sexta-feira, 18 de março de 2011

Quintais e suas releituras: as caudalosas ideias amazônidas

Quintais
Há tanta beleza, esconderijos
e mistérios nos quintais...
Nas fachadas não.

Os quintais
Contam segredos e o jeito de ser do dono
Que arquitecto nenhum põe no papel...
As fachadas não.

Os quintais
têm personalidade de filho do avô, do neto...
eles têm alma... poesia...
As fachadas não.

Nos quintais muitas vezes há o ganha pão,
Numa horta, galinheiro, varais,
Oficina e porão...
Nas fachadas não.

Os quintais não têm pretensões,
não são esnobes,
não se pintam...
Eles têm aconchego, calor, conteúdo.
As fachadas não.

Nos quintais
há mais suspense...
O proibido dá sensação...
Mora o cachorro, o rato,
o coelho, a cobra, o pato
e há o pulo do gato... ladrão!
Nas fachadas não.

Os quintais
inspiram antigos bate-papos,
assuntos sérios, cochichos e opiniões.
As fachadas não.

Os quintais
se estreitam se unem entre si,
aparam quinas e arestas
como se dessem as mãos.
As fachadas não.

Os quintais dão sombra e água fresca,
dão abacate, paz, laranja, mamão,
dão ainda tranqüilidade...
alface, chuchu e limão...
As fachadas não.

Os quintais
são descobertos desnudos...
São terra, adubo, luar e chão.
Recebem chuvas sementes e orvalhos...
As fachadas não.

Os quintais
têm tesouros guardados,
têm balanços e brinquedos bem brincados!
Neles, o verde, de improviso,
cresce solto... livre... desalinhado...
As fachadas não.

Os quintais
são verdadeiros, disformes, tortos...
Têm entulhos... bagulhos...
lixos... pardais...
As fachadas não.

Os quintais
não se aprontam para visitas
nem se mostram curiosos.
Dão festas só para os amigos...
As fachadas não.

Os quintais
têm fogão de lenha, com chaminé.
Teia de aranha, carvão...
têm samambaias e avencas espontâneas...
As fachadas não.

Os quintais
não se reformam...
são relíquias intocáveis
onde um degrau, um banco,
uma escada de pedra
alguém que não mais existe, fez.
As fachadas não.

Os quintais
mais que do patrão,
eles são dos empregados...
Há serestas, seresteiros,
redes franjadas, violão...
As fachadas não.

Nos quintais
as fantasias nossas de cada dia
e a nossa infância é resguardada...
As lembranças brincam a ciranda do tempo
e morrem de medo de assombração...
Nas fachadas não.

Quintais
o que mais gosto neles
é que, por mais que se pareçam,
não existem dois iguais.
As fachadas... não!

(Guiomar Paiva)


Os quintais do lugar donde a escola está situada são grandes em suas belezas. Cheios de vida e identidades.


Crianças precisam deles. É a alma infantil e o seu contexto que nos faz adultos mais felizes e amorosos. Apartamentos limitam o horizonte das inteligências.


Como a escola está num bosque ela representa a extensão de seus quintais. O quintal da escola é de todos! A floresta e as águas amazônicas dão cores, texturas e as magias que textualizam aquele lugar.


Tudo isso movimenta saberes e situam as aprendizagens. O questionamento reconstrutivo faz a diferença nas relações aprendentes.




Referências
Martins, Isabel Minhós. O livro dos quintais. Planeta Tangerina
Paiva, Guiomar. Quintais fachadas não. Editora Novo Mundo, 2007.
Tavares, Cris. Quintais. Editora Salesiana, 2008.


Imagem 1: http:www.lunaeamigos.com.br/varal/indice/varind0901.jpg
Imagem 2: http://1.bp.blogspot.com/_emnn91NfcSM/TUg4ws2YLUI/AAAAAAAACWA/sfDEAONL1-c/s1600/abril.jpg

2 comentários:

  1. Lindo poema, Maria!

    Cresci em quintal, e nossa, quantas lembranças! Fico triste quando vejo escolas tão feias e mal cuidadas, sem a menor condição de ser uma extensão de nossas casas, muito menos de nossos quintais!

    Carinho com cheiro de quintal de terra.

    Isa

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  2. Isa,

    Que os quintais floresçam e frutifiquem a árvore luminosa para alimentar diferentes gerações. "Quando a gente [ama]. Claro que a gente cuida".

    Sempre é muito contar com o teu olhar sensível e poético por aqui.

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