Lançamento do livro "Ciência, Razão e Paixão", de Ilya Prigogine.
Eu, o Pró-Reitor da UFRN, Cícero da AS Book, Ceiça e Edgard Carvalho


Referência: ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

terça-feira, 8 de março de 2011

Desenhos e atitudes: relações aprendentes na escola


Alunos ajudam professores a identificar local onde ocorrem constantemente as agressões na escola.

Quando socializava parte da pesquisa com mais de cem professores da escola fiz algumas observações sobre dicas de bullying representadas pelo alunado, principalmente, em seus desenhos.

Destaco a ocorrência de um mesmo ponto indicado por alguns alunos da amostra localizada em uma das unidades pedagógicas da escola e que fica em outra ilha de Belém. O enfoque do "paredão" me chamou muito a atenção. Este é um dos motivos que devemos aprender a ler desenhos de crianças ou jovens, com cuidado e muita habilidade na discussão. Eles retratam a sua realidade de forma mais aberta que no discurso escrito. E por lá nos dão pistas de sua cotidianidade.

Depois do alerta, o grupo de professores da UP se reuniu com a coordenação para pensar na melhor estratégia de recolocar a questão bullying e tratar o problema e não somente com as turmas envolvidas na amostra. Identificaram o local. Um pouco escondido dos olhares adultos.

A pesquisa vai ganhando seus ares pedagógicos com a competência docente e sua habilidade de lidar com a situação. Isso faz bem a todos! Fico feliz e espero que os alunos consigam ser mais felizes ainda e melhorar o seu desempenho escolar na vida que também nos atravessa e envolve.

O trabalho pedagógico tem muito chão a se desenvolver neste ano.

Observe, logo abaixo, algumas dessas representações dos alunos que mexeram com aquela unidade pedagógica. É o paredão!
Luiz, 9 anos
Bruno, 9 anos
Ivan, 13 anos
Ivanildo, 13 anos
Nosso planejamento envolve o feedback para todos os 762 alunos em suas novas turmas neste ano. A pesquisa aconteceu de outubro a dezembro de 2010. Estamos mapeando onde eles estão em 2011. Muitos deles agrupados juntos a novos alunos. Melhor ainda. Tudo ganha novo sentido quando a palavra é recolocada partindo das percepções dos próprios alunos, assim poderemos melhor conduzir o trabalho com os diferentes grupos de coordenação, professores, funcionários e com as famílias dos alunos em reuniões específicas.

Todo esse movimento pedagógico é muito importante para o contexto da escola e o desenvolvimento de seu currículo. Dentre os planos está a criação de um projeto que envolve a questão cultural e em suas múltiplas linguagens.

- Você assistiu ao pianista/maestro João Carlos Martins que regeu o público presente no carnaval de São Paulo?

O pianista virou maestro por conta do problema sério que teve com suas mãos. O maestro levou a música clássica também para crianças carentes. Belo projeto. Ali junto ao povo brincante na arquibancada e nos camarotes as vozes são ressignificadas. A beleza envolve a todos. Sempre. A emoção transborda. A realidade pode ser modificada pela fruição. Acredito na força da cultura para trazer mais cor e vida à escola e vontade de aprender.

 "A Música Venceu", samba-enredo da Vai-Vai no Carnaval 2011
"Feliz da vida lá vem o Bexiga
Exemplo de comunidade
A música venceu
O dom é luz que vem de Deus
Da emoção Vai-Vai resplandeceu
Dos céus, em um cortejo divinal
Os deuses da inspiração
Lançam talento a um mortal
Um ser abençoado, que hoje brilha neste carnaval
As sinfonias de Bach regeram seu destino
Orgulho brasileiro
Jovem pianista genial
Em preto e branco, sucesso internacional
Na sua fé, resistiu
E a dor da adversidade, suplantou
Com muita garra e amor
E assim, na sua força de superação
Buscou a verdadeira vocação
Um novo incidente o quis derrubar
Mas com maestria se pos a lutar
Por seu ideal
Luz da Ribalta que jamais se apagará
E ao som de bravos e aplausos
A Saracura agora vem cantar"

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ao agressor com carinho: solidariedade em pauta

Fauvismo de Henri Matisse. A dança (1909/10)


Neste contexto carnavalesco não pude deixar de escrever e relacionar alegria, fenômeno bullying, vilões famosos, escola de samba e solidariedade na ética da vida!

Que o vilão atrai disso já constatamos em muitos de nossos testemunhos. E a literatura está recheada de anti-heróis sedutores: feiticeiras, lobisomen, boto; o capitão feio, o magneto do universo Marvel, o joão bafo-de-onça; o gargamel, o esqueleto, o pica-pau; o curinga, o drácula; o Freddy Krueger; Stephen King; os homens-bombas; mesmo sem querer Wagner como inspirador do holocausto; Hermógenes de Sertão Veredas, Edmundo de Rei Lear, Claudius de Hamlet, Iago de Otelo, Sauron do senhor dos anéis; a Emília, a bruxinha de Monteiro...


Até Tatiana Belinky, a roteirista do Sítio do Pica-Pau Amarelo, tradutora e escritora de belos livros infantis, nos segreda e no alto de seus noventa e poucos anos: “até gostava mais dos vilões, porque são mais interessantes. Queria ser bruxa e não fada. Claro, uma bruxa bonita, como a da Branca de Neve, que era ruim ruim bruxa bruxa, mas muito bonita”.

Coisas do cotidiano: os chocolates ou os hambúrgueres, a preguiça ou a procrastinação...

Coisas da música: o chorinho, a maneira emotiva e chorosa de atrair ritmistas, sambistas, todos chorões.

Coisas de músico: “aquela mancha vermelha/ na pele do meu surdão/ não é tinta minha gente/ é sangue da minha mão” (Jair Rodrigues)

Coisas de cachorro de casa: a minha cadelinha Kika, é uma salsichinha (dachshund) que adora uivar, já que não tem o grave do Tuko, o corneteiro do grupo de quatro cachorrinhos daqui de casa. Muito, né? Mas, eles vieram como coisas da vida... rs! Pois é, a Kika quando saímos se entristece, daí resolve uivar de primeira ao bater da porta, assim os primeiros acordes dos seus lamentos uivantes chamam os demais. Só nos fazem rir. Começou assim. Agora toda vez que um estranho bate à porta, ela aqui por cima de orelha em pé, começa a cheirar freneticamente a porta e vem aquele coral, só que os outros não sabem uivar como ela. O canto coral deles é uma graça, cada um tentou modificar um pouco a forma do latido. A Kika, a menorzinha de todas, é a maestra canina. A chorosa!

- E daí, deu para atrair? rir um pouquinho?

Pois é, na escola, as crianças ao evocar bullying, testemunham entremeios a estorvos, lamentos, choramingos, medos, constrangimentos, vergonhas, silêncios, deslizes, raivas contidas, elementos fauvistas redesenhados, doses surreais, palavras feias, engasgadas, camufladas, tossidas, até esquecidas, outras ressignificadas nos eteceteras, algumas tatuagens de corpo-voz ou corpo-embargo dali emergem novos corpo-vozes, corpo-palavras, corpo-ação, corpo-escrita, e na textura da ética da vida por lá escrevem:

- "podemos ajudar as pessoas que agrediram as outras pessoas"
- "dar mais atenção para o agressor, bons conselhos podem resolver o fato"
- "ter uma sala para as pessoas agredidas e a pessoa que fez fosse pega estar com alguém mais experiente para conversar"
- "o agressor que provocou briga poderia pensar mais um pouco e ficar longe da pessoa que quer violentar, porque a briga começa com um simples gesto, podemos sim evitar brigas fazendo reunião, com os coordenadores da escola para evitar certas emoções"
- "nós os alunos podemos ajudar conversando com o provocador"
- "fazer reunião com quem sofreu alguma agressão e com quem agrediu para conseguir uma convivência pacífica".

Os charmosos vilões dos quadrinhos, das telas, dos palcos da vida, e da vida da escola tem suas próprias histórias. Como se formam os anti-heróis? Quem são seus alvos? Como as vítimas lhes atraem?

Aluno, 10 anos, 4o. ano do Ensino Fundamental
O medo nos bloqueia? De onde ele vem? Infelizmente, alguns de nossos alunos se sentem frágeis diante desse gigante íntimo, calam contraídos nesse segredo, assim apresentam dificuldades de defesa, de expressão e de relacionamento. Roda-viva. Sem defesa o organismo não consegue reagir. Rebaixa auto-estima e a capacidade cognitiva, desmotiva estudo e a frequência às aulas. A força vem do Amor. De onde ele vem?

Aluno, 14 anos, 8o. ano do Ensino Fundamental
A raiva, o ciúme, a inveja, a rejeição, o abandono, contrariamente, podem dar poder indevido. É o poder simbólico tomando forma. Planejar o (contra)ataque estimula. Encontrar a vítima certa até excita. Porém, “não são a morte, o sofrimento ou a perda que nos roubam a força: são o medo da morte, o medo da dor e o medo da perda que transformam os manipulados em vítimas e os manipuladores em terroristas”. (Abdullah apud Moz, 1995).

Percebemos mais histórias de submissão nas falas de alunos, entretanto, alguns adultos preferem ignorar o fenômeno, por banalizarem o caso. A pedagogia dos conteúdos fala mais forte, exigem desempenhos. Ledo engano. Engrossam-se as estatísticas do insucesso escolar. O cotidiano se atravessa na escola. Com ela, as mazelas impregnam-se nas distrações, nas omissões, na autoridade da fala, na pressa do mundo acelerado, na falta de diálogo em casa, na busca de carinho na internet. Cyberbullying. Vilão que atrai. Celular que filma e bate foto é algo mais sedutor. Internet chama olhares. Faz sonhar. Celular com jogos também distraem adultos. Assunto sério. E a vida leva...

Os índices mundiais de alunos envolvidos no fenômeno bullying chegam a 40% (Fante, 2008). No Brasil, ainda não existe pesquisa de âmbito nacional sobre nossos indicadores. Infelizmente, o tema ainda não é levado a sério por aqui, estamos bastante atrasados e com isso ficamos longe de resolver o problema. O pior é o fato de muitos ignorarem o fenômeno. Assim como banalizam doenças do corpo, das relações, do imaginário social como a Aids e a lepra, ou a tuberculose e o câncer, da solidariedade como a fome, o abandono, a dor da perda da família e de casas nas enchentes, da dignidade, a prostituição e outras tantas vulnerabilidades.

Queremos sucesso. E quem cuida do fracasso? Não dá ibope. Para isso temos photoshop.

Na amostra de 762 alunos da escola, o número das boas ideias relacionadas à cultura da paz ou a educação do sensível corresponde a 1,2%. A preocupação com o agressor é bem menor ainda. Mas existe. É o beija-flor que encanta.

As pessoas querem se defender do agressor, mas, onde vamos colocá-lo? Nas ruas? Nos albergues para menores infratores? Nas mãos de traficantes ou outros bandidos à solta? E o buraco na camada de ozônio é produto de que mesmo? Gandhi nos responde: “a Terra atende às necessidades humanas de todos, mas não agüenta a voracidade das elites consumidoras” (Boff, 1999).

Talvez continuemos a pensar que somos inatingíveis. Faz bem!

Talvez despertemos do sono. E bem!

Pai, acorde! O mundo está acabando! Acorde! (...) Não, meu filho, não é o fim do mundo. É apenas o começo de um novo dia”. (Washington Araújo apud Boff, 1999)

Destaco a escrita de um aluno que é alvo e autor, tem 10 anos, diz sofrer preconceito por ser gordo. Ele sugere à escola: “fazer passeios em duplas, entre aqueles que ficam se batendo, e talvez acabem esses problemas...”. Que alegria! É a escola de samba da vida na Ilha de Cotijuba!!!

Solidariedade às escolas de samba do Rio de Janeiro!!! Cooperação na rivalidade. Grande Rio, União da Ilha e Portela não serão rebaixadas. Não serão julgadas. Belo acorde. Viva!

O samba não foi queimado. A competitividade ressignificada. A amizade faz milagre. Esperanças acenam.


Referências:
BOFF, Leonardo. Ética da vida. Brasília: Letra Viva, 1999.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra. 15 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mario. Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FANTE, Cleo; PEDRA, José Augusto. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre: Artmed, 2008.
MOZ, Jane Middelton; ZAWADSKI, Mary Lee. Bullying: estratégias de sobrevivência para crianças e adultos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Imagem 2 e 3: arquivos pessoais

quinta-feira, 3 de março de 2011

Carnavalização: imagens sensoriais e suas ressonâncias

A inversão dos costumes fundantes mistura o sagrado e o profano, o velho e o novo e manifesta-se no riso, na alegoria, nos ornamentos, nas máscaras, rituais, entrudos familiares ou populares... É o inconsciente social a manifestar-se e ressignificar o grotesco, a busca constante. Euforia ou calmaria modificando o estado das células nervosas. Faz bem!


Após a terça-feira, as cinzas. Não desanima.
Levanta a poeira e dá a volta por cima.


Encontrei um trecho que simboliza a nossa carnavalização, em forma de música popular brasileira (João Bosco e Aldir Blanc) como bela expressão de tantos sentimentos que por ali se traduzem:


A esperança dança na corda bamba de sombrinhaE em cada passo dessa linha / Pode se machucarAzarA esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista tem que continuar...


Tudo termina para recomeçar. A renovação está implícita em cada término.
É o ciclo da vida. Para você, o ano começa após o carnaval?


Imagem 1: http://euouropreto.blogspot.com/2009_02_01_archive.html