Sabemos que um bom projeto pedagógico é capaz de fazer V. A. conviver com crianças que não sabem pegar um lápis na mão, outras que conhecem algumas letras do alfabeto e sabem escrever seus nomes. Um trabalho de monitoria poderia ajudar. Mas, será necessário saber conviver com as diferenças em sala de aula. O professor está preparado para lidar com essa situação? A escola tem recursos suficiente para dar suporte ao ensino diferenciado?
O nosso papo vai longe...
Mas, aqui trato de apresentar parte do trabalho diagnóstico realizado em algumas dessas provas.
1. ATIVIDADE DE IDENTIFICAÇÃO. Escrita de seu nome e de sua idade. Autorretrato. Desenho do que mais gosta de comer e de brincar. Ajuda a criar um vínculo com a mediadora.
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Ato de desenhar coisas que gosta de brincar... |
V. A. preferiu escrever seu nome em
letra cursiva e fez questão de dizer que tinha a letra c no meio. Ali também quis
escrever o sobrenome. Buscou se organizar no papel de tamanho 8,5 cm x 20,5 cm,
e na cor azul por ele escolhida dentre rosa, amarela e branca disponíveis. Após
comando de autorretrato, iniciou pela cabeça e disse que não havia como desenhar
suas pernas, mas, logo propôs o esquema da figura palito para se ajustar ao
conjunto. Disse que já havia terminado, porém, em seguida percebeu a necessidade de desenhar as
mãos do boneco. De forma desproporcional, deu grande ênfase às mãos - ao fazer,
à produção. Sobre o que gosta de comer fez questão de dizer que aprecia muito o
chocolate, embora saiba que não pode comer muito e que sua irmã gosta de comer
sal, mas não pode exagerar porque pode ficar doente. Desenha seus brinquedos
preferidos e dentre eles o robô e o lançador. Seu desenho bastante esquemático
toma a forma de relações topológicas, com figuras geométricas definidas.
Entretanto, os desenhos ficam soltos sem compor uma cena.
1a. COLAGEM DE SEU NOME
Colando a última letra de seu 1º nome |
Diante de uma caixa com muitas letras
escritas, em quadrados de cartolina – 2 cm x 2 cm, escolheu desta vez o papel
sulfite branco, ouvia atento o comando de pegar as letras de seu nome e colar
no papel. Separa um punhado e espalha sobre a mesa, pega letra a letra, diz:
“onde está a letra V? agora quero a próxima”, desiste de buscar no monte e vai
à caixa, depois procurava as demais nos dois lugares, sentia dificuldade em
encontrar a última letra, “acho que não tem”, animado com a questão de estar
frio ou quente prosseguiu procurando até encontrá-la. Organizou no papel, uma
próxima a outra, na sequência da esquerda para a direita e com a folha na
horizontal. Pegou a cola em bastão e colou a primeira, preferindo colocar a
cola no papel branco a por no verso da letra.
V. A. colou a segunda letra no meio do papel branco, e após firmar a
letra percebeu a distância da primeira, olhou as outras que ainda faltavam e
reviu espaçamento, pegou novamente a cola e trouxe para mais perto da primeira
letra de seu nome. Redobrou atenção na terceira letra, observou bem o tamanho
do papel, mediu a distância da primeira para a segunda e colou a letra C
respeitando o mesmo espaçamento. As outras três tiveram o espaçamento
estreitado, porém, procurou manter a mesma distância entre elas. Nesta
atividade colou somente seu primeiro nome, não fez menção de seu sobrenome.
2. REALISMO NOMINAL
2a. Diga uma
palavra grande: ele diz: “éééguaaaa”,
logo justifica, “é minha mãe que fala
sempre”.
2b. Diga uma palavra pequena, ele pensa e diz: “feia” – “falo para a minha irmã”.
2c. Diga uma palavra parecida com pato, ele olha, desvia,
pensa, ri e diz: “cocoricó”, “quá – quá – quá”.
2d. Quando lhe perguntado se baleia-bala, sabão-mamão,
sapo-sapato são palavras parecidas, ele diz que sim e quando questionado diz
que tem a mesma letra (não fala no som e nem sobre os objetos em si).
2e. Quando questionado porque o Sol se chama Sol, responde
que é claro e quente. E porque a Lua se chama Lua, diz que é escura e está de
noite. Quando perguntei se o Sol pode ser chamado de Lua e a Lua de Sol? Ele
negou confundindo o significante com o significado, ou seja, a criança por
volta de 5 a 6 anos, mostra uma profunda confusão entre palavra e coisa, nesse
estágio, ela acredita que mudar o nome da coisa implica em mudar a coisa
também, segundo Piaget, as crianças nessa fase “explicam” o nome dos objetos
pelos seus atributos. Somente na fase do “Marcelo, Marmelo, Martelo” é que ela
vai questionando o nome das coisas e não somente as coisas e os fenômenos em
si. Segundo Vygotsky (1991, p. 111), “trocar
os nomes significaria trocar as características específicas de cada objeto, tão
inseparável é a conexão de ambos no espírito da criança”.
Observação: Nas questões de 2a a 2c, V. A. relacionou a
questão social da palavra enquanto fala, na 2a interpreta como se palavra
grande fosse “palavrão”, uma palavra proibida, e na questão 2b, como se fosse
uma palavra que não chega a ser muito ofensiva e mais permitida. Na questão c,
refere-se à fala dos animais em si (onomatopéia), relaciona aí também a
semelhança com a galinha. Na questão d, preocupa-se em relacionar com o
aprendido sobre escrita, embora não tenha sido lhe mostrado figura ou palavra
escrita, nesse caso não relaciona som e nem foca nos objetos. Neste
conjunto mostra um nível transitório e bastante característico de sua faixa
etária.
3. CONSERVAÇÃO DE
PEQUENOS CONJUNTOS DISCRETOS DE ELEMENTOS
Material: 40
fichas de mesma forma e tamanho, sendo 20 azuis e 20 vermelhas.
Correspondência um a um no uso das fichas |
1º desafio: V. A. escolheu a cor
vermelha. Alinhei somente oito fichas de cor azul sobre a mesa, e após solicitação,
V. A. foi retirando ficha a ficha de sua coleção e colocou a seu modo o mesmo
tanto das fichas azuis, buscando garantir a equivalência da coleção disposta à
sua frente, respeitando os limites espaciais e a mesma quantidade de fichas. Ao
final, reservou o restante das vermelhas ao lado das azuis.
2º desafio: Espacei as fichas de sua coleção na linha abaixo da minha e
perguntei se tinha o mesmo número da minha e ele confirmou reaproximando as
fichas, dizendo que assim era uma mais comprida que a outra, eram iguais e que
só estavam mais afastadas. Quando a criança tem construído a estrutura de
número, o espaço ocupado pelos objetos se torna irrelevante, pois V. A. realiza
julgamentos quantitativos impondo uma estrutura numérica aos números.
4. CONSERVAÇÃO DA QUANTIDADE DE
MATÉRIA
Material: 2 plastilina
(massa plástica de modelar).
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Três tempos da prova de massa |
Desafios: Com os dois bastões de plastilina em sua mão, de cores escolhidas por ele mesmo, V. A. respondeu que eram iguais no tamanho e diferentes na cor. Questionei sobre o peso e ele confirmou que tinham pesos iguais. Na proposta de fazer uma minhoca e uma bola das plastilinas, V. A. perguntou o que era minhoca, dando a entender que não conhecia, falei sobre se conhecia cobra e pedi que fizesse então uma, falei que a minhoca é bem menor e que vive embaixo da terra, depois ele mesmo disse que iria fazer uma minhoca. Primeiro
fez a bola, caprichando no formato, e depois faria primeiro uma outra bola para
depois esticá-la em forma de cobra/minhoca. Com a forma modificada dos bastões,
perguntou-se a V. A. se havia a mesma quantidade de massa, de peso nas duas. V.
A. disse que não, para ele a bola era mais pesada que a cobra/minhoca. Apresentou
conduta não-conservativa.
5. CONSERVAÇÃO DA QUANTIDADE DE LÍQUIDO
(transvasamento)
Material:
2 copos de vidro do tipo americano, 1 taça de vidro, tipo champanhe, 1 jarra de
plástico, água com anilina verde.
Transferindo a água de um copo para a taça |
Desafios: Convidado a encher os dois
copos americanos até a marca circular, indicada pela seta azul, foi solicitado
a descrever o que via. Confirmou que os copos tinham o mesmo tanto de água
verde, e que não era suco. Em seguida, passa a água do copo para a taça. Para V.
A. há mais água na taça do que no copo. Justifica por ser a taça mais alta do
que o copo. Assim não atende ao conceito de reversibilidade. Procurou-se
relembrar com ele a igualdade inicial dos níveis e se propôs o retorno empírico
para ajudar a repensar: “se você puser o
que está na taça de novo no copo vamos ter a mesma medida anterior?” Victor
diz que sim. Volta o exercício de transferir para a taça e ele mantém
a conduta não-conservativa, e que vai aproximadamente até os 6 anos de
idade.
6. CONSERVAÇÃO DO NÚMERO ELEMENTAR
Material: 6 caixas de
fósforo vazias e 10 tampinhas plásticas de água
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Quatro tempos da prova de conservação de quantidade |
As caixas de fósforos foram dispostas na frente de V. A.
Foram-lhe dadas as dez tampinhas azuis. Criamos o enredo de que eram tartarugas
a brincar foram de suas casas. Depois de tantas horas, escureceu e suas mães
chamaram para se recolher. Cada tartaruga mora em uma casinha. Quantas
tartarugas sobraram? Essas moram em outra rua de um outro bairro. Victor
primeiro colocou cada tartaruga na frente de sua casa e depois colocou cada uma
delas dentro de suas casas. Ao lhe ser perguntado quantas tartarugas tinham ali
nas casinhas, inicialmente apontou o dedo para a casinha à sua esquerda e
depois encolheu o braço, olhou bem e disse que eram oito (8) tartarugas. A
essas atribuiu os seguintes nomes: Zorro, Harry, Harry Porter, Fulano, Maria e
Francis. Questionado se tinha certeza que eram oito, disse que sim e explicou que
se são oito caixinhas e cada uma delas tem uma tartaruga dentro é porque são
oito tartarugas. Ele não precisou abrir as caixinhas para contar, abstraiu o
número. V. A. conserva quantidades. Compreende o conceito de número.
CONCLUSÃO
V. A. é uma criança bastante atenta e comunicativa, consegue
expressar bem seu pensamento. Apresenta raciocínio rápido e se preocupa em
fazer as atividades de forma a sempre alcançar bom desempenho. Na atividade de
colagem deixou evidente seu senso de espaço e pensamento lógico na estrutura do
nome e organização seqüencial. Conhece número e sabe ler conforme pensamento
observado na atividade do realismo nominal.
Uma criança com o seu desempenho reúne condições de
freqüentar uma classe de alfabetização, mas, se mantiver na educação infantil,
por força da Resolução CNE/CEB n.6 de 20 de outubro de 2010, deverá haver
projetos específicos, como por exemplo, o de monitoria pedagógica ou de
informática educativa, que valorizem o “aprender a aprender”, porém, com
acompanhamento do professor regente a fim de garantir medidas especiais e o bom
desenvolvimento global da criança, a fim de não desmotivá-lo em seu processo de
escolarização. V. A. possui dois anos de escolaridade na educação infantil, nas
etapas de Maternal e Jardim I cumpridas anteriormente, e com muito sucesso.
Referências
- KAMII, C. A
criança e o número: implicações educacionais da Teoria de Piaget para a
atuação junto a escolares de 4 a 6 anos. 5 ed. Campinas, SP: Papirus, 1986.
Ninguém poderá contestar que o professor de matemática deve ter conhecimento de sua disciplina. Mas a transmissão desse conhecimento por meio do ensino, no presente, depende de sua compreensão de como esse conhecimento se originou e quais as principais motivações para o seu desenvolvimento, o que se aprende do passado, e quais as razões de sua presença nos currículos escolares, o que se justifica pela visão de futuro.. Esse encadeamento é um dos principais objetivos da História e Filosofia da Matemática.
ResponderExcluirFONTE: http://professorubiratandambrosio.blogspot.com/
Olá Webston Moura!
ResponderExcluirSeja muito bem-vindo neste cantinho psicopedagógico. Copm certeza Ubiratan D'Ambrósio é sempre muito bem vindo aqui também dentre as minhas referências, pois, a leitura da etnomatemática sempre me ajudaram a pensar mais no ensino e sobretudo nas aprendizagens.
Grande Abraço!