segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Amizade à moda da rede: sensações digitais e textualidades

Estudos recentes sobre identificação social, realizado por pesquisadores finlandeses, com mais de quatro mil adolescentes na faixa de 13 a 18 anos, em três países, revelaram que por muito pouco na preferência deles, a família não fica atrás dos amigos virtuais.

- Você acha isso um absurdo? O questionário perguntava sobre o tempo dedicado entre hobbies online e vida real. Veja aqui a reportagem.

E isto me fez pensar sobre o tempo que a nossa geração composta de jovens - há mais tempo, dedicamos também aos nossos queridos familiares, ao trabalho, aos amigos reais ou virtuais, mas, principalmente, o tempo que reservamos a nós mesmos, ao nosso ser, ao nosso estar no mundo, ao nosso aprimoramento...

- Como nosso corpo se relaciona com o meio?

O corpo é um campo expressivo, projeta significações, desenha e faz viver um mundo. Segundo Merleau-Ponty, a cada instante no movimento da existência estamos integrados ao mundo por meio de nosso corpo. A nossa percepção se abre, cria e distribui sentidos, encontra outros corpos, dialoga, conspira-se, redescobre; sujeitos cognoscentes que se percebem, se sentem, se desconstroem, refletem, abraçam dizeres ou reescrevem-se neles. Afinidade que não se exime das contrariedades, mas se forma e até se transforma nesse sentir-dizer-silenciar-aludir-reescrever.

Quais as fronteiras identitárias do corpo? Tenho um corpo ou sou um corpo? O corpo não é uma dualidade: corpo-mente (presença física) ou virtual-real (mundo das sensações digitais, diálogo virtual), o corpo é consciência (não somos prisioneiros da matéria, produto de uma biologia, estamos na textualidade ou no abraço, no espaço planetário ou na blogosfera) o corpo é unidade. O texto é uma unidade de sentido!

Como fazemos amigos? Como identificamos nossos amigos? Pela convivência, pelas palavras, pelas fruições, pelos valores, pelas necessidades, pelas identificações, pelas opiniões, pelo ponto e vírgula, pelo diferente, pelos contra-argumentos, pelas divergências, pelo inesperado, por um conjunto...

Na rede virtual a quem podemos chamar de amigo? Quais são as qualidades que nos atraem? O que buscamos? O que encontramos? Quais as interfaces discursivas?

- Como ocorre a aproximação? Para Palácios (2000), no ciberespaço essa chance de fazer amigos ocorre “dez vezes” mais, primeiro vem o laço, o estabelecimento de afinidades, laços sinceros pela palavra escrita, depois o abraço, a continuidade, a satisfação.

A escrita tem mais força que a proximidade física? A imagem tem mais significado que o abraço? Qual o substrato e sua relação?

- Como é bom ter amigos! Virtuais ou reais? Virtuais e reais.

Em busca da unidade: “nosso destino é tornarmos o que pensamos, vermos o nosso pensamento se tornarem corpos e nossos corpos, pensamento” (McKenna apud Breton, 2003).


Para ler mais, clique nos links abaixo:
- Redes sociais afetam o cérebro do mesmo jeito que a paixão
- Amigos virtuais para sempre

Referências
- BRETON, David Le. Adeus ao corpo. In: NOVAES, Adauto (Org.) O homem-máquina: a ciência que manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
- SILVA, Lidia Oliveira. A internet: a geração de um novo espaço antropológico. In: LEMOS, André, PALACIOS, Marcus (Org.). Janelas no ciberespaço: comunicação e cibercultura. 2 ed. Porto Alegre: Sulina, 2004.


Imagem 1: http://digartmedia.files.wordpress.com/2010/03/house-of-cards-aaron-koblin-2009.jpg
Imagem 2: http://1.bp.blogspot.com/_3dNqxJFw1mw/TG3h4t8_YsI/AAAAAAAAAdA/4xfbIkpYMCA/s1600/x500.jpg

6 comentários:

  1. Belas palavras, Maria! (clap clap clap)
    Sinta-se aplaudida.

    Não tenho respostas às questões levantadas no texto, porém tenho pensado nesse assunto nos últimos dias. Principalmente, depois que comecei a usar o Twitter com mais frequência. Vejo, nessa ferramenta, um imenso potencial de comunicação, de interações e trocas.

    As redes sociais na internet são muito novas ainda, mas já vivenciei a sensação de passar amizades do virtual para o real. Com a web, nossos braços se tornaram mais longos, temos maior alcance e isso amplia o número de pessoas que conhecemos. Consequentemente, as chances de fazer novos amigos aumenta muito.

    Forte abraço!!!

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  2. Oi Max!
    Essa é uma nova definição, dá um bom estudo antropológico, movimenta sentimentos, necessidades, histórias e culturas... Faltas, ausências, desejos, utopias, a psicologia pode tentar explicar. Legal, novo campo de estudo, a internet está farta de vida, tecnologia, ideias, sensações, projeções, esperanças.
    As leituras, as multilinguagens se inovam nessas possibilidades e interações da rede... Novas alfabetizações, novas satisfações.
    As formas de dizer, as amizades estão na ponta de nossos dedos, no corpo inteiro. Que legal, já passaste pela experiência de transposição virtual-real!!
    Outro forte abraço!

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  3. É instigante pensar nas possibilidades desse espaço para encontros reais, potentes, vitais... mas eu me confesso meio old fashion. Sou pessoa de amigos escolhidos (mesmo os virtuais), parece que não dou conta de me conectar com muitos e tantos... vou sempre no ritmo do olho a olho. Só assim me sinto em casa, pelo menos até agora.
    Acho também que nada supera a proximidade do quentinho da pessoa... Estou aberta a pensar nessas novas possibilidades, quero compreender esse caminho como bacana também, mas ai ai ai, um abraço real é tão tão bom...

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  4. Querida Adrianne!
    O aconchego do abraço nos faz bem tanto quanto vivermos, não através de uma rede de computadores, mas, dialogarmos em uma rede de pessoas, uma rede de amigos e nelas as escolhidas por alguma afinidade ou necessidade, sei lá. Cada cantinho de nossos amigos virtuais é uma palavra, uma imagem, um gadget a nos tocar na extensão de sua textualidade, enfim, podemos até dizer que a sua casa é o seu blog, como ali se prepara para nos receber, o que queremos ou não ouvir, espaço de respiração, tempo de fala, tempo de silêncio. É um novo conceito de amizade tão real quanto as "presenciais", fazemos nossas aproximações, transposições e dentre ela o "abraço virtual". Como definimos esse abraço?
    - Posso dizer que amigos virtuais, como você, são mesmo reais dentro do meu coração...
    Um afetuoso abraço!

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  5. Penso que trata-se apenas de meios diferentes de criar laços. Não tem como um substituir o outro. Embora o abraço pessoal seja bem mais caloroso, também é possível sentir os acalentos virtuais dos amigos que fiz na rede. Vejo as relações virtuias como uma outra forma de me sentir menos só no mundo, vendo que outras pessoas, ainda que a distância, podem partilhar dos mesmos sentidos e sentimentos que eu. É importante a relação olho no olho, amizades que vão desde a infância e ganham sentido a cada dia que passa, mas porque não aprender outros laços?

    Meus amigos virtuais, assim como os reais, são poucos, mas com certeza me fazem ter bons motivos pra ligar o computador e me sentir abraçada. É o que sinto muitas vezes ao vir aqui.

    Bjinho!

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  6. Olá Isabele!
    Seja bem vinda neste cantinho que adora receber seus amigos. Pois é os amigos são mesmos insubstituíveis, tanto virtual como presencial, estão muito presentes em nós, não é mesmo? Me dá enorme prazer de digitar estas palavras, é o que chamei de emoções digitais, a sensação de se querer bem. Adoro passar por lá na "pedra do sono" e conhecer seus amigos virtuais e a interação através de sentimentos, percepções, sonhos, poesias... A vida ganha mais sentido para todos. Os nossos amigos tão próximos de nossos abraços continuam nos acompanhando sempre. Viva a amizade e nossas aprendências!

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