domingo, 3 de outubro de 2010

Fenônemo Bullying: do lodo belas flores brancas

Estava lendo esta definição sobre a “flor-de-lotus”...

Tal como a flor do lotus cresce da escuridão do lodo para a superfície da água, abrindo suas flores somente após ter-se erguido além da superfície, ficando imaculada de ambos, terra e água, que a nutriram - do mesmo modo a mente, nascida no corpo humano, expande suas verdadeiras qualidades (pétalas) após ter-se erguido dos fluidos turvos da paixão e da ignorância, e transforma o poder tenebroso da profundidade no puro néctar radiante da consciência Iluminada (bidhicitta), a incomparável joia na flor de lotus”. Suas raízes ficam na profundidade sombria, mas, a flor se ergue sob a luz, síntese viva do mais profundo e elevado, de escuridão e luz, de material e imaterial, de limitações da individualidade e da universalidade ilimitada, de formado e do sem forma. Para ler mais, clique aqui.

... não pude deixar de relacionar e reanimar nosso trabalho em escola pública. No meu caso, um pouco mais de vinte anos como professora e porque ainda estudei em escola pública do 1º ano primário até o 2º grau e na mesma escola. Por lá cursei dois segundo grau na época: magistério e administração, e em seguida os estudos adicionais em pré-escolar.

- Por que acredito nas crianças e sonho com uma educação que consiga remexer com as realidades que atravessam as nossas escolas?


A flor-de-lotus é uma boa metáfora para nossa jornada e caminhos de vida.

- O que temos feito na escola?

Procuramos conversar sobre Bullying, usando recursos do power point, através de imagens e frases retiradas do cotidiano acerca de conceitos e significados, ou seja, de como cada criança ou (pré)adolescente, matriculado em turmas do Ensino Fundamental I e II, percebe e vivencia essa realidade bem de pertinho, seja como testemunha, alvo, autor ou alvo-autor, e nos diferentes espaços da escola. Pensares, sentidos e dizeres comunicados através das releituras de seu imaginário em forma de discursos escritos ou ilustrações.

Em seguida apresentamos o vídeo “A ponte para Terabítia”, por ali se visualizam diferentes situações Bullying, com mais ênfase nas turmas do Ensino Fundamental II, e destaque às cenas da hora do recreio que traz alunos menores, mas, esse mesmo filme inclui sonhos, fantasia, poesia, escritas, amizade, reconstrução diária, relação entre sonho e realidade, possibilidades, mudanças, transformação.

Nos trabalhos analisados, de quatro turmas, percebeu-se o quanto o alunado gosta de tratar do tema, se interessa a interagir com colegas, amplia debate, revela testemunhos e se coloca a escrever ou desenhar de forma autônoma, com segurança, uma pitada de receio, certa inquietude, espia o trabalho do colega ao lado e do outro, revelando também muita vontade de dizer algo. Confidências? Muitas vezes, suas escritas se tornam dialógicas, como se quisesse rediscutir regras de convivência e com certo gosto dar puxões de orelhas, como se nada acontecesse consigo. Entretanto, percebe-se mais reservas e tensão no papel e mais liberdade na linguagem oral com o(a) professor(a) mediador(a) em sala.

Algum substrato da percepção primeira:

Em uma turma do último ano do Ens. Fundamental II, 50% declara vivenciar Bullying, como testemunha (18%), como alvo (14%), como alvo e autoria (18%). A outra metade fica mais no discurso, conceitua, sugere ou pede ajuda à escola, colegas, pais ou responsáveis, conselho tutelar ou a polícia.

No 5º ano ou 4ª série, 50% dos alunos criam situação-problema e buscam solução (separar brigas, ter consciência e mudança de atitude, problema consultado ou transferido e resolvido na escola), este conjunto classifica como agressão física (40%) ou representa (10%) enquanto agressão moral. A outra metade da turma prefere sublimar ou reutilizar o tema, isto não quer dizer, que se desvia do tema, há subtextos, entrelinhas e entretantos. Fala sobre afetividades e interação sem sequer tocar na palavra. Saída pela tangente? Autodefesa? Outro modo de ver e dizer?

Na turma de 4º ano ou 3ª série, a maioria (93%) prefere escrever sobre regras de convivência, o que está certo ou errado com tendências a punições ou recompensas. Os outros 7% resolvem encarar o tema destacando, por exemplo, cena do filme e falando de suas identificações e sonhos.

A segunda turma de 5º ano ou 4ª série, unanimemente tece discurso moral através de regras de convivência em seus discursos escritos após palestra. E após sessão do filme, somente, 5% da turma discutem o assunto. A maioria da turma prefere falar ou ilustrar a amizade, a poesia, o amor, a aventura, a magia, a alegria.

- Por que esse tema parece dolorido aos alunos?

Na intenção de melhor objetivar os saberes dos alunos iremos aplicar um questionário na escola a fim de conhecer melhor os problemas, deixando-os mais livres para falar de seus sentimentos, receios, percepções e dúvidas. Assim que conseguirmos atingir uma boa representatividade do universo escolar, partiremos após diagnóstico para o desenvolvimento de projetos específicos.

O observatório da infância, por exemplo, discute com bastante propriedade o fenômeno Bullying e traz boas sugestões para desenvolvimento de projetos na escola. Inclusive apresenta um questionário bem fácil de aplicar, resguardando identidade do aluno e ajudando a pensar. Clique aqui e saiba mais.

O que foi interessante constatar após a primeira etapa do projeto (palestra e vídeo), alguns depoimentos favoráveis dos alunos que se dizem felizes em discutir o tema, com mais abertura e menos receio, inclusive citando a mídia, entender mais e porque puderam ilustrar seus sentimentos, assim que encontram os professores envolvidos no projeto falam sobre conhecimentos adquiridos, novas leituras, inclusive algumas confidências.

- Se você tiver alguma experiência ou sugestão para compartilhar conosco estamos sempre por aqui ou na escola.


Imagem 1: http://3.bp.blogspot.com/_vutfg0bV2GI/TEZg040NFiI/AAAAAAAAAu4/Y0WDhjCMYrs/s1600/lotus7.jpg
Imagem 2: http://www.imotion.com.br/imagens/details.php?image_id=9638

7 comentários:

  1. Ei, Maria

    Muito bom esse trabalho!!!
    Acho que esse é o caminho: reconhecer a existência dessa prática, dialogar, ouvir o que os alunos têm a dizer, deixá-los propor soluções, apresentar o ponto de vista da escola em relação ao bullying. Enfim, lançar a sementinha e dar abertura para que as flores surjam do lodo.
    Parabéns a todos os envolvidos no projeto.

    Forte abraço

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  2. Muito bacana que se promova espaços de discussões e reflexões sobre esses e tantos outros assuntos que se fazem presentes dentro da escola. Que essa experiência traga mudanças reais numa realidade que ainda é tão cruel.

    Abraços apertados em você, Maria!

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  3. Caríssimos Max e Isabele,
    Encontrar o tom certo para falar de coisas tão sérias, duras e não-pensáveis (questão traumática para uns ou inconsciente para outros), e sair da mera conceituação ou exposição de casos, acusações ou apelos morais, caindo no lugar-comum do pode/não pode, certo/errado... pois, isso os alunos sabem de cor e salteado, falam de regras de convivência e se sentem atraídos por atos não tão certinhos assim, por quê?
    Esse tom veio da lembrança do filme "A ponte para Terabítia", que havíamos trabalhado na escola em outra situação, há quase três anos atrás.
    Precisamos de sonho, de envolvê-los em beleza, de saber reconstruir e recolocar o discurso... a linguagem semiótica faz sonhar e daí ideias podem saltar aos olhos, nos toques, nos andares...
    Temos esperança. Basta!
    Outros abraços forte e apertados a vocês dois.
    Até!

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  4. Cara amiga, parabéns pela excelente postagem. Não é boa apenas por ser bem escrita (como soe acontecer em todas as suas postagens) e suscitar reflexões mil, mas porque trata de um tema importante para a juventude com graça e competência. Creio que deves ter escrito um artigo sobre essa experiência. Publique-o nalgum congresso.
    Abraços paraônicos
    Franz

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  5. Caro amigo virtuosíssimo!
    (gostou desse superlativo? merece! rs)

    Para nós só tem sentido quando podemos incluir os alunos e alunas em nossas reflexões, levantar percepções deles e sentir o quão dolorido é tratar de assuntos sobre cotidiano e violência e o quão prazeroso é vê-los ilustrar sobre afetividade, beleza, poesia, possibilidades atravessando o discurso sobre Bullying, esse tom se fez importante para que o ponto e o contraponto fizem a diferença nas representações dos alunos. E despertasse interesse em saber mais de forma espontânea, autônoma.

    Querido amigo, ainda estamos desenvolvendo no âmbito da escola, há etapas a cumprir, podemos pensar mais adiante o que nos sugere.
    Muito bom trazer a "sua rua" para cá!
    Abraços afetuosos!

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  6. Oi Maria!
    Passar por seu blog é sempre um aprendizado porque sabes muito bem organizar as idéias e expor de modo que os leitores compreendam. e uma alegria por ver um trabalho tão bonito e necessário! Parabéns!
    Josete
    http://teofilopreservamata.blogspot.com

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  7. Oi Josete!
    Desenvolver o trabalho na escola junto aos técnicos, professores e alunos nos ajuda a dialogar também com a comunidade e ampliar a pretensão de conversar sobre a paz e o amor, como antídotos necessários para a gente viver.
    O planeta agradece, pois essa também é a melhor forma de divulgarmos a educação ambiental, bandeira de nossa escola, com respeito aos humanos que são natureza, convivem e se nutrem, de forma não tão sustentável, neste pedaço cósmico com tantas outras formas naturais, culturais e históricas.
    Gosto também do teu cantinho nesta blogosfera.
    Parabéns pelo desempenho no "Top Blog", deixei lá meus votos para você. Até!

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