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O singular e o plural / O sujeito e o objeto se misturam, como nesta obra de minha cunhada Miriam Gonçalves |
Alguns equívocos de se trabalhar a
palavra gera exaustão na criança, no alfabetizando. O professor desconhece o
que Vygotsky chama de aprendizagem e desenvolvimento. Como uma criança aprende? Como um sujeito aprende depois de ter feito etapas mal feitas em sua
escolarização?
Paulo Freire nos apresenta a palavramundo
quando reitera por vezes que a palavra mundo precede a palavra da criança, ou seja,
“a leitura de mundo precede a leitura da palavra”. E que para Vygotsky (1991,
p. 132) “uma palavra é um microcosmo da
consciência humana”, por isso nos mostra que a palavra está na criança e em
sua rede de significados, a qual reinventa sentidos ao bel prazer e para nosso
deleite. Vamos aproveitar e também debulhar a palavra, pois, Sônia Kramer diz
que a palavra precisa ser trabalhada logo em seguida. Código e Sentido juntos
debulhados e enredados.
E falando de nosso ou de outros microcosmos...
Lembra da tagarelice de Emília quando
fazia a sua “reforma da natureza”? A danada aproveitou que Dona Benta e todo o pessoal
do sítio foram chamados para reformar o mundo na Conferência da Paz (Paris, 1919), que ocorreu logo ao final da Primeira Guerra (1914-1918). Lá se buscava reescrever um tratado a partir do depoimento dela com a Tia Nastácia. Afinal,
as duas mulheres sabiam como melhor governar a paz e a alegria do sítio através
de sua Humanidade e Bom Senso - admirava-se o Duque de Windsor lá "pelas zoropas" e pra banda da Inglaterra.
Pois é, as duas tinham o Visconde como consultor científico.
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Noventaequatropéia e o espanto das gentes. Monteiro Lobato e a Reforma da Emília |
E lá pelo Sítio, sósórósósó a Emília
foi aprontando, mas, orientava os bichos a ajudá-la a fazer uma outra reforma e
bem diferente de tentar modificar a humanidade, mas, não esquecia da natureza
humana em todo rebuliço, e olha lá um olho no pé e bem no “mingo” para evitar
tropeços nas pedras, espinhos e estrepes. Assim deixou Emília, os ditadores com
as mulheres do sítio de bom senso, munidas de belo espírito prático e tão cuidadosas
de tudo, porque arretada do jeito que era, faria ela, a boneca de pano, um
grande escândalo internacional.
Tênia Emília, com a ajuda de sua
amiga rã, e no laboratório oco de uma árvore foi criando o passarinho-ninho, a
noventaequatropéia, o livro comestível, o porco magro, o sei-lá-que-animal-é-esse,
o bule que apita, o pernilongo cantor, a gaiola de cabelo, as pulgas moles e
paradas no meio do ar, as moscas sem asas, a reforma na vaca mocha, a reforma
na personalidade das borboletas azuis. E seus tantos enxertos in anima vile em formiga, grilo, minhoca,
pulga e centopéia reaproveitando aulas sobre glândulas e outras fisiologias...
Depois, bem foi ela mexer com “O
espanto das gentes”...
Quantas crianças por aí afora não
realizam seus experimentos, inclusive questionando e reinventando palavras como
é o tal do “biriquitote xefra”, do
Marcelo Marmelo Martelo da Ruth Rocha.
Cada aluno que chega, traz
consigo a vontade de encontrar os seus colegas, de brincar, de “aprender muitas
coisas”, de reinventar coisas e palavras tais, enfim, percebemos que o afeto
medeia as atividades, influenciados pelo mundo interior e exterior. Não se pode
separar o sujeito de seu objeto, há ali influências mútuas, conhecimento
adquire dimensão de autoconhecimento, a formação da consciência crítica é
primeiro passo de toda proposta emancipatória. O que seria uma reinvenção?
Giroux e Freire pensam na
perspectiva de currículo que conteste os modelos puramente técnicos, segundo
Silva (1999, p. 55), “a concepção
libertadora de educação de Paulo Freire e sua noção de ação cultural
forneciam-lhe as bases para o desenvolvimento de um currículo e de uma
pedagogia que apontavam para possibilidades que estavam ausentes nas teorias
críticas da reprodução então predominantes”.
Nada de exaurir a criança ao
be-a-bá sem sentido, reproduzindo uma palavra só ao longo de um projeto
pedagógico. É preciso agregar a produção de sua palavra (objeto-sujeito) na palavra
do outro (objeto-sujeito). Ela precisa produzir sentido em tudo o que aprende,
caso contrário o seu pensamento com suporte na memória reprodutiva não consegue
criar de tão cansada fica.
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A palavra "açaí" e seu - nosso microcosmo |
À aprendizagem segue o
desenvolvimento, segundo Vygotsky, é preciso que a palavra focada seja vista em
diferentes contextos ou gêneros literários. A nova palavra se desdobra nos
significados. Do Açaí, Yasaí, Fruta-que-chora, Açaizeiro, Vassoura, Corrida de
Bocó, Corrida de Peconha, Macaca, Brincadeiras, Trabalho, Colheita, Venda,
Comércio, Fome, Boca Roxa, Boca Pálida, Energia, Tapioca, Peixe, Carne-de-sol, Bicho
Barbeiro, Higiene, Bacaba, Barco, Casquinho, Trapiche, Icoaraci, Ilha, Rio, Ribeirinho,
Águas, Fluxos, Movimentos, Luta, Luto, Alegria, Música, Dança, Festa, Ecojóia, Safra,
Trabalho Infantil, Escola, Cidadania, Vida!
A palavra Açaí se desdobra em tantas
outras, não é mesmo? Então nada de ficar exaustivamente o ano inteiro trabalhando
só com ela. Sósórósósó Açaí? Bem, cria-se o “mapa mental” bem legal com o alunado.
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Contraste... |
Qual a diferença do açaí e da bacaba,
da vassoura e da “corrida de Bocó”, da fome e da energia, do hematófago bicho
barbeiro e do piolho no cabelo, do modo de tomar açaí nas praias cariocas e de tomar
açaí no festival de Inhangapi (PA)?
O texto escrito ou imagético da
criança não é um vir-a-ser, ela é um sujeito social e histórico, dotada
de linguagem
própria que traz consigo uma visão de mundo e o dizer característico de sua
gente, assim se respeita e se constrói a sua autorreferencialidade através da
multirreferencialidade no processo ensino-aprendizagem.
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Casquinhos abarrotados de açaí |
Ou seja, "a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo", dá
a criança gostosamente a oportunidade de "escrevê-lo ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de
transformá-lo através de nossa prática consciente" (Freire, 1989, p.22),
de uma práxis que permita a criança repetir, re-criar, re-viver a palavra e reinventá-la no texto que representa. Como também cooperar na reforma
da natureza - humana - se preciso for, coisas de boneca que vira gente e espanta
as gentes com medo do minhocão que vem vindo ou daquele que não "olha-pro-caminho-quem-vem".
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Capa Original - 1a. edição 1941 |
Pois é, o minhocão botou os moradores para
correr. E os jornais do mundo inteiro noticiaram e os canhões antiaéreos
tentavam atirar contra a Coisa Preta lá de Juiz de Fora corrida pro Canal do Panamá e resolvida a beber sangue dum cavalo velho americano e a fazer as
pulgas morrerem estataladas. Mas, que estranho fenômeno, hem Dona Pituitária?
Alguém por
acaso sabe do monstro que assustou o mundo naquele lugar e no auge do café?
Coisas estranhas estão a
acontecer aqui e acolá. E o texto do aluno a deslumbrar a vida e a nos fazer
rir ou chorar - de tanto rir ou chorar mesmo. Quais as hipóteses das crianças e dos demais leitores? A coisa está mesmo
preta! rs
Referências
FREIRE,
Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
São Paulo: Autores Associados, 1989.
LOBATO,
Monteiro. A reforma da natureza. 38 ed. 13ª. reimpr. São Paulo:
Brasiliense, 2004.
ROCHA
Ruth. Marcelo, Marmelo, Martelo e outras histórias. 42 ed. Rio de
Janeiro: Salamandra, 1993.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
VIGOTSKII,
Lev Semenovich; LURIA, Alexander Romanovich; LEONTIEV, Alexis N. Linguagem,
desenvolvimento e aprendizagem. 10 ed. São Paulo: Ícone, 2006.
VYGOTSKY,
Lev. Pensamento
e linguagem. 3 ed. São Paulo; Martins Fontes, 1991.
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