quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Horta escolar: as encantarias da vida

As atividades de horticultura fomentam maior interação com o meio escolar, de forma sensível e consciente, na prática da educação para a sustentabilidade.

Seres sensíveis, amorosos, questionadores, criativos, participativos e solidários compõem o perfil desejado e trabalhado durante mediações do projeto “Horta do Conhecimento”, cuja auto-estima revigorada, advinda dessas relações de cuidado e humanizadas, possa ampliar espaços para novos afetos, integração e co-autorias, revitalizando os corpos relacionais na teia dos saberes tecida pelas diferentes áreas do currículo escolar, através de um abraço complexo, como manifestos em torno de uma árvore centenária, enquanto trama a unir elementos importantes e entrelaçá-los em um complexo tecido planetário.

Aulas-passeio e valorização da horta, como espaço interdisciplinar da vida na escola, ajudam a dinamizar saberes, a remixar e caminhar nas trilhas interpretativas da escola retextualizando subsídios teóricos e metodológicos que encontramos em Capra, Freinet, Isabel Carvalho e outros colaboradores pedagógicos, e nos desafiam a recolocar a prática, a criar novas texturas, a desconstruir hábitos e atitudes em relação ao meio ambiente e a contribuir com o processo de formação do sujeito ecológico, reconsiderando a história, a cultura, as relações sociais e aprendentes.

A pedagogia deve facilitar o entendimento para uma vida sustentável. Na escola - que é espaço do atravessamento, espaço intermezzo entre cultura-sociedade-familia-sujeito, a horta nessa ação intervalar ajuda a ensinar e a repensar os princípios básicos da ecologia desde turmas de educação infantil. É a educação com um profundo respeito pela natureza viva e suas relações interdependentes abraçadas pelo tema comum da vida, do bem-estar e alegrias culturais.

A Alfabetização Ecológica restabelece, nas crianças da educação infantil e séries iniciais, a conexão com o fundamento da alimentação e com a própria Vida. O espaço da horta religa, segundo Capra (2005), as crianças aos fundamentos básicos da comida, ou seja, com a essência da vida.

A horta é como um lugar mágico para crianças e adultos aprenderem juntos o senso de pertencimento a um ecossistema. Ali tomamos com elas, em seus dizeres e releituras, a consciência de que fazemos parte da teia da vida, num determinado sistema social e cultural, recolocados num ecossistema e inseridos numa paisagem com flora e fauna características. Somos parte da beleza do nosso lugar. Somos natureza.

Nesse cantinho da escola todos aprendem a “cultivar” uma horta - e nela estudar os ciclos da vida e os fluxos de energia – como parte do currículo, pois, os ciclos do plantio, do cultivo, da colheita, da compostagem e reciclagem fazem parte de outros ciclos maiores: o das águas, o das estações etc., e assim formam conexões na rede planetária da vida.

Para o projeto importa que as crianças recebam informações que sejam incorporadas ao cotidiano como consciência ecológica, tornando-as agentes multiplicadores na família ou comunidade, nas brincadeiras, conversas ou estudos. O papel do educador, como sujeito ecológico, é dar condições à criança de tornar-se atuante e saudável, diante da “fome” e da multiplicidade de desejos e sentimentos, saberes e lugares, criando vínculos emocionais com a natureza e sendo capaz de reconstruir sua cidadania, com mais sabor, sentido e significado, na aplicação de conhecimentos ecológicos adquiridos, capaz de questionar, reconstruir ou preencher lacunas existentes entre a prática humana e os sistemas ecologicamente sustentáveis.

O projeto fomenta a apropriação do conhecimento e reescreve o currículo escolar quando atinge a comunidade por meio de: implantação de hortas caseiras em casas de alunos ou de hortas escolares em outras escolas parceiras ou comprometidas com a educação ambiental.

Seu desenvolvimento se dá de forma interdisciplinar, tendo a pesquisa como princípio educativo, onde realizamos estudo bibliográfico sobre a temática, pesquisa de material pedagógico, reuniões, formações, oficinas, mini-cursos, estágios, troca de experiências, cultivo prático de algumas hortaliças e o seu aproveitamento máximo no preparo de sucos, sanduíches naturais e refeições alternativas.

Atividades lúdicas, dinâmicas e interativas, despertam a sensibilidade e cooperam com o processo de conscientizar comunidades envolvidas a partir da realidade do ambiente dos alunos. A abordagem do lúdico chama envolvimento interdisciplinar e facilita a utilização de técnicas para o entendimento de questões ambientais, consequentemente, motiva a mudança de olhar e comportamento de professores e alunos, incluindo outros atores sociais na preservação ambiental.

Sabemos que a “brincadeira” é uma atividade inata ao ser humano, os jogos propiciam a simulação de situações-problema que exigem soluções imediatas. Planejam-se ações que também requeiram uma atitude positiva diante dos erros percebidos e que podem ser corrigidos, embora saibamos que a formação da consciência cidadã é um processo continuado de desenvolvimento humano.

Aproveitamos a cultura das brincadeiras locais, como a “corrida do bocó”, ou as mais tradicionais de roda ou cantadas, como a do “bom barqueiro ou passarás”, arrumamos espaços para o “cadinho de arte” e as expressivas paródias, recolocando a valorização dos recursos naturais, a expressão corporal, a percepção, a sensibilização e importância de uma alimentação natural, também como conteúdos.

As atividades desenvolvidas no projeto se estendem às Unidades Pedagógicas do Seringal e da Faveira, na ilha de Cotijuba, e a do Jamaci, na ilha de Paquetá, além da Escola Sede, na ilha de Caratateua. O projeto recebe visitas com ações práticas de cultivo com o preparo de sucos naturais envolvendo hortaliças e frutas regionais da época.

Reapresentamos aqui novas imagens das práxis desenvolvida na escola com turmas de educação infantil ao ensino médio profissionalizante, ampliando postagem anterior sobre Horta Escolar, para visualizá-la clique aqui:
Espaço Post-Scriptum

Por que reinterpretar as trilhas da escola? Toda pessoa escreve e reescreve o seu próprio lugar e tempo a partir de sentimentos, conceitos, princípios e valores que vão sendo constantemente ressignificados com a leitura de mundo e quer compartilhar saberes com outras pessoas. Com os recentes avanços tecnológicos e a ampliação das relações sociais na rede de computadores, começamos a remixar a realidade de forma mais participativa, dialógica, consciente e comprometida com tudo o que vivenciamos e repensamos em nosso cotidiano.
A arte de remixar essa realidade vívida modificou conceitos na arte de blogar na net, até chegando a twittar para melhor interagir conhecimentos, sentimentos, impressões e incluindo outros temas que rolam nas telas e aceleram a troca de idéias, informação, sensações, vivências e redimensionam o sistema nervoso da humanidade. Twittar é como remixar conceitos, saberes, conversas e humores on line. Nova escrita no ar.
O virtual se re-humaniza com os blog e mini-blog da virtuosidade humana. O problema para mim, neste momento, é arrumar o tempo para cuidar dessas dialogias que pululam na timeline, sei que tudo é uma questão de adaptação. Como melhor administrar o tempo diante de tantas prioridades, é o questionamento do momento que me faço e o desafio que me coloco a pensar.

Referências
ALVES, Rubem. A arte de produzir fome. Disponível em: http://rubemalves.wordpress.com/category/a-arte-de-produzir-fome/
CAPRA, Fritjof et al. Alfabetização ecológica: a educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, 2006.
CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2008. 
ELIAS, Marisa Del Cioppo. Célestin Freinet: uma pedagogia de atividade e cooperação. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
FREINET, Celestin. Pedagogia do bom senso. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
_______. O método natural II: a aprendizagem do desenho. 2 ed. Lisboa: Estampa, 1977.
_______. O método natural III: a aprendizagem da escrita. 2 ed. Lisboa: Estampa, 1977.
MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. 2 ed. São Paulo: Peirópolis, 2000.
SNYDERS, Georges. Alegria na escola. São Paulo: Manole, 1988.
Imagem 1:
Imagem 2: http://www.jardimplantasmedicinais.com/wp-content/uploads/2010/04/hortela.jpg

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Amigo de Deus e o poema do Amor Genuíno

Simplesmente essa é a história de São Paulo, versão narrada por Taylor Caldwell, porém, em meus intertextos da vida.

Saul vivia mundos paradoxais em Tarso: debatia-se com o seu interior austero que seguia Deus sobre todas as coisas, primeiro através da leitura das escrituras de seus mestres desde a infância e das conversas com seu pai judeu e depois quando perseguia Jesus e os nazarenos até se transformar no amigo do Divino. Por parte de mãe, seu avô também de muitas posses, luxos e escravos, vivia em Roma e era amigo de Pôncio Pilatos e Herodes. Sua bela mãe tinha comportamento infantil, desde que Saul nasceu, achava-o “muito feio”, seu pai lhe dizia que um filho é um filho e por isso deviam os dois agradecer a Deus, cujo nome era sempre louvado naquela casa, até porque antes ela havia parido só meninas mortas.

Débora, a mãe, queria dar-lhe o nome de Irra, e Hillel, seu pai, disse que deveria se chamar Saul, por ser um leão de Deus, sua mãe insistiu por Paulo, de som aristocrático para gregos e romanos, e por Tarso, porque só em bárbaro aramaico poderia se chamar Tarso de Tarshish, mas, seu pai convicto chamou-o de Saul de Tarshish.

A obstinação por Deus, alimento de sua fé judia, fê-lo afastar-se do calor humano, assim como, para ele, admirar o mundo era como esquecer Deus. O mundo feito pelas pessoas era abominável.

Na terceira década de vida, em um navio de Jerusalém a Tarso, após notícia de falecimento de seu pai Hillel ben Borush, encontrou-se pela primeira vez com Lucano, ou Lucas como é conhecido o evangelista, ali os dois perceberam que um perseguia Deus e o outro perseguia homens. Um discreto, terno, piedoso e desgostoso das adulações e servilismos do homem queria curar todas as enfermidades humanas. O outro com perfil crítico, fisionomia agressiva, reserva altaneira, ar distraído e vago, olhos angustiados, boca amarga e passos irresolutos menosprezava toda a humanidade. Um se afastou de Deus, condenou-O e rejeitou-O. O outro afastou a si mesmo e condenou e rejeitou o homem.

Um enfurecido com Deus porque perdeu para Ele seus entes queridos, procurava aliviar o sofrimento de outras vítimas desse Deus. E o outro se enfurecia por ser o homem a aflição, um insulto contra Deus, o ser desprezível que, sobre os membros inferiores, ousava encarar o Inefável e interrogá-Lo!

Em sua conclusão, Lucano disse a Saul que eles só poderiam discutir baseados em suas próprias experiências e não nas dos outros, pois ninguém sabe o que se passa no coração das pessoas. Mas, que poderiam sim ser bons amigos apesar dessas suas diferenças. Portos diferentes. Caminhos opostos. Temperamentos singulares. O acaso seguia.

Alguns reencontros se sucederam e diferentes acasos aproximaram Lucas de Paulo.

Uma pausa ao questionamento ao tanto que me inquieta: por que Ele escolheu Paulo e Lucas para falar aos gentios, tão diferentes dos onze discípulos vistos como pessoas amáveis, porém, de condição humilde, inofensivas como pombas, pobres e simples, sem violência ou teimosia? Compreensão mergulhada nos mistérios e na ignorância humana que busca perguntar, descontruir-se nos processos do aprender.

Paulo e Lucas nasceram em famílias nobres e estudaram em Universidades. Um advogado e o outro médico, um cidadão romano e outro grego, um era primo do general pretoriano, o outro filho adotivo de nobre romano, centurião, tribuno e procurador na Síria, soldado favorito de César Augusto. Um era fariseu erudito e judeu religioso, o outro considerado gentio, sabia da história do “Deus Desconhecido” dos gregos, dos pagãos, dos bons, dos escravos, dos ricos, dos miseráveis, dos maus, das plantas, da terra e dos animais, alguém muito amoroso que estava presente em toda parte. Os dois não estiveram com Jesus durante toda a sua peregrinação pela terra, como os demais apóstolos. Um encontrou com Jesus no seu caminho por três vezes e o outro sequer viu ou ouviu Jesus.

É notável a amizade e o carinho de Paulo para com Lucas, além do distanciamento de Pedro e demais apóstolos. De perfis bem diferentes percorreram caminhos opostos.

Paulo fariseu erudito e judeu religioso, homem de posição e família, cidadão romano, executor da lei, advogado e pertencente a uma notável casa de Israel. Durante o tempo que perseguia Jesus ou seus seguidores, se perguntava ou aos outros: como podem dizer que esse Yeshua de Nazaré – um simples professor ambulante, originário de Nazaré, que só falava aramaico, carpinteiro numa miserável aldeiazinha, aquele que provocou conflitos, despertou a ira perigosa dos romanos contra todos os judeus, inculto, rabino esfarrapado, impostor, presunçoso, louco, trapaceiro, vagabundo, mentiroso e blasfemador, ignorante Galileu, desconhecido de todos – é o Messias, o Santo de Israel?

E ainda completava que todos tinham sido enganados por um falecido dissimulador, hipócrita, louco e patife! E que esse malfeitor morto não teria inimigo mais encarniçado do que ele, Paulo, o mesmo acontecendo aos Seus miseráveis discípulos.

- Mas, José de Arimatéia, amigo da família, disse a Saul, “um dia, Ele não terá maior amigo que você...”.

A luz no deserto, a caminho de Damasco, despertou Saul de sua cegueira profunda e o fez levar o amor de Deus ao mundo.

Nessa história é notável ver a amizade e o carinho de Paulo para com Lucas, apesar do distanciamento de Pedro e demais apóstolos. De perfis bem diferentes, Pedro e Paulo percorreram caminhos opostos, porém, convictos do Amor ao Messias, Salvador, Rei de Israel, ou seja, ao "Deus Desconhecido", de gentios e romanos.

Lucas, entretanto, foi companheiro de Paulo até o momento derradeiro, percebeu-se abandonado pelos homens, mas, não por Deus, quando registra melancolicamente, com a mão trêmula e rugosa: "só Lucas está comigo" (2Tm 4:11). Lucas escreveu o seu Evangelho a pedido de São Paulo e fez o relatório dos Atos dos Apóstolos. São Paulo, para os romanos e judeus, era o apóstolo das gentes.

Já conhecia a história de Lucano (apóstolo Lucas), o mestre de homens e de almas, por Taylor Caldwell, e agora a de Saul de Tarshish (apóstolo Paulo). Sei também pelo que li em diferentes fontes que a autoria do primeiro retrato de Maria com o menino Jesus é atribuída a Lucas. A descrição da menina-mulher que teve Jesus aos 14 anos que Lucas nos apresenta, em Taylor Caldwell, é encantadora. Ele esteve com Ela na típica casa de Jesus Nazareno.

O destaque dessa peregrinação de Paulo, que tanto fugiu do amor humano, considerado “muito feio” desde que nasceu pela própria mãe, assustava as pessoas por sua forma austera, nos mostra a infinita harmonia e beleza que exprime em um dos poemas mais sublimes que já li, encontrado na Carta de “Saul de Tarshish” aos Coríntios, capítulo 12. O apóstolo dos gentios, apesar de judeu e romano, rejeitado pelos seus, tornou-se o apóstolo das gentes. E nós que somos gentes, recebemos o legado desse belo poema, a nos fazer aprender a todo tempo sobre o Amor:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.

A beleza é harmonia. E quando a beleza humana exterior exprime a harmonia interior do ser humano, resplandece com mais intensidade... Paula amava a todos.

Nunca se casou, teve um único envolvimento amoroso na adolescência com uma bela moça, no caminho de seus estudos, era escrava e dela nasceu seu único filho, fato conhecido e por acaso somente na juventude do filho e adotado após vinte anos de nascido, porém, faleceu amando o Messias com sua esposa e filhos, netos que Saul não chegou a conhecer. Paulo foi também amado por outra bela mulher, que desse amor abriu mão para que Saul seguisse o seu caminho. Admirava o amor de sua irmã por seus filhos e depois de morta, reconheceu o amor de sua própria mãe. As mulheres moravam em casas separadas dos homens e serviam aos maridos naquela época, mas, muitas delas eram sábias e orientavam esses maridos ao Messias com palavras certas, amenas e bem temperadas. Mesmo as mulheres dos nobres romanos. Saul descobria aos poucos a força do amor e na fé das mulheres que o aqueceu por tempos sombrios, porém, divinamente humanos.

O poema do amor ganhou muito mais significado após ler a história de Saul de Tarshish reafirmando ainda mais o encantamento por Lucano, leitura da adolescência. Já havia lido outras duas versões de Paulo de Tarso.

Amamos de forma tal que buscamos expressões para significar o que o belo faz em nós, muitas vezes sem perceber o inefável que tempera nossos atos. Ali em Paulo, particularmente, redescobri o fenômeno que nos faz sentir gente em meio às tempestades da vida e no deserto de muitos corações, a luz que reencanta e transforma nosso olhar. Perspectivas despontam e se redefinem nas páginas que nos faltam trilhar, escrever, incluir ou reeditar em nossas releituras, rolagens reinventadas, navegações históricas, peregrinações tecnológicas, bricolagens complexas, escrituras humanas e abraços transcendentais nas teias da Vida que nos enredam, nos acolhem e sublimam.

Muita paz e Amor a todos nós!


Imagem 1: http://4.bp.blogspot.com/_vBQVD3n59mo/SlJ0CeFaO7I/AAAAAAAACWI/M9El_lK-IRY/s400/estudo+do+evangelho+de+lucas.bmp
Imagem 2: http://www.techs.com.br/meimei/paulo%20de%20tarso/paulo.htm
Imagem 3: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/outubro/dia-de-sao-lucas-5.php
Imagem 4: http://www.arautos.org/artigo/19189/Sao-Paulo--o-gigante-da-Fe.html

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Horta escolar: explosão de formas, texturas, cores, sons, cheiros, temperaturas, sabores e esperanças

A horta da escola foi concebida para ser um espaço de vivência e observação, troca de saberes e experimentações de ideias, olhares, toques, pitadas, pitecos e sabores entre crianças de todas as idades, professores de todas as áreas, as famílias do alunado e funcionários que também atuam nesse espaço pedagógico, além de novas experimentações e da conversa espichada com visitantes ou outras escolas.

Do espaço concebido surgiu o projeto “Horta do Conhecimento”, como uma teia adubada de múltiplos sabores e saberes, tecido e continuamente ressignificado pelas professoras Aida e Mary, desde 2006.

A característica do projeto é se misturar aos projetos pedagógicos das salas de aula e convidá-las a expandir suas paredes também para o espaço da horta. Paredes imaginárias. Campo aberto. Interações aprendentes.

No cotidiano desse ir e vir, sala-horta, percebeu-se que o caminho das trilhas era também espaço de conhecimento, pois, integrava os dois ambientes pedagógicos, e aos poucos, ganhou identidade própria, pois, aqui, ali e mais adiante emanam cheiros de mato, terra, vida, percebem-se movimentos de bichos diferentes, do tempo das plantas, da associação climática, dos brinquedos, dos cantos e das poesias, mas também de suspenses e medos das releituras da mata que perfilam imaginários e desfilam-se em textualidades viradas de páginas vívidas e delineadas pelas turmas de educação infantil e séries iniciais, atendidas e mediadas pelas professoras.

Recoloco aqui algumas imagens sequenciadas destes movimentos singulares, ímpar de quem nelas se percebe:
- Por que o simples pode ser tão complexo?
(ops! uma frase-questão de efeito?! não sei por que mas me lembrei de minha cachorrrinha Kika, daschund / salsichinha, quando sabe que fez travessura e daí vem ela de mansinho, na minha direção, com a barriga arrastada no chão, feito uma jacaré, ah! e com o rabo entre as pernas, chega assim bem próximo a meus pés, vira de barriguinha para cima e balança o rabo de um lado a outro como que rebolando, rsrsrs!). Dá para ficar séria? Lembro do rosto das crianças em sala de aula e dava risada com elas. A amizade é mesmo uma coisa séria!! Rir das travessuras é perder autoridade? Tudo depende do jeito que a gente é.

Ao chamar a complexidade, dentre minhas sempre novas aprendências - nem sempre novidade ou mudança, mas, muitas vezes busca de melhor compreensão -, resolvi por aqui trazer Morin, para falar um pouco mais desse meu estado de apetência - de sempre aprender -, pois, me nutro atenta e alerta para o essencial e o autêntico, o frugal e o desfrute, e como Ele, com as devidas reservas e licenças...

"...não sou daqueles que têm uma carreira, mas dos que têm uma vida (...) Passei ao largo dos amores, ainda que não tenha podido viver sem amor: diria até que, sem alta combustão amorosa, eu não teria jamais tido coragem de escrever La Méthode”. (MORIN, 1997, p. 9).

(...) Esperanças mil e paixão de aprender - com as crianças e em nome da Alegria. Sejamos sempre muito felizes!

Referências
MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997.

Imagem 1: http://jc-etc.blogspot.com/2009/02/tentacao-da-maca.html

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A dança do ventre: à fome e à saúde de nossos intestinos

Uma nova licença ao tema do blog, universalizando as aprendências. Ao ler ontem à noite que o dia seis de setembro foi escolhido para ser o dia do sexo, fiquei indignada pela banalização a que chegamos... Tudo é piada, tudo é mercado, tudo pela promoção da felicidade: quem vende melhor? há procura? é uma mentalidade estatuída? somos donos de nosso corpo? Em nome da satisfação, do lugar-comum, a oferta.

Interponho o discurso: talvez esse clima sério advenha da aura que paira em mim, por estar lendo a bela história de São Paulo (Saul de Tarshish), escrita por Taylor Caldwell, após anos intensivos de seus estudos, recebi tal indicação em um dos comentários de virtuosos amigos acerca da postagem "o filho que eu queria ter...", inspirada em outro tempo de estudo de Caldwell, que foram mais de 45 anos dedicados a vida de Lucano (o único apóstolo não judeu, o médico grego que nunca viu Jesus).

Após o tal parêntese, paragrafado acima...

A informação sobre o dia do sexo vem da twittada de outro caro amigo virtual. Remeti a pensar sobre a beleza do significado da Rasa-Mândala, a dança da vida. Mândala significa "círculo" e Rasa é "suprema delícia". Essa dança foi criada pelos rishis, que ficavam enclausurados em suas cabanas sob um frio de até 40 graus abaixo de zero, há milhares de anos antes de Cristo, e poderia voltar a ser praticada, para delícia da humanidade e à saúde física e mental de todos.

Onde li sobre a Rasa-Mândala? Há dez anos atrás, através do livro de Sagy Yunna, iogue que enuncia ser esta dança proibida, considerada pela maioria das religiões, como lasciva e imoral, mas, que poderia ser resgatada, pois todos seus movimentos são naturais e de imoral nada tem. Embora, saibamos que os valores ganham significados diferentes e força ética nas traduções culturais de cada povo, grupo social, família. Mas, que merece ser reestudada e repensada por todos nós.

A dança da Rasa-Mândala para ele, é um caminho, uma senda da jovialidade eterna, caminho que traz a alegria de viver, nos conduz para o sentimento de amar e, por isso, esse cuidar de nós, nos leva também a esbeltez do corpo, boa auto-estima que se relaciona ao meio, nosso corpo é relacional, integrado, composto, interdependente. Segundo o Iogue, “é a única dança que leva o praticante ao êxtase, ao chakra do Kundaline onde o sexo é sublime, o Amor é infinito, a felicidade é total e o estresse é zero”.

Sobre indecência ele continua a nos dizer: “nos tempos modernos, qualquer movimento da Rasa-Mândala não passa de um inocente passo de criança quando comparado a certos movimentos explícitos na televisão. Pedaços ou movimentos simples da Rasa-Mândala ainda são praticados em todo o mundo, como as danças dos índios norte-americanos, correspondentes ao sexto movimento, ou na dança do ventre, correspondente ao 5º movimento”.

Esta foi a dança que o Rei David começou a praticar porque viu suas escravas dançando e percebeu que elas nunca envelheciam. Davi dançou sim! E a Bíblia não registra a condenação de Deus por essa atitude. Ele tirou sua roupa de sacerdote, e dançou para Deus. Quem lembra dessa passagem bíblica? (II Samuel 6.14-16: "E Davi girava acrobaticamente com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi cingido de um éfode de linho").

Registra-se ainda que, os árabes, conhecidos como peregrinos e grandes mercadores, gostaram do quadro do 5º movimento, que beneficiava a saúde dos intestinos e não durava mais de 3 minutos, assim trouxeram para o Ocidente, no século VII, após invasão do Egito, chamando-o de “Dança do Ventre”. O último quadro do sétimo movimento da Rasa-Mândala, ainda mais sexy, os árabes não tiveram coragem de difundir.

Como valor terapêutico, psicossomático, a medicina ocidental poderia resgatar o hábito dessa dança, sua história e prática, que é “ao mesmo tempo exercício físico, prática de meditação, auto-hipnose, remédio para o corpo, veículo terapêutico de indiscutível validade; enfim, algo que a humanidade não deve prescindir para sua saúde e felicidade”.

Se expelimos alguns dejetos, como o do corpo e para o bem da saúde física, há outros que podem também ser expelidos para o bem da saúde pública, e a nos ajudar repensar a nossa brasileiridade, a nos libertar de condicionamentos sociohistóricos e culturais. Com a prática da dança podemos expelir alguns dejetos de nossa mente a aprisionar, a nos automatizar... E sermos mais felizes!

Vamos questionar, de forma reconstrutiva, o jogo político e interesses mercadológicos a manipular mentes, que pululam em nossos corpos relacionais sim, mas, que desejamos cada vez mais conscientes do lugar que ocupam em cada cadinho planetário.

Retomo aqui, a minha inquietação pelo motivo do que se espalha na net de que ontem foi o dia do sexo, curiosamente procurei saber mais, e assim contra o discurso desse tipo "político", bem contrário ao estilo do blog, paradoxalmente, há o clamor do povo decepcionado e da própria região de um tal ex-deputado, turba responsável por colocá-lo lá na tribuna, pois esse parlamentar é o autor que pretende transformar a data de seu aniversário no segundo dia dos namorados, e que ele denomina de o "dia do sexo", são as graças que se fazem nos plenários brasileiros, faz parte do negócio. O "bom" comércio pretende trazer a data para o dia 6/9.

- É tempo de aprender, da revanche nas urnas, é o exercício democrático e de nossa libertação! O que diria-nos Sagy Yunna da suprema delícia estar assim tão "democrática"?

Para ler mais acerca das intenções do ex-deputado e contribuir nos comentários, o caminho está aqui linkado


Referência:
YUNNA, Sagy H. Um iogue na senda de Brian Weiss. São Paulo: WB Editores, 1998.


Imagem 1: http://brisadooriente.blogspot.com/2008/09/mitos-e-verdades-sobre-dana-do-ventre.html
Imagem 2: https://thiagosurian.wordpress.com/2010/06/30/dispenso-dancar-no-culto/

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Amizade à moda da rede: sensações digitais e textualidades

Estudos recentes sobre identificação social, realizado por pesquisadores finlandeses, com mais de quatro mil adolescentes na faixa de 13 a 18 anos, em três países, revelaram que por muito pouco na preferência deles, a família não fica atrás dos amigos virtuais.

- Você acha isso um absurdo? O questionário perguntava sobre o tempo dedicado entre hobbies online e vida real. Veja aqui a reportagem.

E isto me fez pensar sobre o tempo que a nossa geração composta de jovens - há mais tempo, dedicamos também aos nossos queridos familiares, ao trabalho, aos amigos reais ou virtuais, mas, principalmente, o tempo que reservamos a nós mesmos, ao nosso ser, ao nosso estar no mundo, ao nosso aprimoramento...

- Como nosso corpo se relaciona com o meio?

O corpo é um campo expressivo, projeta significações, desenha e faz viver um mundo. Segundo Merleau-Ponty, a cada instante no movimento da existência estamos integrados ao mundo por meio de nosso corpo. A nossa percepção se abre, cria e distribui sentidos, encontra outros corpos, dialoga, conspira-se, redescobre; sujeitos cognoscentes que se percebem, se sentem, se desconstroem, refletem, abraçam dizeres ou reescrevem-se neles. Afinidade que não se exime das contrariedades, mas se forma e até se transforma nesse sentir-dizer-silenciar-aludir-reescrever.

Quais as fronteiras identitárias do corpo? Tenho um corpo ou sou um corpo? O corpo não é uma dualidade: corpo-mente (presença física) ou virtual-real (mundo das sensações digitais, diálogo virtual), o corpo é consciência (não somos prisioneiros da matéria, produto de uma biologia, estamos na textualidade ou no abraço, no espaço planetário ou na blogosfera) o corpo é unidade. O texto é uma unidade de sentido!

Como fazemos amigos? Como identificamos nossos amigos? Pela convivência, pelas palavras, pelas fruições, pelos valores, pelas necessidades, pelas identificações, pelas opiniões, pelo ponto e vírgula, pelo diferente, pelos contra-argumentos, pelas divergências, pelo inesperado, por um conjunto...

Na rede virtual a quem podemos chamar de amigo? Quais são as qualidades que nos atraem? O que buscamos? O que encontramos? Quais as interfaces discursivas?

- Como ocorre a aproximação? Para Palácios (2000), no ciberespaço essa chance de fazer amigos ocorre “dez vezes” mais, primeiro vem o laço, o estabelecimento de afinidades, laços sinceros pela palavra escrita, depois o abraço, a continuidade, a satisfação.

A escrita tem mais força que a proximidade física? A imagem tem mais significado que o abraço? Qual o substrato e sua relação?

- Como é bom ter amigos! Virtuais ou reais? Virtuais e reais.

Em busca da unidade: “nosso destino é tornarmos o que pensamos, vermos o nosso pensamento se tornarem corpos e nossos corpos, pensamento” (McKenna apud Breton, 2003).


Para ler mais, clique nos links abaixo:
- Redes sociais afetam o cérebro do mesmo jeito que a paixão
- Amigos virtuais para sempre

Referências
- BRETON, David Le. Adeus ao corpo. In: NOVAES, Adauto (Org.) O homem-máquina: a ciência que manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
- SILVA, Lidia Oliveira. A internet: a geração de um novo espaço antropológico. In: LEMOS, André, PALACIOS, Marcus (Org.). Janelas no ciberespaço: comunicação e cibercultura. 2 ed. Porto Alegre: Sulina, 2004.


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sábado, 4 de setembro de 2010

Pátria amada: navegantes a clamar-se no esplendor do cruzeiro do sul


Por que será que não falamos da pátria? Por questões de ufanismo? Por desilusões históricas? Por desencantamentos? Por estar sempre atrelada a uma história de civismo que nos fez marchar sem desejos, sem nomes ou singularidades, a não ser a da unidade nacional?

Quando a pátria é lembrada? Só é querida nos esportes e outras representações mundiais? Até que ponto? Das glórias? Quando caímos na real?

Os indicadores estatísticos nos ajudam a pensar? E nos berços, esquinas, becos ou arrabaldes de cada cantinho desta unidade onde estão nascendo nossos brasileirinhos e as brasileirinhas cujas promessas já freqüentam o imaginário das escolas da vida e a respeito da utopia das novas gerações, números que fazem renda ou estimam qualidade de vida...

Essas são interrogações a pulular entre necessidades de repensar projetos, para além do olhar mercantilista e globalizado, de típica competitividade mesquinha neoliberal, que desconhece a palavra ética ou atrela às excelências e cumplicidades, a acelerar a destruição ecológica patriótica, a desafinar mudanças profundas e comprometidas com a felicidade e o bem estar "de todos", sem saber incluir as não-aprendizagens de uma minoria desprotegida em gêneros discursivos ou no oculto das margens em pauta.

Pátria que busca rimar com as utopias e as esperanças de dias melhores para todos, além das propagandas políticas que nos deixam desanimados diante de inverdades e inglórias. Estamos nós libertados ou enodados de silêncios, ausências, mitos, medos e derrotas? A liberdade de imprensa esteve às voltas de ser cassada. Ah! se não fossem os gritos de seus protagonistas - de sonhos intensos, de amor e de esperanças - caracterizando-se em marchas e barulhos, porém, de uso uníssono das vozes varonis, pelas avenidas em raios vívidos.

Os blogs também estão sendo vigiados em sua fluência, habilidade blogosférica, processos colaborativos a nos exigir desafios intelectuais, criativos e co-aprendentes, assim consequentemente, além daqueles que espreitam seus autores, como fariseus, não como visitantes amigos ou seguidores, teremos que nos preocupar com as leis que servem para determinadas situações e limitam tantas ou mais outras. Qual é o interesse? Controlar a palavra de cidadãos comuns, singulares e plurais, de aprendizagem individualizada e mais interativa, sem ou de frente a paradoxos, unidade que não nos robotiza sob marcha única de batida “bumbástica”?

Somos livres! (hic)

Imagem 1: http://www.2regiao.apac.org.br/pesquise/band/bandeira.html
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