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Pássaro solitário no telhado do vizinho à espera da companheira |
Despertar com o canto dos pássaros é estar com os ouvidos mais sensíveis, limpos da poluição sonora, a que somos assoberbados diariamente, ainda mais nós que aqui moramos no Umarizal.
Corri na sacada para ouvir melhor e percebi que ali havia coro de muitos e diferentes passarinhos, pulavam de telhado em telhado, de fio em fio e a cortar o céu em volta.
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Vista do Umarizal |
Como aqui conseguem sobreviver? Esse espaço que moro é um dos bairros cujo m2 dizem ser o mais caro de Belém. Um lugar cheinho de espigões. Uma horta de concretos verticais cuja engenharia procura dar o tom natural em suas transparências modernas, a espelhar e sorver o celeste azul.
Os passarinhos... o que pensam daqui desta margem do rio, quando se deparam com um prédio de 40 andares em pleno voo? Talvez muitos deles, é o que parece, insistam em sobreviver por aqui, quem saiba por este rio que encosta... Obstaculizamos a corrente? Depende do ponto de vista.
Aqui de minha casa, ainda enxergo o céu e desperto com o mavioso hino, sem o ruído da serra que agora se produz pelos trabalhadores da construção civil em outros novos prédios insurgindo deste pedaço da Terra.
Umarizal, quer dizer muitas árvores com fruto silvestre do “umari”, seu significado origina a história deste bairro, hoje deveria se chamar “espigal”, nome arrumado para algo nada natural, triste metáfora.
Meu esforço nesta manhã de obter imagens dos passarinhos cantando frustrou-me. Sinto-me tristemente analfabeta para descrevê-los. Ignoro o perfil. Aqui impotente para publicar. Coisas urbanas que assim me fizeram ser. Aqui vou aprendendo a me adaptar como eles aí pelos telhados, pois, as árvores que atrapalham as avenidas estão caindo, atropelam-se, puros ruídos no contexto, assim aqui, ali e acolá caem pelo descuido urbano.
O poder público se preocupa em manter infraestrutura, no mínimo, para atrair riquezas advindas das promessas capitais da construção civil. E o saneamento? A qualidade do ar? Talvez o rio seja o refúgio desses pássaros, lugar de beber água, lavar-se, brincar, namorar, cantar molhado. Mas, e a questão sanitária e os coliformes totais e fecais? Outra história dos motivos a conhecer acerca da persistência de aqui estarem os tais pássaros a cantar.
Temos estudos sobre a resistência canora em lugares como este? Galo meu ouvido não alcançou nesta manhã. Talvez tenham quintais por aqui.
Termino este diário do primeiro dia útil de 2011. Aprendências que depende por aqui de muita gente mesmo para me tirar desse analfabetismo crônico. O IBGE computa esse desenvolvimento/pobreza? O que conta o índice de desenvolvimento urbano? É a história humana de quem vive na cidade e em um bairro que em Belém é considerado o mais nobre da Capital Paraense. Como qualificar esse nobre? Pelos muitos prédios penso.
Pergunta que ainda não quer calar: onde estão os ninhos destes passarinhos, alguns deles se acomodam nas árvores e plantas de casa, passeiam no pequeno canto verde de meu jardim, gostam de ficar no telhado de casa, dos vizinhos, batem em minha janela para fazer suas reclamações...
Há algum programa de governo em atividade que cuide de suas habitações? Passarinho vota? A quem elegeriam? O que nós fazemos quando observamos os programas de governo em busca da qualidade de vida? Talvez o analfabetismo crônico não seja só meu. Este é um motivo de boa comunhão. Motivo de ser comum e feliz. Moro em bairro nobre! Mas, sou professora...
"Querido diário, abaixo algumas das imagens amadoras obtidas na redondeza e mais outra capturada da internet para mostrar o lado do rio que banha as costas do Umarizal. Acordei às cinco com clamores em bela sinfonia, às seis da manhã já batia fotos, seleciono algumas para aqui expor e dizer do re-clamor desses anjos de asas e seus hinos maviosos que por estas bandas ainda sobrevivem a cantar".
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Espigões da sacada de casa |
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Verde sobrevivente |
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Árvore espremida recebe os passarinhos daqui |
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O esguio pássaro à direita encontrou a companheira tímida à esquerda... |
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Nasceu um espigão em meu jardim |
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Umarizal sob o olhar ribeirinho |
O sol da manhã rasga o céu da Amazônia
Eu olho Belém da janela [de minha casa]
As aves que passam fazendo uma zona
Mostrando pra mim que a Amazônia sou eu
E tudo é muito lindo
É branco, é negro, é índio
(...) sede urbana dos matos
[Uma] caipora que nasceu na cidade
(...) Sou mais [uma brasileira]
Olhando Belém [daqui] enquanto uma canoa desce um rio
E o curumim [do lado de lá] assiste da canoa um boing riscando o vazio
Eu posso acreditar que ainda dá pra gente viver numa boa
Os rios da minha aldeia são maiores do que os de Fernando Pessoa
(e o sol da manhã rasga o céu da Amazônia)
Olhando os meus olhos de verde e floresta
Sentindo na pele o que disse o poeta
Eu olho o futuro e pergunto pra insônia
Será que o Brasil nunca viu a Amazônia
E vou dormir com isso
Será que é tão difícil
- Os versos acima [pouco modificados] foram compostos por Vital Lima, conheça a belíssima música "Olhando Belém" entoada por Nilson Chaves, um dos pássaros desses recantos paraoaras.
- Daqui penso eu: a Amazônia resiste? Amazônia sou eu. Somos nós brasileiros. Somos nós deste Planeta clamando.
Post Scriptum, Alerta Planeta:
Encontrei um post sobre a mortandade de bichos, no caso, de pássaros, que o bicho-homem, as suas construções urbanas e senso estético acabam transformando as nossas cidades em cemitérios a céu fechado. Sem espaço para árvores e pássaros, que há muito trocaram o pular de galho em galho pelo telhado em telhado, onde vamos parar? Leia um pouco mais: "Morte em massa de pássaros atinge o segundo estado nos EUA".
- É possível fazer de nossas cidades mais educadoras?
Imagens 1, 3-7, arquivo pessoal