segunda-feira, 31 de maio de 2010

Blogs e o movimento “comente mais”: é uma questão de gênero?


Observei a campanha que o Blog “Quero morar em uma livraria”, da Lia, está dando sequência e resolvi aderir em parte a este movimento. Teci comentário a respeito logo abaixo do seu post e que aqui recoloco para vocês me ajudarem a pensar:

“Oi Lia,
Acompanho sempre suas sugestões nas sinopses de meu blog e admiro-me da sua capacidade de ler, dinamizar e espalhar o encantamento pela leitura a fim de reencantarmos mais a vida. São sementes da alegria. Fiquei apenas encucada porque atribuir à leitura de blogs, ou melhor, aos comentários e não-comentários somente às "mulheres". Por que questiono? As escolas demonstram em suas estatísticas que as dificuldades de aprendizagem são uma questão de gênero. Há mais meninos que não aprendem nas escolas do que meninas. Há mais mulheres nas escolas do que homens, sejam na função docente ou nas chamadas reuniões de "pais". Será que tem a ver? Vamos pensar melhor... E daí por que o selo é para o lado ou tem o toque "feminino" inclusive na imagem? Curiosidades que não querem calar...”

- Logo a resposta dela ao meu comentário, assim se segue:

“Oi, Rocio
Agradeço de coração aos elogios... muito interessante essa observação; eu não havia reparado na palavra "leitoras". Na verdade, no meu blog, os comentários são 90% femininos mas realmente nunca pensei no motivo. Achei ótima sua colocação. Bjs.

- O que vocês acham? No Blog de vocês quem mais adentra e mais comenta, são realmente as mulheres? Qual é a proporção? Por que será?

domingo, 30 de maio de 2010

Selinho Fabuloso: toque de afeto


Recebi este selo de duas grandes mulheres aqui do Pará: primeiro recebi o toque da talentosa amiga Daniela, bióloga, fotógrafa e blogueira fantástica que nos faz conhecer as maravilhas de seus clics sensíveis de sua "Maria Benedita", sempre alerta e cheia de bossa, conheça-a em "Lela Orca"; o segundo toque veio da querida tutora do Mídias na Educação Pará, Jamille Galvão, que me acolheu com tanto carinho em sua turma Castanhal 2, pois, estava eu quase desistindo do curso na expectativa da cirurgia nos joelhos e por este motivo ausente fisicamente da escola, embora continue trabalhando em casa...

Pelos dois afetuosos motivos resolvi dar continuidade à brincadeira e dos toques de afetos recebidos espalho para outras amigas, porém, aqui quero fazer uma reflexão e modificação. Temos dois cérebros, composto por dois hemisférios direito e esquerdo. O direito é o que sente, o emocional, o que recebe tudo o que é abstrato e dele retira informações a serem processadas pelos sentidos. O esquerdo é o que aciona os mecanismos cognitivos, classifica as informações, compara com as já existentes, faz cálculos, previsões, emite alarmes e determina procedimentos. Às tais funções se qualificam os lados em feminino ou masculino, cujas conexões nos integram como seres inteiros, completos.

Pensando nessa inteireza toda ecoando, vou dar sequência ao jogo dos afetos e “linkar” dois colegas e mais três colegas, pois, segundo a idealizadora do selo do "Aninha fazendo arte" posso escolher no mínimo cinco [pessoas inteiras] que considero fabulosas...

Escolho...
1. O quarteto da Lenira, do “
Alfabetização em foco”;
2. A simplicidade maravilhosa da Adrianne, em “
Mevitevendo”, está uma delícia passar por lá, com certeza vão gostar do “pequenos prazeres”, último post dela. Aproveitem e naveguem nos demais.
3. E a “menina” que me encanta em sua sensibilidade, a IsaBelle em seu “
Pedra do Sono”, título interessante...

E aqui vem o diferencial, valorizando e personificando os nossos outros lados especialíssimos, pela sensibilidade e criticidade de suas postagens, orientações, definições, visitas, incentivos e abraços virtuais...

4. Aquele que vive “
Catablogando Saberes” e nos encantando em sua performance de educador físico: Max Martins.
5. E o mestre sensível que desperta educadores na arte de blogar e bricolar através da informática educativa: Franz Kreuther, nas atividades presenciais ou em seu "
este blog é minha rua". Assim ajuda a desconstruir, tecer, integrar, comunicar e difundir conhecimentos no processo de formação continuada de professores e suas escolas, acreditando no desenvolvimento tecnológico da educação pública aqui de Belém e do Estado.

Como parte acrescentada do jogo, devo ainda dizer as coisas que me deixam triste e as que me deixam feliz. Faz parte de uma pequena modificação do selo original...
As coisas que me deixam triste são: ver um aluno saindo da escola sem rumo...
As coisas que me deixam feliz: as aprendizagens que fazem sorrir, vibrar e nos humanizam ainda mais em nosso espaço de relações aprendentes e interdependentes.

Para saber mais:
BLOISE, Paulo V. O tao e a psicologia. São Paulo: Angra, 2000.
SPRINGER, Sally P.; DEUTSCH, Georg. Cérebro esquerdo, cérebro direito. 2 ed. São Paulo: Summus, 1998.
Imagem 1: http://aninhafazendoarte.blogspot.com/
Imagem 2: http://anseios.files.wordpress.com/2008/05/abraco.jpg
Imagem 3: http://www.vivapernambuco.com.br/site/images/stories/Pingo_D-Agua.jpg

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nosso lado humanamente frágil


Uma nova licença ao tema... Como definir a vocês sobre o que venho vivenciando há um pouco mais de um ano, entremeios a picos agudos e críticos de dor e dificuldade no andar? O quadro manteve-se resistente ao tratamento clínico.

A "doença" dos/nos joelhos é conhecida como "condromalácia patelar" congênita, além do processo degenerativo do menisco em ambos os joelhos, diferente da condromalácia por traumatismo (jogador de futebol, ciclista, bailarinos, atletismo...), se junta à "hiperpressão patelar" (fico a imaginar se também herdasse a obesidade), enfim, resulta no quadro de "meniscopatia medial" nos dois joelhos e consequentemente, apareceu também o "cisto de Becker" no joelho esquerdo. A meniscectomia por videoartroscopia só não vai dar conta de resolver o problema da doença que aprenderei a conviver... Posso vir a sofrer algumas sequelas, mas, o desgaste dos meniscos a própria doença tomaria conta. O processo inflamatório e dolorido nesta fase crítica vai melhorar (espero!). Não poderei deixar de fazer os exercícios fisioterápicos e do programa de reequilíbrio muscular, mas, estou proibida de subir/descer escadas-rampas, fazer bike e outras limitações como agachar/ajoelhar, sentar sobre as pernas flexionadas. Imagine só na posição de lótus? Nem meio lótus.

Não venho dormindo bem, quase de meia em meia hora, acordo com a posição modificada dolorida. Passo o dia sonolenta, coisa que muito raramente estive indisposta, aprendendo a conviver com as dores irregulares e sensação de instabilidades meio constantes...

A anestesia escolhida para o caso será peridural, conforme a médica especialista. A cirurgia marcada para o próximo dia 02/06, no Hospital Porto Dias, de Belém, terá a intervenção do Dr. Erick Nunes em quem confio muito. Enfim, devo deixar para depois a habilidade de me superar diante do quadro "estável" que ficarei. É mais um desafio que não imaginei ser acometida aos 47 anos, ou que tivesse "herdado"...

Ler, passear nas infovias - as estradas eletrônicas e blogosfera densa e levemente conectada, trabalhar em casa nesta limitação é uma forma de também distrair a dor... E ir levando. Embora, junte a esse todo, a ansiedade natural em buscar sempre por melhor qualidade nas aprendizagens... E sempre sonhar – e aqui resolvi navegar pelas palavras de Calderon de La Barca (1600-1681), em dois poemas abaixo...

LA NOCHE

Esos rasgos de luz, esas centellas
que cobran con amagos superiores
alimentos del sol en resplandores,
aquello viven que se duele de ellas.

Flores nocturnas son: aunque tan bellas,
efímeras, padecen sus ardores;
pues si un día es el siglo de las flores,
una noche es la edad de las estrellas.

De esa, pues, primavera fugitiva,
ya nuestro mal, ya nuestro bien se infiere;
registro es nuestro, o muera el sol o viva.

¿Qué duración habrá que el hombre espere,
o qué mudanza habrá que no reciba
de astro que cada noche nace y muere?


Da peça “A vida é sonho”, trad. Renata Pallotini, pela Ed. Hedra:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.


Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.


E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar,
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?


Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto, ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.


Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonho são.

Referência
BARCA, Calderón de La. A vida é sonho. São Paulo: Hedra, 2008.

Imagem 1: http://bemdelevenaalma.files.wordpress.com/2009/05/leveza-776589.jpg

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Desenhos de crianças: poliédricos irregulares e possibilidades mil


Às crianças que nos falam: eu não posso desenhar ou eu não sei desenhar, o que lhes dizemos?

Essa é uma importante reflexão, pois, dela pode depender a fixação na incapacidade. Por que uma criança fala desse jeito? O que sente? O que vivenciou? Onde está seu bloqueio?

Se em sua vivência recebe palavras de estímulos para que se torne mais sensível ao meio, provavelmente, não pronunciará tais palavras.
- Paulina, olhe para isto: você percebe as delicadas diferenças entre a íris e a falsa íris?
- Toque este pêssego, Murilo, veja que sensação aveludada!
- Preste bem atenção neste silêncio e depois perceba a suavidade deste som...
- Consegue identificar cantos diferentes de passarinhos que estão neste aqui e agora - e "de árvore em árvore" deste quintal?

Se a criança não consegue expressar-se, alguma coisa afetou sua autoconfiança. Algumas crianças ficam presas ao que recebem do meio e se sentem incapazes de produzir qualquer coisa de modo independente. Desenhos só para pintar, copiar, completar tracinhos ou então recebem decalques. Ou ainda recebem críticas erradas dos adultos, “você vai aprender a desenhar melhor”, “seu desenho não é bastante bom”.
- Eu não sei [não posso] desenhar?
- O que você quer desenhar?
- Uma paisagem... (é muito vaga ideia, se faz necessário mediar...)
- Você me falou ontem sobre algo parecido com você ajudando a seu pai consertar o portão do quintal de casa...
- Vamos lembrar o que você fez? Como conseguiu ajudar? [segurava o portão... pegava o martelo...]
- O que você sentiu?
- O que foi que houve com o portão?

Deixar a criança se concentrar na experiência bem definida, colocando-se no mesmo lugar anterior. Se houver outro sentimento mais forte que o vivido, deixar as sensações, impressões e idéias virem à tona, observar, conversar e mediar, com tato e habilidade para não ser invasivo.

- O que pode abrir os cristais da imaginação? Uma música, uma sessão de relaxamento, um conto, uma poesia, uma imagem, uma palavra, uma frase, um gesto, uma dramatização...

Não podemos interferir na liberdade de expressão da criança, mas, podemos evitar a rigidez de sua imaginação.

A criança desenha o pai apenas com uma cabeça e pés, é o que pinta em sua percepção no momento. Ao invés de reclamar sobre tal representação, ou então, ignorar achando que faz parte de sua etapa atual, podemos tornar as relações com seu pai mais viva e facilitar alguns contatos mais significativos e definidos que trocam pai e filho entre si.

Uma figura de um homem levantando uma criança pode evocar boas sensações no menino, e podemos falar juntos sobre as mãos que seguram firme... Se for muito significativo o próximo desenho pode trazer o novo traço, o sentimento forte faz aparecer ou esconder...

A motivação para o trabalho criador acontece nas mediações. Nunca impondo, mas, aguçando as escutas sensíveis. O que mais ecoa na criança e em suas releituras do vivido? Também não é impor o nosso conceito de bonito, ou elogiar indevidamente os trabalhos artísticos da criança. Qual é pior: a discriminação ou os falsos elogios? Qual é o mérito? O esforço? A superação? O elemento criativo? A originalidade?
- Professora, olha como late o meu cachorro? [A criança que assim fala sempre se mostrou calada...]
- Olha o carro do papai? [As portas estão fechadas e seu pai está dentro dele? Não é perigoso deixar o carro em um lugar qualquer? Dá-se vazão e deixa rolar...]

O desenho chama a interpretação e cada pessoa pode ver algo diferente. Aos poucos a comunicação aperfeiçoa as formas de dizer através desse recurso. Os desenhos ganham valor pedagógico e mais comunicativo no cotidiano.

Na maioria dos desenhos das crianças as figuras estão viradas de frente para o “interlocutor” e muitas delas ficam em posição estáticas, não é mesmo? Se aparecer uma figura de costas pode indicar um traço criativo e original... Muitas vozes podem ecoar e é muito bom interagir entre colegas ou com o(a) professor(a).

Os desenhos das crianças são mais reais para seus sentimentos, suas emoções e seu mundo de experiências, do que a realidade dos adultos que para elas podem não ter significado. Ou seja, a criança não deve satisfazer o gosto artístico dos adultos.


Uma pergunta para você: com que idade parou de desenhar? Ou seja, seus desenhos são sempre os mesmos? Desde quando? Qual é o traço original do seu desenho? Alguém lhe apresentou um modelo? Você copiou e muita gente igual você?

E aí nos vem a tristeza? O desenho da maioria das pessoas é o mesmo: o sol, a casa, a árvore, a flor, a menina, o menino, a maçã, o elefantinho, o gato, a borboleta... Desenhos que não nos diferenciam. Por quê?

E nós na escola, o que fazemos continuamos valorizando a cópia, sem identidade, sem estilo? É difícil criar? É difícil escrever? É fácil ser autor? Por quê?

O que faremos daqui para a frente? Vamos delinear nossos traços? Vamos mostrar o nosso perfil? Redescobrir o nosso estilo? E os nossos alunos podem nos ensinar nessas interações necessárias e aprendentes.

É possível resgatar a nossa originalidade perdida nalgum lugar do passado. Ou, é tempo perdido, pois, já fixamos a nossa incapacidade (?). Redesenhar
a trajetória de curvas e outras linhas. Desenhos vividos, definidos, criativos, revisitados e ressignificados - para além do arco-íris...

Boa descoberta!

Imagem 2: arquivo pessoal: jardim de minha casa

terça-feira, 11 de maio de 2010

Desafio: as 6 coisas que você não sabe sobre mim


Max Martins me propôs escrever um meme sobre o tema "As 6 coisas que você não sabe sobre mim". Resolvi escrever sobre a infância e a forma inteira que aprendi a gostar da terra e das coisas que ela dá e ensina a semear, a cultivar e a colher.

Sugere indicar alguns colegas blogueiros. Assim escolho 3 deles. E como Max mesmo nos diz, “é uma forma bacana de conhecer um pouco mais as pessoas com quem trocamos ideias na internet”. Embora, tenha a mesma opinião que o Franz em sua postagem acerca do mesmo tema, porém, não deixo de também participar.

1. Adorava vasculhar os gibis de meu irmão, desde os quatro anos, e minha mãe diz não saber o que me fez aprender a ler e a escrever aos cinco anos de idade. Apesar de ela ser professora de 1ª série na época e durante 33 anos. Além de que eu ficava admirando as réguas, esquadro e o compasso que ele utilizava na escrivaninha de casa. Pedia para eu não mexer, mas, quem resiste aos objetos do desejo? Assim aprendi a relacionar duas coisas que me apeteciam literatura e geometria. Adorava ouvi-lo falar da aula de desenho, com aqueles instrumentos poderia se construir uma casa, um prédio e até um carro. Aprendi lendo todos os recursos das HQ, os gibis variavam e depois vieram os livros dos contos de fadas. Eu me encantava neste mundo. Um pulo para eu mexer nas enciclopédias e diferentes livros que minha vista alcançava. As paisagens dos outros lugares me faziam de fato viajar. As pessoas diferentes me chamavam para conversas “virtuais” – imaginárias. Assim aprendi a ler o mundo no chão da sala e do lugar de estudo de meu irmão.

2. Outros encantos me fascinaram, esses estavam no quintal de minha casa e de minha avó, dois quintais à direita do nosso. Eram as formigas, as galinhas, os patos, os gansos, os gatos, a goiabeira, as bananeiras, os mamoeiros, o pé de abricó, a jabuticabeira, os guapês, as pitangas, as ameixas e as amoras. Ah! As parreiras do vizinho do lado esquerdo. O que eu não suportava? Eram no quintal da vovó, as mamonas espinhudas, machuquentas, assassinas. Cair nelas? Ainda tinham os diferentes cogumelos nos galhos ou troncos caídos, apodrecidos. Tinha certo medo de vê-los abertos, ficava imaginando bichos peçonhentos e histórias de duendes me assombravam, outros momentos não mais. Morria de medo de sapo e aranhas nem tanto. Até que um dia, no terreno da minha avó, apareceu um camaleão e me assustou. Era grande e nunca tinha visto um. A linguagem dos bichos e os cheiros das frutas e todos os seus ciclos me ensinavam a ler o tempo. Pois, me angustiava com a falta delas em determinada época do ano. Além de que ficava brincando e disputando com os pássaros os alimentos fresquinhos. Corria atrás das borboletas. E imaginava outros bichos em outros lugares. E ia zarpando aos livros, enciclopédias e gibis para encontrá-los. E as diferentes histórias continuavam a me encantar para além dos contos que ouvia.

3. Terceiro ponto dessas coisas da infância a contar aqui. Eram os vidrinhos e embalagens que chegavam em casa, colecionava-os e queria saber no que poderiam conter ou se transformar. Sonhava em ter perfumes diferentes de flores diferentes. Eram poucas as que nos quintais encontrava, só no vizinho que ficava entre nosso quintal e de minha avó. Ah! E no quintal de meus avós maternos, tinham rosas vermelhas e cor-de-rosa, um lírio e algumas flores silvestres. Lá naquele quintal mais distante também estavam as cantigas de roda e todas as brincadeiras que inventávamos na roda, eu e meus primos e primas. Éramos assistidos e aplaudidos pelos adultos em volta ou nas janelas.

4. Quarto ponto, veio um pouco mais tarde, quando conheci meu esposo, aos 14 anos de idade, comecei a ler outros livros. Primeiro, as biografias de cientistas e suas descobertas importantes para a humanidade e os músicos eruditos que ele foi me dando a conhecer, depois ele me apresentou a Taylor Caldwell e a história de Lucano (Lucas), o apóstolo médico. Com ela, a vontade de ter um filho e chamá-lo de Lucas. Tive somente duas meninas. Elas disseram-me que se uma delas tiver um filho talvez batize de Lucas. Sem cobranças. A história do médico evangelista é belíssima. Como eu morava na rua Dr. Leocádio, sempre quis saber referências dele, mais tarde, Enéas me presenteia com o livro sobre a vida de Leocádio Corrêa, outro grande médico, jornalista e político abolicionista de Paranaguá (PR). O livro muito bem escrito trazia sua bela biografia. É espírita.

5. Quinto ponto, as aprendizagens que tive com as crianças do Colégio Estadual José Bonifácio, alunos da pré-escola e das terceiras séries. As aulas-passeio eram constantes na redondeza do bairro e no centro histórico de Paranaguá. Ia somente com eles e a pé. Conhecemos a história da construção da Igreja de São Benedito, a da Fontinha Velha e a da Santa Casa de Misericórdia. O relatório que os alunos produziam, fazia os demais professores se e me questionarem sobre a autoria daquelas escritas. Os problemas do bairro eram detectados naqueles relatos. As músicas eram ilustradas. Isso tudo em 1988 e 1989. Tempo que consolidava o construtivismo no Brasil, logo após o movimento das diretas-já e próximo da eleição para presidente do Brasil.

6. Sexto ponto, quando fui chamada para Secretaria de Educação do Paraná, em Curitiba, pelo trabalho que desenvolvia com os alunos do colégio e o resultado das aprendizagens, as reuniões com as famílias tinha sempre um significado importante, pois, nelas os alunos mostravam o que aprendiam aos seus pais e faziam as atividades com eles. De filho ou filha para pai, mãe, irmãos ou avós. Cada vez mais as reuniões lotavam. Fiz parte das discussões sobre as mudanças de currículo através dos cursos “Repensando e reformulando o currículo de 1º. Grau”, com todos os municípios paranaenses. Eu representava as escolas do litoral e o Núcleo Regional de Educação de Paranaguá. Foi o meu melhor aprendizado trabalhar com outros professores, mestres e doutores discutindo as bases marxistas da educação, o olhar holístico e sobre os processos cognitivos, metacognitivos, mediação pedagógica, currículo e avaliação. Depois, de tudo isso o tempo de deixar o Paraná e optar por morar, nas circunstâncias da época, no Pará. Para cá vim e ingressei na rede municipal de educação através de outro concurso público. Terminei o Curso de Pedagogia e fiz Psicopedagogia por aqui. Desta forma, pude contribuir na formação continuada de professores da rede municipal desde 1993.

Indico algumas colegas para continuar a brincadeira proposta:
A Adrianne Ogêda que voltou recentemente, na blogosfera, maravilhosa e dando-nos boas dicas de leitura.
A Marli Fiorentin, professora apaixonadíssima que está a redescobrir com as crianças da educação infantil o significado de ser educadora.
A Maira Miranda, outra professora apaixonada, que faz parte do curso “Mídias na Educação”, lá dos pampas como Max e Marli.

sábado, 8 de maio de 2010

Sincronicidades na família: vida e morte


Hoje fujo mais uma vez do tema do Blog para falar um pouco sobre simultaneidade de acontecimentos com pessoas e em relação com números e datas.

Existem sincronicidades em nossas datas na minha família nuclear. Pelo menos fiz algumas observações. Pura coincidência? Pode ser. Mas, é legal!


Sincronicidade, vem do grego syn - junto, e chronos - tempo; é a designação de Jung para um princípio que deveria explicar a relação significativa mais acausal de acontecimentos, a “coincidência significativa” de dois ou mais fatos, ou seja, são ocorrências de acontecimentos acausais simultâneos, ligados por um sentido comum.

Eu nasci no dia 15 de outubro, dia do professor, dois dias depois do aniversário de minha mãe. O médico dela passou um mês antes na porta de casa e disse, à minha mãe desesperada que se achava perdida nas contas, que se eu não nascesse no dia 15, não nasceria mais. Meu irmão, com 7 anos na época, ouviu e quando nasci disse à minha mãe: "aquele médico acertou direitinho, a bebê nasceu no dia 15". O parto era feito em casa.

Não pense que minha mãe, professora normalista na época em que raríssimas mulheres estudavam e muito menos trabalhavam, queria que eu fosse professora. Fez tudo para me demover da idéia. Não conseguiu. Até cursei administração para lhe agradar. Não deu.


Ela foi durante 33 anos professora de 1a. série "primária". Exímia desenhista. Lecionava na Ilha do Mel, Ilha das Cobras e mais uma outra ilha no Litoral paranaense que não me lembro. Depois foi transferida para a Escola de Aplicação, atualmente Instituto Estadual de Educação "Dr. Caetano Munhoz da Rocha", em Paranaguá (PR). Yonne Rodi passava o mês inteiro nas Ilhas e voltava para casa só no final do mês. Aprendeu a pegar siri na beira da bela e bucólica praia da Ilha do Mel. As águas eram límpidas, dizia-me. E dormia na própria escola. Alfabetizou muitos pescadores e seus filhos.

Minha filha mais velha completa 29 anos de idade amanhã, no dia das mães. Quando nasceu, o médico me cumprimentou triplamente, primeiro, porque tinha nascido uma menina, na época ainda não se sabia antes sobre o sexo do bebê que esperávamos, segundo, porque estávamos na véspera do dia das mães. E terceiro, disse-me, porque estava sendo a sua melhor parturiente: parto normal, sem anestesia e sem "gritos" ou choros. Eu tinha 18 anos.

À respeito de questões místicas, ou seja, um pouco de mapa astral que Lorena me presenteou. Coisas de filha. Ela nasceu no mês e signo da minha lua, em Touro. E a Lígia, minha segunda filha e caçula, nasceu no dia 21 de setembro, e bem no dia que meu avô paterno, Luiz Lourenço Rodi, filho de imigrantes italianos, faleceu. E ela tinha uma forte ligação com meu pai, que faleceu um dia antes que seu pai - o meu avô Luiz - nasceu. Dia de São Lourenço, dia 10 de agosto. E na ocasião ventava muito no cemitério.

Meu ascendente é em Virgem, e Lígia nasceu no mês de setembro, véspera da entrada do signo de Libra, o meu Sol. Ela veio ao mundo na véspera da primavera, a estação do ano que nasci e sempre me encantou. No sul é tempo de amenidades. Pouco frio e calor na medida. Flores despertam. Alegram. Pássaros cantam e encantam mais.


As coincidências, não param por aí, meu esposo nasceu no dia que nasceu meu avô materno. Não se conheceram por uma no apenas. Eu e meu esposo nascemos às três horas da madrugada. Somos de signos opostos no zodíaco. Ele é de Áries, inicia os seis primeiros signos, e eu, de Libra, signo que inicia os seis últimos. Os opostos se atraem e assim estamos há 33 anos juntos.

As coincidências que entrelaçam a minha família estão relacionadas às datas de nascimento e morte. Há coincidências na sua família? Mistérios divinos?

Quem nunca ouviu falar do acúmulo casual de acontecimentos importantes, muitas vezes dramáticos em certas datas, ou em determinado ano para algumas famílias? É como se o destino às vezes “insistisse em escolher” determinados lugares e datas para acontecimentos semelhantes...

Coisas da vida!
Imagem 1: http://1.bp.blogspot.com/_vALUBdGgFd4/Sl5C7FzU9oI/AAAAAAAAADw/LiSOMPdG18k/s400/StrangeAtractorLorenz.jpg
Imagem 2: http://sotaosdaalma.blogspot.com/

domingo, 2 de maio de 2010

Cuabamorandu: o céu de amazônidas


Este projeto foi muito especial, através dele conheci o Prof. Dr. Germano Bruno Afonso (UFPR) e, com ele, um pouco mais do céu regional visto através dos olhos dos índios Tembé. E de como eles se relacionam na escola da vida, com as influências cotidianas e recíprocas da natureza na natureza humana.

Desta forma compreendi melhor o significado da etnoastronomia, motivo principal para a construção do projeto pedagógico e institucional do Planetário do Pará. Esta foi a minha proposta. Convite recebido, proposta aceita e desafio assumido perante a sociedade paraense. Assim o projeto foi delineado em maio de 1997. Quando o Planetário do Pará foi inaugurado em setembro de 1999, entregamos nas mãos do governador da época, o primeiro exemplar do trabalho feito com os índios Tembé e outro exemplar da Cartilha à Capitoa Verônica, como retorno de nossas pesquisas. Assim estávamos nos alfabetizando nos saberes do povo da terra para melhor valorizar o olhar do homem e da mulher amazônidas para o céu. Somos Um.

Um compromisso ficou ainda a ser cumprido, por todos nós que fazíamos o Planetário, a missão de contribuir com a Capitoa Verônica, enquanto matriarca da Aldeia Tekohaw, situada próximo às águas do município de Paragominas. Em seu clamor sabiamente nos solicitava: "ajudem-me cuidar e guardar nossa história".

Um mês depois, enviei para a Câmara Brasileira do Livro a nossa inscrição para concorrer ao Prêmio Jabuti 2000. Muita coisa mudou a partir daí. E em janeiro de 2000, sai do Planetário do Pará, e assumi a Editora da Universidade do Estado do Pará - UEPA. Aliás, a editora não existia, fundei a editora.

Estudei mais um pouco sobre antropologia e etnopedagogia, assim publiquei livros de Edgar Morin, Ilya Prigogine, Maria da Conceição Almeida (UFRN) e Edgard Carvalho (PUC-SP), e dos professores da UEPA, dentre eles, o professor Iran Abreu Mendes, fiz parcerias com a Unesp quando entramos na Associação Brasileira das Editoras Universitárias.

Publicamos a coleção "Nomes de Deuses" (Noms de Dieux), da radiotelevisão belga RTBF Liège, entrevistas a Edmond Blattchen, em co-edição Uepa-Unesp. A coleção é composta por oito livros, cada um corresponde a um tema/entrevistado: Paul Ricoeur (O único e o singular), Ilya Prigogine (Do ser ao devir), Edgar Morin (Ninguém sabe o dia que nascerá), Trinh Xuan Thuan (O agrimensor do cosmo), Dalai Lama (A compaixão universal), Jean-Yves Leloup (Se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo), André Comte-Sponville (O alegre desespero) e Hubert Reeves (Os artesãos do oitavo dia).

Não deixei a peteca cair. Mas, quem respondeu à Capitoa Verônica? Ironia do destino, a cartilha dos Tembé, logo que saí do Planetário, dois meses após, por questões "políticas", foi indicada entre os três finalistas ao Prêmio Jabuti, na categoria dos didáticos. Chamaram-me e eu participei da premiação no Rio de Janeiro, em maio de 2000. Para surpresa de todos, a UEPA ganhou o prêmio de 1°. lugar na categoria dos Didáticos. Muitos flash me seguiram na ocasião e depois na capital paraense, mesmo a contragosto de alguns.

Volto à pergunta: e a capitoa Verônica?

Fico com a sua palavra: "Nós os índios, sempre cantamos e dançamos nas nossas cantorias, como forma de manter a unidade do nosso povo e a alegria da comunidade. Se a gente cantar e dançar, nós nunca vamos acabar".

E nós homens brancos, como nos chamam, como comemoramos nossas conquistas? A sabedoria deste povo precisa ser melhor compreendida.

Qual o meu aprendizado? Compreendi muito acerca da "etnopedagogia e etnoalfabetização" com o povo da aldeia Tekohaw. Por isso mesmo valeu a experiência que passei durante dois anos, um na criação do projeto, outro na implantação e um período bem pequeno na coordenação de todo o complexo.

Dez anos se passaram e recebi a homenagem da UEPA e do Planetário do Pará, no dia 30 de setembro de 2009, em meio às diversas autoridades do Estado. E nos dizeres da placa constava: "Em comemoração aos 10 anos do Planetário do Pará, temos a honra de prestar esta homenagem por suas contribuições". Fiquei muito emocionada a lembrar de todo o processo e seu desdobramento.

O que queríamos? Bem mais, o povo Tembé era somente a primeira nação indígena a nos ensinar sobre a inteireza do ser em sua relação cotidiana com as naturezas... O projeto sobre etnoastronomia findou ali. Hoje o Planetário tem novos objetivos. Ficarei muito contente se responderem aos anseios da Capitoa. Esta sim será a melhor homenagem que rendemos ao povo que fez a diferença entre os diversos planetários brasileiros e cuja identidade ganhou notoriedade em diferentes países da Europa e do nosso continente, na época da difusão do conhecimento pedagógico e científico vivenciados em Planetários, na versão Pará-Brasil, principalmente, porque aprendemos muito com os grupos étnicos.

Deixo, logo abaixo, uma pequena amostra desse trabalho, porém, o melhor é ler a cartilha e saber mais sobre as constelações indígenas e suas influências. Poderão conhecer o conjunto de estrelas que perfazem a Ema, a Siriema, a Anta, o Queixo da Anta, o Beija-flor, o Jabuti, a Canoa. Concepções que giram em torno do Sol e da Lua, as relações com o Cruzeiro do Sul e a Via Láctea. Os desenhos nessa apresentação foram feitos pela professora Maria Cristina Mascaro.

Quem eram os povos ágrafos? Com quem aprenderam? Pelo menos percebemos em nosso cotidiano que eles sabem muito mais respeitar a natureza que os homens e mulheres que estudaram muito. Como está o nosso Planeta?

Vamos cuidar de nosso povo? Os índios são a memória viva de nossos antepassados a frear nossos costumes, muito presos aos determinantes socioculturais do povo da cidade.

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Missão incompleta!

sábado, 1 de maio de 2010

Redes sobre idéias: a tessitura de maio


Maio, tempo de celebrações previstas, dias do trabalhador, das mamães, das noivas, mês do cotidiano, das conquistas, do amor, da criação, da Vida. Nichos culturais. Tempo de rediscutirmos sustentabilidade, sazonalidades, mídias, condicionantes culturais, supérfluos e consumismo? De falarmos de sentimentos e integração? Quantas possibilidades a tecer conhecimentos! Os fios tricotam teias, tecem casulos e toda a colméia. Intuição geométrica dos animais. Equidade. Harmonia. Educação Ambiental.

Dentre as opções, pensei em algo que unisse os temas de maio em uma única partitura, ou seja, uma composição que pudesse abraçar a um tempo de cada instrumento e cada voz. E me veio Caetano Veloso e sua “Mel”. Pura ilusão? Sonhos e ligações impossíveis?

Ó abelha rainha faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direita claridade do céu
E agarro o sol com a mão
É meio-dia, é meia-noite, é toda hora
Lambe olhos, torce cabelos, feiticeira vamo-nos embora
É meio-dia, é meia-noite, faz zumzum na testa
Na janela, na fresta da telha
Pela escada, pela porta, pela estrada toda a fora
Anima de vida o seio da floresta
O amor empresta a praia deserta zumbe na orelha, concha do mar
Ó abelha, boca de mel, carmin, carnuda, vermelha
Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do seu prazer

Se “todo ato humano é uma metáfora antes de ser um ato”, segundo Bach (1995, p.174) poderemos ajudar o processo criativo dos alunos solicitando que teçam novas teias, e em seus favos, alimentem-se de idéias e cooperações – co-produzindo vidas. Processos pedagógicos que incluem o questionar e o reconstruir. Habilidades didáticas. Co-autorias.

Em meio ao ano, maio não dá um bom projeto com crianças e jovens de todas as idades? Se encaixa no cronograma em ação? É possível propor a eles pensar em algo que integre suas representações - incluindo as do mês em flor – e, de forma dialógica e criativa, re-olhem o cotidiano e articulem sentimentos integradores e mais harmoniosos. O olhar crítico permeia. Somos diferentes e únicos. Na diversidade, a possibilidade de manter relações interdependentes. Diversos e únicos. Paradoxos integrados.

Pensar e fazer. Teoria e prática. Sonho e realidade. Luz e sombra. Cores e ausência de luz. Naturezas interligadas. Assim, lembramos que “tudo o que vemos e tocamos foi um dia uma idéia invisível” (Bach, 1995, p.86).

Sobre estudos e conhecer com mais significado lembramos que apesar de tudo precisamos produzir sentidos, pois, “quando [se] adquire o conhecimento antes da experiência, nem sempre ela faz sentido de imediato” (Bach, 1995, p.174). E aí está o papel do professor e sua capacidade de mediar as relações entre o fazer, o pensar e suas releituras, proporciona ao aluno a capacidade de reescrever a vida!

Este é o papel do educador que acaba aprendendo com a criatividade do aluno. E o aluno com as oportunidades de reescrever o mundo. Estímulos, interesses e significados. Lançamos redes sobre idéias. Revisitamos a história e possibilitamos novos caminhos redesenhando as trilhas do saber. A escola vai cumprindo sua função educadora das aprendizagens.
Colméias dos saberes, favos que alimentam, nutrientes que energizam e substanciam diferentes idéias e possibilidades de integrar as naturezas que perfazem a Vida, redescobrindo a alegria e o amor.

É maio reencantando a educação. Tempo de renascer. Boas metáforas que se materializam nos produtos que recriamos. Escola da Vida. Enfrentamentos do Amor. Possibilidades de superação. Todos somos capazes de aprender. Sentimento de inclusão. Fim. Recomeço. Ciclos contínuos. Novas teias.

P. S. Algo incrível aconteceu após postagem do tema, bem próximo da tela de meu computador e pela janela chegou uma inesperada visita. Cheirou meus lápis e canetas, passeou por papéis e livros. Não me recordo de ter visto uma por aqui: a dona abelha. Bela coincidência! Foi embora desiludida.