domingo, 4 de abril de 2010

Desenhos fora do papel: o percurso inicial da escrita


Os gestos são como a escrita no ar (Vygotsky, 1988). O corpo é o papel que inscreve a nossa vida. A escrita vem do corpo. Nele, o registro das páginas do tempo. Quais são as marcas do corpo nos espaços que ele ocupa, deseja, sonha e se inscreve? O corpo se apresenta ao mundo e por intermédio dele questiona o Outro em busca de marcar identidades e suas personalidades.

Piercing, tatuagens, cicatrizes, sinais de beleza, cabelos, maquiagens, jeito de andar, jeito de tocar, jeito de responder, jeito de corresponder, modos de ser, sentir e existir com o Outro e em si mesmo. O corpo é o nosso papel, cujas páginas são viradas no tempo, ritmo e territórios que se adentram e se descortinam. Permanências. Transcendências.

Trazemos marcas da infância, de nossas carícias, das carícias materna, da forma como éramos acariciados e de como acariciávamos nossa mãe, seu seio, como éramos acolhidos no colo, nas trocas, nas limpezas, nos olhares, nos cantos e seus embalos. Risos, sorrisos, choros, balbucios e tagarelices no acordar da manhã antes do mamar. Outras escritas no ar. Novas outras. Processos de subjetivação. Marcas pessoais e dialogadas. Confidências e cumplicidades. Afagos importantes. Significantes. Nossa história nos inscrevia nos diálogos do corpo com e no mundo. Outras crianças. Outras mães. Outros grandes. Novas relações. Diferentes desafios. Assim fomos desenhando nossos percursos até chegarmos à escola.

Lá também fomos garatujando sensações no papel. Quais foram as formas primitivas? Bailavam no papel? Perfuraram? Pressionaram? Arremessaram-se? Como foram graduadas e evoluindo? Quando chegamos a constituir um círculo completo? Talvez por volta do tempo de compreender a escrita fonética exigente? Olhos mais centrados. Espíritos mais abertos às novas formas de dizer. Mais curiosos. Mais libertados. Quantas possibilidades se somaram? A função social e psicológica da cultura escrita em nós.


A carícia é uma proto-escrita fundamental e à nossa compreensão.

Antes do tocar na superfície plana, avolumamos nossas inscrições no espaço. Modelagem? Construções? Danças? Abraços? Relações? Como nos bailávamos no ar? Mímicas? Reinventamos gestos? Dramatizamos? Criamos novos cenários e cenas a personagens e suas histórias conhecidas? Recontamos?

Luria (2006) considera que a escrita por meio de desenhos, integra o desenvolvimento da escrita infantil. Como lemos as escritas das crianças? Qual é o significado da fase pré-silábica? Como ela está sendo vivenciada? Por que algumas crianças permanecem pré-silábicas?

Muitas histórias a conversar, a trocar, a colocar imagem em ação... Nessa interlocução, aprendemos com Wallon (2008, p.223), que "não existe conceito, por mais abstrato que seja, que não implique alguma imagem sensorial, e não existe imagem, por mais concreta que seja, que não tenha por base uma palavra e não faça entrar os limites do objeto nos limites desta”.

Por enquanto, nesse espaço deixo inscrito os novos desejos por conhecer. Desenhos fora do papel, importante etapa que nos aproxima dos conhecimentos wallonianos em interface com Luria, nos convida à sensibilidade e orientação lacaniana, a não-satisfação do desejo, perpassando pela perspectiva winnicottiana e de Piera Aulagnier a nos enriquecer por intermédio de Ricardo Rodulfo e outras fontes. Tais desenhos constituem, revisitam e fortalecem a fase importante da pré-história da linguagem escrita. Novas possibilidades de interpretação e dialogias.

Como a mãe se reflete na criança e como ela se espelha na mãe. Jogos de carícias – tocares – representados na superfície plana. O espelho. A folha. Que olhares temos construídos para essa escrita que se inscreve e inaugura-se na folha, no chão, na parede de casa, no muro do vizinho, na mesa da vovó, em territórios que se mostram ou se nos escondem...

Que carícias são essas? Quem são os sujeitos acariciados? Não se tocam? Maltratam-se? Como as vozes se chegam? Aconchegam?

O corpo fala. A escrita espelha. A carícia marca. Dizem. Jogos de encontro no espelho. De encontro e desencontro na folha. Releituras. Qual é o papel? Processos de subjetivação e autorias ressignificadas. Mediadores são mediados durante processos das aprendências, isto inclui os aprendentes-ensinantes.
Vamos continuar a dialogar. Aprendizagens que caminham. O corpo é sagrado. A folha, também, território sagrado. Garatujas se personalizam. Estamos nas carícias e no papel. Grafismos policromáticos. Vivências que se entrecruzam em processo de humanização autopoiética.

Temos a nós mesmos como objetos do conhecimento, é a autorreferencialidade no emprego das linguagens poéticas, formas de subjetivação que se articulam, possibilitam o conhecimento do outro e suscitam novos questionamentos reconstrutivos. Olhamos a criança e ali estamos nos redescobrindo em nossa fragilidade e inteligências humanas. O conhecimento transversaliza. A criança desarruma permanentemente o saber-poder do adulto. A vida continua. Vamos repaginando o corpo e nos inscrevendo na vida.


Referências
ANNING, Angela; RING, Kathy. Os significados dos desenhos de crianças. Porto Alegre: Artmed, 2009.
BEDÁRD, Nicole. Como interpretar os desenhos das crianças. São Paulo: Isis, s/d.
COX, Maureen. O desenho da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
DERDYK, Edith. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo: Scipione, 1999.
FERREIRA, Sueli. Imaginação e linguagem no desenho da criança. 4 ed. Campinas, SP: Papirus, 1998.
GREIG, Philippe. A criança e seu desenho: o nascimento da arte e da escrita. Porto Alegre: Artmed, 2004.

LURIA, Alexander Romanovich. Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais. 5 ed. São Paulo: Ícone, 2008.
LURIA, A. R. O desenvolvimento da escrita na criança. In: VIGOTSKII, L. S. et. al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 10 ed. São Paulo: Ícone, 2006. (p. 143-189).
MÈREDIEU, Florence de. O desenho infantil. São Paulo: Cultrix, 2006.
MARQUES, Maria Lucia. Quando as crianças permanecem pré-silábicas. In: AZEVEDO, Maria Amélia; MARQUES, Maria Lucia (Org.) Alfabetização hoje. São Paulo: Cortez, 1994. (p. 11-28).
MONTAGU, Ashley. Tocar: o significado humano de pele. 6 ed. São Paulo: Summus, 1988.
PERONDI, José Dario; TRONCA, Dinorah; TRONCA, Flávia Zambon. Processo de alfabetização e desenvolvimento do grafismo infantil. Caxias do Sul: EDUCS, 2001.
PILLAR, Analice Dutra. Desenho e construção de conhecimento na criança. Porto Alegre: Artmed, 1996.
RODULFO, Ricardo. Desenhos fora do papel: da carícia à leitura-escrita na criança. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
SANS, Paulo de Tarso Cheida. Pedagogia do desenho infantil. 2 ed. Campinas, SP: Alínea, 2007.
TEBEROSKY, Ana. Psicopedagogia da linguagem escrita. 12 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
WALLON, Henri. Do ato ao pensamento: ensaio de psicologia comparada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

Imagem 1: http://www.agendatenini.com/mediac/400_0/media/Materna-detalhe.jpg
Imagem 3: Maria Izabel, de 3 anos e 10 meses (arquivo pessoal).
Imagem 5: Wendell, com 4 anos e 5 meses (arquivo pessoal).
Imagem 6: Mulher ao espelho (Pablo Picasso), em:
http://fotos.sapo.pt/ybCZHcUyozZYa9s1YHyf/s320x240

3 comentários:

  1. Bom dia, Rocio.
    Lindo post, eu adoro este tema. O corpo fala, realmente. E como fala.
    Desejo à você uma boa semana.
    Beijo grande.

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  2. Bom dia, minha querida amiga.
    Os desenhos realmente falam muito por nós. Foi através dele que as assistentes sociais descobriram o endereço daquele menino que foi sequestrado por um homem a Alagoas e trazido para o Rio.
    Bom dia para você.

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  3. Boa tarde!
    vim, te visitar e te oferecer o selo amizade especial e deixar o meu toque de carinho e amizade
    san

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