domingo, 18 de abril de 2010

Rápido como um gafanhoto: a literatura infantil na diagnose de alunos do 9º ano

Problema (queixas freqüentes dos professores): indisciplina, desatenção, desinteresse pelas atividades escolares.

Situação-problema: a habitual fase da adolescência é acompanhada de vários questionamentos, provenientes da multiplicidade de leituras e movimentos que o sujeito vem e vai estabelecendo em suas relações com as pessoas que o circundam, o meio onde vive e o mundo inteiro a partir de seu primeiro e importante núcleo. A escola faz parte das primeiras instâncias dessas relações. Ao final de uma fase de estudos, em muitos bate uma insegurança pelo advir, noutros a saudade dos primeiros passos do percurso, depende do vivido e sentido. Traz também a responsabilidade que lhes significa e àqueles que depositam no sujeito toda a mudança positiva que o currículo escolar possa representar. Afinal, é a função da escola aos pais e seus responsáveis e seus significados, sonhos, sentidos e suas direções. Junto a tudo isto mexe com a própria perspectiva do sujeito, todo o seu interior é remexido pelas expectativas de vida e suas promessas. Como cada adolescente se sente? O que é a indisciplina? Por outro lado, o que seus professores esperam e lhes cobram? Qual é a responsabilidade da escola? A escolha do ensino médio começa a perturbar e a tirar o sono de alguns, antes mesmo da finalização dessa etapa básica. Desistir e se contentar com a conclusão do ensino fundamental?

A sociedade empurra todos para a continuidade dos estudos, como também, pressiona a criança a ir para a escola e aprender a ler e a escrever. Determina o que todos devem aprender na educação infantil. Tudo gira. O mundo é grafocêntrico. A cultura escrita e as novas alfabetizações estão mexendo com a rotina e valorizando os aspectos multimodais da linguagem humana. Cada fase da pessoa tem algo determinado, são exigências históricas e que o próprio sujeito se exige por fazer parte desse meio, assim historicamente se aprendeu a viver os condicionantes socioculturais e políticos das relações humanas. São os paradigmas educacionais que nos guiam. Como nos tornamos sujeitos críticos? Como nos adaptamos ao meio? Como o equilíbrio ocorre? É uma fase tranquila?

O adolescente se questiona e questiona a todos. Tal momento requer compreensão, pois, é quando eles estabelecem cumplicidade com aqueles que estão vivenciando os mesmos sentimentos a partir de seus olhares e relacionamentos.

Desafios aos educadores: como estabelecer a ponte entre o conhecimento e o vivido-percebido pelos estudantes, sobretudo, buscando exercer controle intencional, significativo e estruturado para elicitar neles um comportamento mais responsável? É preciso criar espaços nos ambientes pedagógicos a fim de ouvi-los e estimulá-los afetiva e cognitivamente. Há muitas angústias e desânimos nessas leituras de mundo que fazem. Muitas vezes não se sentem capazes de assumir as tamanhas responsabilidades que ensimesmados - ou outros - cobram. Medo de enfrentar e errar faz burlar o processo e se esconder nas reações contrárias aos desejos e pretensões. Contra os determinantes sociais e condicionantes culturais. Imaturidade protetora(?).

Como a escola vem pensando estratégias de aproximação (dos alunos), para reavaliar, com eles, os processos de estima de si mesmo, da autopiedade e das transgressões que cometem e se acometem. O que é a indisciplina - faces, interfaces e implicações? Que recados elas nos trazem nesse emaranhado? O que conseguimos perceber nesse movimento? Por que muitos abandonam a escola? Muito mais fácil dizer em nome da subsistência. Por que abrem mão de seus sonhos? Como resgatar a auto-estima, conquistar a autonomia, descobrir a autoria e nos ressignificar?

Pensando a metodologia a partir da problemática levantada e os questionamentos decorrentes e em como criar janelas de oportunidade – para se perceber nesse movimento com os alunos. Escolhemos as turmas da escola que estão na fase final do ensino fundamental, estudantes com os hormônios à flor da pele, ou seja, um mundo de sentimentos, emoções e pensamentos lhes acentuando. É fácil denominar os problemas como: alunos desmotivados e com baixa auto-estima. Complexo é propor formas de intervenção. Porém, segundo Piaget (2007), a afetividade é o combustível da inteligência; o processo cognitivo é o motor, a emoção o seu alimento. A escola exige o saber pensar. A interpretação própria, a escrita e a leitura de mundo. E como vai a leitura de si mesmo? Como dedicamos espaço a essa compreensão no processo ensino-aprendizagem? O cuidar de si mesmo nas relações com o meio e na leitura/releitura desse mundo? No aspecto do desenvolvimento humano, Wallon (2008), considera a pessoa completa quando integrada ao seu meio. O sujeito se completa em seus aspectos afetivo, cognitivo e motor. É a inteireza humana buscando se harmonizar ao meio. Estar no seu corpo e se relacionar com a sua Outridade.

A nossa ponte diante de nossa reflexão é a literatura infantil e a sua releitura (formas multimodais de dizer), proposição a nos inquirir e exigir o pensamento reflexionante, integrante da prática pedagógica reflexiva. Movimento de busca com autocrítica necessária que nos mobilizam à compreensão de que somos sempre aprendentes no processo das mediações. O que nos inclui. Atitude de pesquisa educativa a revisitar os fundamentos que sustentam as proposições, por isso, nos habilita à percepção do erro como parte intrínseca do processo. Chamamos sempre de piloto um trabalho com pretensões de se ampliar nos contextos após avaliação.

Trazemos aqui uma turma de 9º. ano para dizer um pouco dessa tentativa de mexer com a identidade natural do adolescente nessa fase da escolaridade. A inteligência é a própria vida no seu processo de adaptação. O que pensam e sentem? Que linguagem estabelecem em seu meio? Qual é o papel dos símbolos? Como se identificam através deles? O ato motor é a base do pensamento e da emoção. A práxis é importante no processo reconstrutivo do saber. A experimentação nos leva com eles a aprender. Com o que eles se identificam? O que querem nos dizer? Por que nos é importante esse diálogo? Como ele estabelece a ponte com o processo de ensino-aprendizagem? Como ele nos aproxima mais dos saberes e sentimentos dos alunos e abre espaço para outros diálogos? O papel da orientação educacional coloca o educador entre o ensino e a aprendizagem em toda a sua complexidade. Exige ainda um trabalho sistemático de acompanhamento ao longo de um ano para observar as mudanças decorrentes em todos os envolvidos a partir dos alunos, ou seja, a turma em questão. O cronograma delineia quatro intervenções ao longo do ano.

Às questões levantadas, os primeiros encaminhamentos e suas respostas: “Como me sinto? O que eu quero ser?”. A turma adorou o livro "Rápido como um gafanhoto", pediu para ler mais uma vez e para manusear suas páginas. Assim 28 estudantes, de 14 a 18 anos, se agrupavam e se debruçavam em torno do livro e outros grupos aguardavam ansiosos para também tocá-lo. História para crianças de 3 a 7 anos era o sugerido na capa do livro. A mediação propôs para os nossos jovens do 9o. ano. Assim viraram leitores do livro para crianças de todas as idades. Quanta alegria junta!

Um caderno composto por duas folhas A4 dobradas ao meio e grampeadas. A imaginação correu solta em busca de se identificar com os bichos. No ato motor (escrita e desenho), o traçado e a forma articulavam-se às ideias e aos seus sentimentos. Assim se deixaram avaliar, divertiam-se e conversavam com a pedagogia na função da mediatização do conhecimento.

Animais e significados:
Felinos Selvagens: Leão (7) – mau; barulhento em casa e na escola; forte, bonito e grande; corajoso / Tigre (4) – forte para suportar algumas coisas; esperto para estudar; corajoso em atos e decisões; Onça (1) – brava
Felinos Mansos: Gatinho (2) – frágil; / Gato (2) – carinhoso; quieto; magôo fácil com palavras / Gata (1) – sedutora
Cachorro (3) – feliz; adestrado; fiel / Cão (1) – amigo / Poodle (3) – educado / Basset (2) – triste
Ostra (5) – quieto; calmo
Pássaro (3) – voar atrás da felicidade; não dura para sempre; rápido / Passarinho (3) – livre, todos gostam de só me ver feliz; brincalhão
Touro (4) – forte por dentro e por fora; bravo e valente – sou temido; para enfrentar obstáculos; agito a galera do barulho
Macaco (4) – brincalhona; travesso; inquieto
Borboleta (2) – doce; livre e embeleza
Coelho (2) – quieto; sei me comportar; bom
Formiga (2) – pequena no tamanho e sábia na atitude; penso antes de agir
Aparecem com apenas uma representação: Tubarão (mau, estou demais); Sapo (frio, não tenho pena); Cobra (perigosa, em momentos de ameaça dou o bote); Tartaruga (calmo, preguiçoso e lento); Hipopótamo (grande); Camarão (medroso); Gavião (valente); Girafa (grande); Raposa (quente); Caracol (lento).


O próximo passo será desenvolver uma dinâmica que seja impactante e capaz de mobilizar atitudes de mudança. Algo que mexa com o desejo deles e os sensibilize a repensar suas atitudes, sem perpassar pelas famosas lições de moral e sermões pedagógicos que eles tanto reclamam e chamam de chatices de educadores.

Muitas vezes o estudante para se afirmar e ser aceito no contexto de adultos (professores, professoras; pais e mães) concordam com seus discursos, mas, no momento que estão sozinhos com seu grupo fazem tudo às avessas. Sabem dos males, reforçam os discursos, dão exemplos e depois abusam dos usos e costumes. O proibido é-lhes fascinante.

Quem já não foi jovem e fez tudo o contrário do que disse aos seus pais e mães? Uma boa parte de quem passou por esta fase cometeu pequenas ou grandes transgressões. Cigarro, cerveja, namoro, ficar até mais tarde nos "bailes", nas festas, pular a janela... Gazetear aulas. Desviar caminhos da igreja. Bater os pés. Etc. e tal.

O filme abaixo pode servir para o segundo momento. Mexer com a emoção, os sentimentos, as verdades, os não-ditos. Possibilitar desconstruções e mudanças.

Referências:
FONSECA, Vitor da. Pedagogia mediatizada: transferência de estratégias para novas aprendizagens. São Paulo: Salesiana, 2002.
PIAGET, Jean. Para onde vai a educação? 18 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
WALLON, Henri. Do ato ao pensamento: ensaio de psicologia comparada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
WOOD, Don. Rápido como um gafanhoto. Ilustração Don Wood. Tradução Gilda Aquino. São Paulo: Brinque Book, 1982.

Imagem 1: http://thumbs.dreamstime.com/thumb_240/1203860444dDB9cr.jpg
Imagem 2: http://www.planetaeducacao.com.br/portal/imagens/artigos/diario/conceitos_03.jpg
Imagem 3: http://1.bp.blogspot.com/_D88NysPL3z4/SfHGecTAEKI/AAAAAAAACGY/8Qes5JuJA3Y/s320/JOVEM+LENDO.jpg
Imagem 4: http://www.portaldeensino.com.br/livros/images/rapidocomogafanhoto.jpg

4 comentários:

  1. Oi querida! Achei lindo vc oferecer o livro "para crianças" aos adolescentes e terem se interssado. Realmente, a sociedade vai ditando as regras e às vezes a gente sai catalogando tudo: isso é pra criança, isso é pra mulher, etc. E é tão rico quando se pode conhecer as infinitas possibilidades de leitura e de vida, de leitura de vida!
    Parabéns pelo seu trabalho!

    PS. Achei o vídeo bem emocionante, e impactenate tbm.

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  2. Olá Isabele!
    Apostamos nas crianças e nos jovens de todas as idades. Uma professora se espantou com a escolha do conteúdo cheio de termos técnicos por parte de uma turma da EJA e do quanto eles se empenharam em aprender e escrever relacionando-o com o seu cotidiano. Assim enfrentaram a barreira da língua escrita com a cooperação da professora de português. Tudo pode ser diferente depende do jeito que a gente vê, sente e procurar ousar no processo da mediação, não é mesmo? Os alunos nos surpreendem. Esse caso tem sido uma deliciosa redescoberta. Agradeço seu comentário e que bom que gostaste do vídeo também. Vamos ver como os alunos reagirão.

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  3. Olá boa amiga!

    Estamos de volta à rede, em plena atividade. Sentimos muita falta das nossas trocas de conhecimentos, apesar de estarmos sempre de olho nos acontecimentos. Estamos atravessando uma fase de muito estudo para seleção em concursos, pós-graduação, formação continuada, o que nos afastou um pouco das postagens. Creio que agora estamos um pouco livres, ao menos por enquanto.

    Que vídeo maravilhoso.

    Bjus...

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  4. Olá quarteto!
    Passei antes por lá, no "Alfabetização em Foco", antes mesmo de saber que vocês passaram por aqui, bela sincronicidade "netiana"! :)
    Desejo a vocês muito sucesso mediante os objetivos a que se propuseram em 2010.
    Em relação ao vídeo, estamos bastante confiantes na realização da próxima etapa, também adorei e espero que envolva nossos alunos e ajude na desconstrução necessária para mobilizar novas e boas aprendências mútuas.

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