sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ítalos-brasileiros: bate no peito uma saudade que não sei dizer qual


Morar no Brasil?

Interesse Italiano: a fome e a pobreza crônica (hic et nunc); a Terra, o Trabalho, a Liberdade, o sonho...

Interesse Brasileiro: a terra ociosa, a ameaça da perda, o interesse espanhol, a mão-de-obra especializada, a terra produtiva, e o seu lado deprimente por conta da política de época: o preconceito populacional de ter grupos socialmente inferiorizados, e de querer "branquear" seu povo ao tentar reduzir o grupo negro pelo grupo branco, uma real intenção de drenar descendentes mestiços.

O desafio: a travessia do Atlântico, o jogo no escuro, naufrágios comuns, mortes, angústias.

Do governo italiano: economia estagnada; diminui a população, sobra alimento; aos de lá, recomeçar a vida no meio do mato e entre animais ferozes, envio de "valores" para os que aqui chegaram: a distância, a saudade, a terra desconhecida, à deriva. O ministro das finanças da Itália considerava tais remessas um "ruscello d'oro" (filete de ouro).

A esperança: viver com mais dignidade e alegria, porém, longe da Terra Natal e das raras festas barulhentas. Cá vieram e a Itália prospera, levanta mediante capitalismo agrário - a construção das primeiras fábricas (laticínios, pecuária, agricultura), é a certidão de nascimento na era industrial.

Recebi de meu irmão a missão de investigar sobre nossas origens italianas. Nosso pai faleceu em 1989. Meu avô, pai do meu pai, faleceu na década de 50, com problemas renais. Eu nasci em 1962. Não cheguei a conhecê-lo. Fujo um pouco do tema do Blog em busca de conhecer mais a família. Hoje mesmo entrei em contato com dois ítalos-brasileiros que me forneceram algumas imagens. Agradeço à família Stringari, através de Antônio Cláudio Stringari, que me enviou a imagem do Vapor Henri-IV. Visão longíqua.

- O que sabemos?

Nossos ascendentes saíram de Porto Le Havre (França) em 17 de novembro de 1877. O commandantte do Vapor “Henri-IV” era o Capitão Boullenger. Chegaram ao Rio de Janeiro (Brasil) no dia 13 de dezembro de 1877. No navio estavam 530 emigrantes. Mas, desembarcaram 531. Ora só, uma menininha nasceu durante a viagem. Características dos emigrantes: 106 famílias e 24 emigrantes solteiros. De nacionalidade italiana (474), austríaca (44) e belga (12). Todos agricultores e catholicos. Solteiros (317), Casados (194) e Viúvos (19). Masculino (306) e Feminino (224). Acima de 12 annos (321), de 2 a 12 annos (157) e abaixo de 2 annos (52).

No diário de bordo constavam as seguintes observações “geraes e complementares”: “fallecerão trez creanças, uma com 2 annos e duas de 1 anno”. Nasceu a bordo uma menina. Ao todo desembarcaram 531 immigrantes. Quatro deles declararam que voltaram ao país de origem porque não eram agricultores. Dentre eles “vierão” 12 maiores de 45 anos. Consta ainda, nos seguintes termos, dentre os desembarcados: “um aleijado e outro idiota”, nesta transcrição aqui omiti o nome das crianças, daqueles que tiveram que retornar e de pessoas consideradas na época com deficiências.
As condições dos vapores ou paquetes, como eram designadas essas embarcações, não eram muito boas, os emigrantes vinham amontoados, em porões abafados, mal iluminados, geralmente superlotados, e, as condições de higiene muito precárias.

E dentre os 474 italianos, estava a família Rodi, composta por nossos queridos parentes, vindos de Mantova - Lombardia, ao norte da Itália, faz fronteira com a Suíça e a Áustria, cuja capital é Milão. Eram ao todo 11 pessoas. Meus tataravós: Theodoro Rodi e Maria Carnevali Rodi (41 e 34 anos) e as crianças: Ângelo (meu bisavô), com 11 anos; Virgínia (10); Pasqua (8); Domenico (7); Redobaldo Artenio (5), Adamo (2) e Rosa com 8 meses. Além do casal com mais de 45 anos: Guiseppe Rodi (64) e Antonia Rodi (62). Há informações de que os Rodi vieram de Portiolo, da comuna San Benedetto Po (Mantova, Lombardia Itália), segundo registro de nascimento de Adamo e Redobaldo Artenio, tios de meu avô Luiz e certidão de casamento dos pais de meu avô paterno.

Depois de desembarcarem no Rio de Janeiro não sabemos o que aconteceu. Só sei que o pai de meu avô se chamava Ângelo. Meu avô veio morar em Paranaguá (PR), vindo de Itajaí (SC). Tinha uma madeireira. Era um homem de respeito na cidade. Pela idade de meu avô e a história que meu pai contava de seu avô, bate com a idade do Ângelo Rodi.

Minha avó, mãe de meu pai, também é de origem italiana (Trento, Borgo Valsugana). A família é Arboit (Arbouit) e, segundo minha mãe, é também Casagrande. Esta é uma outra história que precisamos resgatar. Não sei da história de sua emigração, apenas que vieram em 1877 e desembarcaram no Porto de Paranaguá (PR), Domenica, Giacomo, Giovanni Battista, Marco, Marco, Maria e Paola, como consta no Registro do Arquivo Público do Paraná. Meus bisavós paternos, pais de minha avó, foram João e Flora Arboit.

Estudando a história da emigração italiana para o Brasil, que aconteceu durante o período de 1876 a 1920, e hoje somos cerca de 25 milhões no Brasil, constatamos que os ítalos-brasileiros são considerados a maior população fora da Itália. Mas, nos deparamos além dos tristes números de um povo sofrido em suas duras privações, com um trecho da carta de um emigrante italiano, em resposta a um ministro italiano, que o aconselhava a não emigrar:

Que coisa entendeis por uma nação, senhor ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos do pão branco. Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos os animais, mas não comemos a carne... Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonar a nossa pátria. Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho?”. (Carta Exposta no Memorial do Imigrante/São Paulo).
TENHA ORGULHO DE SEUS HUMILDES ANTEPASSADOS
São as pessoas humildes que eu procuro,
O sal da Terra, por assim dizer,
Aqueles que domaram o solo bruto,
E fizeram nele as sementes florescer.


São estes que eu gosto de encontrar,
Quando mergulhada na estrada da genealogia.
E é apenas por orgulho que me deixo levar,
Refazendo seus passos para assim os imortalizar.

Aqueles que buscam o passado com sonhos de glória,
De encontrar heróis educados em cada história,
Não devem jamais se desapontar
Ainda que descobrirem que os humildes ancestrais
Tinham somente as estrelas para contemplar.


G. McCoy / Source: The Sunny Side of Genealogy, compiled by Fonda D. Baselt,
Genealogical Publishing Co., Baltimore, 1988, p.10

Filme sugerido: "A árvore dos tamancos" (L'Albero degli Zoccoli; El Árbol de los Zuecos), vencedor por unanimidade da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes (1978), trailler abaixo.

Esta saudade de não sei o quê, me vem cada vez que contemplo a foto de meu avô Luiz Lourenço Rodi, em seu túmulo, rosto bem típico, como o semblante de meu querido pai que também já nos deixou. Meu avô nasceu no dia de São Lourenço, dia de muitos ventos. E faleceu no dia que minha filha Lígia nasceu. Meu pai faleceu na véspera do dia do nascimento de seu pai, meu avô. Coincidências de datas. Coisas do destino da família?

Para saber mais sobre a história de nossos italianos é só clicar e pesquisar nos seguintes links:
www.mr.arquivonacional.gov.br/sian/arquivos/1017518_2943.pdf
Se souberes de outras fontes de pesquisas, entra em contato. Agradeço muito.

Imagem 2: Mapa 1: recorte Mapa Mundi
Imagem 3: Mapa 2: Mapa da Itália
Imagem 4: Vapor Henri-IV: http://www.familiastringari.com.br/a_saga_dos_italianos_do_norte.htm
Imagem 5: Mapa da Lombardia: http://2.bp.blogspot.com/_ZaKHK6TCFs4/SH0EeNr2TuI/AAAAAAAAA_U/fHo4QcDU3BU/s320-R/turismo_in_lombardia.jpg

Um comentário:

  1. È isso ái maninha estou orgulhoso de vc, "bola prá frente" eu tinha certeza que ia abraçar essa
    causa de grande valia para desvendar o passado da nossa família. Um beijão do seu irmão

    Luiz Rodi

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